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A representação do feminino nos jogos digitais

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, em 10 de agosto de 2018, página A2.
Por Thífani Postali, professora da Uniso

Por muitos anos, os acadêmicos discutiram a representação de gênero nas produções audiovisuais, sobretudo, a representação do feminino quando comparada à do masculino. O resultado é que temos diversos estudos, especialmente em cinema, que apontam como a mulher foi representada de maneira taxativa pelos seus produtores. Aos olhares mais atentos, dependendo da produção, é possível identificar se o olhar oferecido ao espectador é masculino ou feminino.

Algumas atitudes são claramente identificáveis: as mulheres são apresentadas com super close up, em detalhes como boca, seios e outras partes do corpo, de modo que se resulta na objetificação da mulher. Outro ponto já bastante estudado são as narrativas dialógicas: enquanto o homem é ativo, herói, a mulher é passiva e, quase sempre, sua personagem refere-se ao relacionamento com o homem, do qual é dependente.

Nos jogos digitais, essas observações se tornam ainda mais possíveis, visto que as representações são intensificadas. Neles, as mulheres são representadas de modo frágil, como personagens que não têm noção sobre a coisa. Afinal, quem vai para a luta de vestidinho vermelho curto e seios aparentes?

Desde o início dos jogos digitais, a figura da mulher é representada de dois modos: ou como as mocinhas de Hollywood que, indefesas, devem ser salvas pelo herói — uma das primeiras personagens foi a Princesa que surgiu em Donkey Kong, 1981, e se tornou a Princess Peach da série Super Mario Bros –; ou como as lutadoras de rua e guerreiras que, desde os anos 90, já se apresentavam com poucas roupas e pernas aparentes, seios e bundas avantajados, além dos movimentos sensuais e sonoridade que beiram a pornografia. Chun Li, a primeira personagem feminina de Street Figther, de 1991, luta mostrando as pernas grossas, e seus movimentos erotizados fazem com que sua calcinha apareça em quase todos os golpes. Já em Streets of Rage, lançado pela Sega em 1990, a personagem Blaze Fielding segue as mesmas características. Blaze até ganhou uma versão independente disponível na internet: Naked Blaze, em que o jogador pode jogar com a personagem totalmente nua.

Se fizermos um levantamento das principais produções realizadas desde 1990, podemos perceber que ainda são raríssimas as personagens que não se apresentam com essas características. Até mesmo aquelas que possuem melhor representação, como a Lara Croft da série Tomb Raider ou as personagens da série Resident Evel, não escapam. Recentemente, com o aumento — ou a coragem das mulheres em se assumirem jogadoras de jogos de agon — algumas produtoras têm melhorado as representações. Em The Last Of Us (2013), Elie, Marlene, Tess e Sarah estão bem mais próximas da realidade: são femininas, mas não sensualizadas ou erotizadas. Por outro lado, antigos grandes títulos, como Street Figther e Mortal Kombat, continuam apostando na objetificação. Curiosamente, a personagem mais recente de Street é a brasileira Laura, que, além de acolher todas as características já mencionadas, é tratada com posições de câmera que mostram suas aberturas de pernas e movimentos que beiram a pornografia.

Essas questões devem ser discutidas, uma vez que as representações, por mais fictícias que sejam, possuem algum impacto na percepção sobre o social. Certa vez, perguntei aos alunos de jogos digitais (meninos) se a Laura parecia com o que viam na realidade. Fui surpreendida com as respostas positivas de alguns, que alegaram que ela é como a maioria das meninas. Então os convidei a observar quantas “Lauras” encontravam no pátio da universidade.

Em suma, o mercado de jogos digitais tem crescido de forma significativa e essas questões devem ser problematizadas, uma vez que as ficções, muitas vezes, são incorporadas à realidade.

Link para o artigo: https://www.jornalcruzeiro.com.br/opiniao/artigos/a-representacao-do-feminino-nos-jogos-digitais/

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A vez das patroas: um novo olhar na música sertaneja

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, em 10 de julho de 2018, página A2.

Por Thífani Postali

Há alguns anos escrevi sobre a transformação da música sertaneja em um produto esvaziado pela indústria da música, marcado pelo chamado sertanejo universitário, cujas letras carregadas de repetições como “taim taim taim” , “che, che, che”, representavam o feminino de modo estigmatizado, numa posição submissa com relação à figura masculina, situação diferente das letras que estouraram nas décadas de 1980 e 1990, que lamentavam a traição ou o abandono da mulher cruel.

 Mesmo com as letras que colocavam a mulher em uma posição de superioridade, até pouco tempo, as produções e interpretações sertanejas eram realizadas quase que totalmente por homens, sendo que as mulheres apareciam apenas na forma de representação verbal, com raras exceções de duplas e nomes como As Galvão, As Marcianas ou, até mesmo, Fafá de Belém, que teve bastante visibilidade quando gravou a canção Nuvem de Lágrimas de Chitãozinho & Xororó.

Recentemente podemos acompanhar uma leva de mulheres que não só interpretam canções, mas que também compõem oferecendo uma nova roupagem ao gênero musical. Marília Mendonça, por exemplo, tornou-se a protagonista desse novo modo de fazer sertanejo, oferecendo narrativas que não exaltam o feminino ou o masculino, mas que os coloca de modo mais equilibrado. Cabe ressaltar que as duplas femininas das décadas passadas também ofereciam canções sobre o amor, mas na maioria das vezes, assim como as masculinas, produziam conteúdos de lamúria sobre os relacionamentos.

Ainda que o tema central seja o relacionamento amoroso – dominante em quase todos os gêneros musicais, as letras de Marília Mendonça contam histórias e situações mais suaves, alcançando um público mais genérico, fato que fez com que duplas renomadas no circuito sertanejo, como Henrique e Juliano, apadrinhassem suas composições. Nas narrativas, geralmente, as situações ocorrem no presente e, mesmo que uma ou outra aborde a traição – não tão frequente como antigamente –, a voz feminina da canção assume uma posição ativa, com mensagens que valorizam a mulher ou o relacionamento equilibrado.

E mesmo que ainda seja possível encontrar algumas narrativas  que remontam à ideia do homem traído pela mulher cruel, ou outras que colocam a mulher em situação de submissão, como no sertanejo universitário, hoje o que prevalece são as letras mais equilibradas quanto às questões de gênero, criadas por um olhar feminino mais atento.

Cabe lembrar que este artigo não pretende depreciar certas produções, e sim apontar diferentes formas de conteúdo, levando em conta que os textos culturais, de alguma forma, impactam no imaginário coletivo e podem provocar reflexões ou cristalizar estigmas sociais, neste último caso, contribuindo para a naturalização de questões que devem ser repensadas. Como a discussão é a posição feminina, passamos do olhar masculino sobre a mulher cruel que trai, para a mulher fútil, que está interessada apenas nos Camaros Amarelos, bebidas e festas oferecidas pelo homem para, agora, a mulher que tem voz, que é dona de si.

Posto assim, a música, com todo o seu arsenal comunicativo, é elemento cultural que oferece potencialidades para se pensar a sociedade e serve também como artefato para refletirmos as representações e relações sociais. Portanto, deve ser problematizada à luz das ciências. Ainda há muito que refletir sobre as relações de poder presentes nas canções sertanejas desde que o tema relacionamento amoroso tornou-se central.

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Artigo publicado em e-book

Título do livro: Gêneros, diversidades, tecnologias e smart city.

Capa e-book MidCid 2018

Título do artigo: Era para Ser Sobre Hip Hop, mas Tornou-se o Espetáculo do Popular: Uma Análise do Documentário Fala Tu
Thífani Postali

Link para o e-book completo: http://www.youblisher.com/p/1973088-Generos-diversidades-tecnologias-e-smart-city/

Política e religião: um relacionamento sem fé?

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, página A2, em 17 de abril de 2018.
Thífani Postali
com Isabella Reis Pichiguelli 

Nós, brasileiros, temos nos agitado mais com relação à política nos últimos anos. Ainda que pouco compreendamos os processos legais e ilegais correntes na esfera pública, uma coisa é fato: descobrimos que política nos interessa e que religião se discute, ainda mais quando presenciamos um afloramento de religiosos se embrenhando nos caminhos tortuosos da política, ao passo que vemos políticos, das figuras mais contraditórias, se alinhando aos que se dizem “homens de fé cristã”, ainda que defendam ações totalmente contrárias aos ensinamentos de Jesus Cristo.

Rubem Alves esclarece que dentro dos limites do mundo profano debatemos sobre as coisas que se nos apresentam de modo concreto e visível, ao passo que o mundo do sagrado se refere às coisas invisíveis, que estão para além dos nossos sentidos comuns, que “apenas os olhos da fé podem contemplar”. Assim, as religiões tornaram-se fundamentais para a vida humana, na medida em que buscam explicar os fenômenos e os sinais que estão para além da manipulação humana, dando-os sentidos e significados, inclusive para o cotidiano profano da vida.

No entanto, a humanidade é diversa e as trocas culturais apresentaram diferentes formas de explicar e dar sentido à existência da natureza. Ao mesmo tempo, muitos grupos culturais buscaram impor a sua crença àqueles que julgaram diferentes ou que “desviaram” do caminho. Em alguns períodos e locais, religião e política caminham de mãos dadas, impossibilitando o diálogo entre diferentes percepções pelos olhos da fé — ou não. A Idade Média nos apresentou um período de julgamentos e eliminação do diferente, ao passo que o Oriente Médio ainda hoje nos mostra o desastre resultante da fusão entre o poder do Estado e o poder da religião.

Ocorre que, no Brasil, falamos de mundos sagrados. Por sua história e miscigenação, a cultura brasileira integra crenças das mais variadas, incluindo as híbridas, que emergiram no país com a vinda de africanos, europeus e outros povos. Por esse motivo, a nossa Constituição decreta o Brasil um país laico, mas essa ideia está apenas nos documentos oficiais, não se traduz no cotidiano, sobretudo, nas atitudes daqueles que riscam e rasgam papéis.

Como falamos no início, estamos num momento em que homens que se dizem religiosos buscam alcançar a vida política, o que tem crescido nos últimos anos. O grande problema dessa relação é que, muitas vezes, a religião não passa de um escudo para a prática de atos que só dizem respeito a seus próprios interesses. Para falar do cristianismo, evidenciado por muitos desses políticos: que fé cristã é essa que não olha para o próximo, não se importa com o que o outro diz, não se revolta contra as injustiças sociais e, pior, por diversas vezes corrobora com as injustiças? Ainda que existam, infelizmente são poucas as figuras públicas que podem dar bons exemplos de como a fé cristã pode motivar uma prática política em prol do bem de todos e da justiça social.

Em nome da religião, muitos tomam decisões à luz do próprio umbigo. Inquestionavelmente, dessa maneira se torna falsa a religião. No entanto, exposta às mídias, pode ser conhecida por muitos como legítima. E o perigo das religiões falsas, tomadas como legítimas, é justamente que chamam para si um poder exterior que se baseia no exclusivismo e na destruição do diferente. O Estado laico e a convivência entre as religiosidades, já frágeis no Brasil, ficam ainda mais ameaçados. A todos nós, religiosos ou não, é hora, inescapável, de nos voltarmos às mensagens originais e compreender, atentos e alertas, de que falam e o que pedem as religiões legítimas. O voto, ao menos por enquanto, ainda cabe a nós.

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A publicidade que toca questões sociais.

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, em 09 de janeiro de 2018, página A2.

Por Thífani Postali

Os textos publicitários (verbais, audiovisuais, impressos, etc.) sempre acompanharam, em sua maioria, os discursos sociais dominantes, inclusive, reproduzindo imagens estigmatizadas dos diversos grupos sociais.

Com relação à representação da mulher, até meados de 1980/90, as peças apresentavam a imagem da “mulher ideal” para os padrões do século 20. O arquétipo mais utilizado nesse período foi o da “grande mãe”, ou seja, a mulher devota ao lar, aos filhos e ao marido, como aparece nas campanhas de margarinas, eletrodomésticos e produtos de limpeza. Outro arquétipo feminino utilizado a partir do final do século 20 e em abundância até a atualidade é o da sedutora, com base na representação da deusa Afrodite, que pode ser identificada em campanhas de vestuários, cosméticos, etc.

As representações com apoio no arquétipo da guerreira (Atena) surgiram com força no século 21, quando os questionamentos sobre o papel social da mulher ganharam mais visibilidade com o avanço das novas tecnologias da comunicação, especificamente, com os diálogos propiciados pelas redes sociais, em conjunto com as novas representações do feminino no cinema, nos jogos digitais e em outras produções midiáticas. Ainda que alguns segmentos continuem trabalhando a imagem de modo taxativo, como insistem algumas marcas populares de cerveja, é possível observar uma mulher mais ativa e dona de si em outras campanhas, inclusive de produtos de limpeza e outros produtos de consumo no lar.

Outro recorte que merece atenção é a representação do negro que, até pouco, era ausente nas campanhas publicitárias de um país cuja maioria da população se percebe como negra. Quando apresentado no passado, o negro surgia de forma estigmatizada ou com textos de humor que seguiam discursos dominantes-preconceituosos. Hoje, no entanto, aparece inserido em diversas campanhas e outros produtos midiáticos, muitas vezes, como protagonista dos textos.

O mesmo vem acontecendo, mas de modo mais tímido, com a representação de diversidade sexual e de gênero. Cabe lembrar que, até o século passado, era praticamente inexistente a representação de homossexuais, transgêneros, transexuais, entre outros grupos, em peças publicitárias. Em outros textos midiáticos, como as telenovelas, os grupos eram apresentados de modo bastante taxativo, o que apenas colaborava para um olhar estigmatizado, em acordo com o senso comum generalista. Parece que agora há mais representatividade, ainda que eu acredite que falte um pouco de sensibilidade quanto ao tratamento dado por muitos publicitários, que estão tendo que produzir conteúdos que, em alguns casos, não dominam – o que acaba produzindo novos textos generalistas – assunto para outro artigo.

Há quem reclame que essa é uma jogada de marketing para chamar a atenção. E claro que é, ainda mais considerando que a publicidade, como mencionado anteriormente, busca reproduzir os ideais do público que almeja atingir. Nos últimos anos, pudemos acompanhar peças que, inclusive, questionaram o senso comum e a própria generalização existente na publicidade do século passado, o que parece apontar para um novo rumo discursivo em consonância com as novas gerações de consumidores, que se apresentam menos passivas quanto aos discursos engendrados no senso comum da sociedade no século 20.

Em suma, mesmo que seja jogada de marketing e que, portanto, sabemos que o discurso pode mudar a qualquer momento para acompanhar novos ideais dos consumidores, prefiro os discursos sobre as questões sociais aos fechados do século passado. Estes, pelo menos, estão alinhados à ciência e podem contribuir para uma sociedade mais justa e inclusiva.

Link: https://www.jornalcruzeiro.com.br/materia/850141/a-publicidade-que-toca-as-questoes-sociais

Elas chegaram ao cinema

Artigo publicado no jornal Cruzeiro do Sul, em 03/10/2017, página A2.

Roger dos Santos
Thífani Postali

A memória que se tem das personagens femininas no cinema, por muitas vezes, sugere a figura da moça delicada, inocente, ingênua, quando não a da doce mãe ou da figura materna que cuida melhor dos filhos do que de si própria. A representação da avó, quase um anjo, recebe as crianças, brinca, cozinha, comunica-se com a inocência, um perfil criado para existir como liberta dos problemas da vida.

O leitor pode ter se lembrado de figuras célebres no cinema do século passado que se relacionam com as considerações apresentadas, como Branca de Neve ou Cinderela, que nos desenhos do cinema e dos livros foram e são vistas por gerações até hoje. São textos que repisam o lugar da personagem feminina como impossibilitada da posição de decidir.

Nas produções mais recentes as mudanças são perceptíveis e a lista não é pequena, da animação ao cinema de ação e ficção, finalmente, elas chegaram.

Há 26 anos, em Exterminador do futuro 2, Linda Hamilton, ao interpretar Sarah Connor, viu seu papel repaginado em relação ao anterior, de sete anos antes, 1984. A Sarah Connor do segundo filme tinha conhecimento e treinamento militar, tinha um plano a ser executado, estava pronta ao ataque quando necessário.

No avançar dos anos, no contexto das economias globalizadas em que a mulher na vida real assume cada vez mais responsabilidades, chega-se à segunda década do século 21 com a mostra que as personagens femininas assumiram o protagonismo. Exemplo das grandes bilheterias atuais são Rey e Jyn Erson em Star wars; Rapunzel, não mais apenas uma donzela aprisionada; Merida, a princesa escocesa arqueira e consciente que seu futuro não será apenas de se seguir protocolos, e até João e Maria cresceram e se tornaram guerreiros.

Posto assim, parece que o cinema tem buscado reparar as formas de representações estereotipadas que dominaram a sua história. Todavia, mesmo com o protagonismo alcançado em alguns títulos, importa ainda a reflexão sobre as representações quando comparadas às dos personagens masculinos. Deve-se questionar sobre a quantidade e formas de representação a partir do roteiro, como “o que motiva a história dela?”.

Indagações como essa foram levantadas já em 1985, quando Alison Bechdel apresentou a tira A regra, cuja personagem feminina diz que só assiste a um filme se ele der conta dos requisitos: 1. Deve ter pelo menos duas mulheres; 2. Elas devem conversar uma com a outra e 3. Sobre alguma coisa que não seja homem. Isso porque a autora constatou que quase todas as obras cinematográficas não contemplavam essas condições, o que foi comprovado até pouco tempo em análises sobre os filmes hollywoodianos.

A representação do social é um tema delicado, pois as obras, de alguma forma, impactam no imaginário coletivo que, por sua vez, naturaliza os papéis de gênero. Estamos caminhando para uma melhora na representação do feminino, mas devemos nos atentar sobre o seu papel, pois, ainda que ativo, sua motivação deve estar também para além da relação amorosa com o masculino, como nos filmes de ação, cujo objetivo que move o herói é salvar o mundo, ainda que exista uma donzela na história.

Em suma, apesar de se usar como recorte a representação do feminino, essas reflexões cabem para pensarmos questões de gênero mais abrangentes e as representações sobre outros grupos sociais. Observa-se uma melhora significativa sobre a representação do feminino, mas ainda há muito que melhorar. Que todos cheguem com força!

Link para o artigo: http://www.monteirolobatosorocaba.org/materia/824794/elas-chegaram-ao-cinema

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Colaboração em matéria para Huffpost

OPINIÃO

Por que os gays brasileiros devem ouvir a mensagem de Mc Linn da Quebrada

 17/11/2016 15:58 -02 | Atualizado 17/11/2016 15:58 -02
Por Thiago Rizan

 

Não adianta nem pedir que a MC Linn não vai te chupar escondida no banheiro. Nem ela, nem uma porrada de viadas destruidoras que estão tombando com o sistema de castas homonormativo. Pois é, garotes, essa “bixa, preta, loka e favelada” de São Paulo faz parte de um movimento de empoderamento das afeminadas que está explodindo os quartinhos escuros onde elas foram confinadas nos últimos cem anos. Se nos apps de sociabilidade gay só dá “discretos e sigilosos”, nas quebradas fora das telas o que importa mesmo é enviadescer.

Desde o século XIX, quando a homossexualidade foi criada dentro do discurso médico-patologizante, os homens gays afeminados foram alvo de perseguição, sendo ~~convidados~~ a participar de pesquisas médicas enquanto andavam pelas ruas de São Paulo, conforme conta o historiador brasilianista James Green no livro Além do Carnaval: a homossexualidade masculina no Brasil do século XX. Dar pinta era acender um indesejado feixe de luz sobre a própria sexualidade, e assim continuou sendo por todo o século XX.

Claro que sempre houve dissidentes maravilhosos que queriam mais é tacar fogo na porra toda (Santa Cher que nos castigue se um dia esquecermos dos Dzi Croquettes e de Ney Matogrosso, nos anos 70!). Mas, aqueles que não podiam se aproveitar da flexibilidade que certa “excentricidade artística” proporcionava colocava o manto da invisibilidade e escondia a própria maravilhosidade, para não atrair a atenção das inimigas. Not anymore, Satan, not anymore.

Santa Cher mandou enviados especiais à terra onde a cada 28 horas um homossexual morre de forma violenta, segundo dados do Grupo Gay da Bahia, para compartilhar um mandamento sem margem para interpretação: viadas, uni-vos e botai-vos a cara no sol. A tombadora MC Linn está espalhando a mensagem. Em seus funks contundentes e de letras cáusticas, ela berra desestabilizando “a glória da pica”:

Tu se achou o gostosãoAchou que eu ia engolir?

Ser bixa não é só dar o cu

É também poder resistir

O tiro de Linn é certeiro: o que as afeminadas não estão mais engolindo é a subalternização a que são forçadas dentro da própria comunidade LGBT, pelos gays heteronormativos que “acham que podem tudo na força de Deus e na glória da pica”. Em entrevista ao Brasil Post, a cantora sentencia: “Estamos vivendo o fim do império do macho alfa, onde precisávamos nos manter discretas e curvadas diante da grande pica gotejante dos boys; onde o nosso prazer se fazia a partir do desejo dos machos; onde não significávamos nada mais que depósitos de porra; e onde ser afeminada era um problema, uma vergonha”.

Não é à toa que a ambientação do lyric video de Talento se dá em um banheiro público, um famoso espaço de sociabilidade gay desde a década de 30, de acordo com o historiador James Green. “O banheiro foi um espaço crucial na minha trajetória. Era o único espaço possível de sexo pra mim. Lá eu podia transar sem que ninguém ficasse sabendo. Eu me mantinha anônima e segura. Eu não era ninguém”, conta Linn.

Mas aceitar esse anonimato porque o “macho alfa” não quer ser visto se relacionando com uma afeminada? Nunca más! “Percebi o quanto essas relações me violentavam e me mantinham refém de um sexo sem rosto. E como, por ser afeminada, esse tipo de relação se estendia a outros espaços, pois eu só era ‘interessante’ escondida, quando ninguém mais estava vendo.”

Não quero só picaQuero corpo inteiro

Nem com esse papo

Feminina tu não come?

Quem disse que linda assim

Vou querer dar meu cu pra homem?

Ainda mais da sua laia

O uso que Linn faz da música como discurso resistivo ao que é dominante – a valorização do macho alfa e seus signos heteronormativos – ultrapassa as fronteiras dos grupos. A professora universitária e mestre em Comunicação e Cultura, Thífani Postali, comemora: “O funk da Linn utiliza a música para além do entretenimento, como ferramenta de protesto, algo que o hip hop já fazia. É uma música que, se o receptor prestar atenção, provoca alteridade, ou seja, você se coloca no lugar do outro e tenta pensar para além dos discursos dominantes”.

E a capacidade de alteridade a que Thífani se refere não é produzida apenas quando o Outro é o heterossexual preconceituoso, mas também quando ele nem é tão Outro assim. Para Linn, a própria comunidade LGBT, inevitavelmente, se constitui dentro de um sistema heteronormativo, o que é responsável por fazê-la, muitas vezes, reproduzir um comportamento misógino, que deprecia o feminino esteja ele em qual corpo estiver. “A nossa contribuição [das afeminadas] tem sido justamente perceber a riqueza que existe na cultura que produzimos, naquilo que cultivamos, e no afeto entre nós. Estamos construindo um lugar seguro para se estar, e fazendo de nossos encontros não apenas fervo, mas também luta e resistência”, afirma. Para a pesquisadora Thífani, é incrível a possibilidade do uso da internet para compartilhar videoclipes como o da cantora, a fim de provocar alteridade, e completa: “Toda produção é válida quando tem como proposta estar no mundo, estar visível”.

Até mesmo a apropriação e ressignificação de termos como viada, bixa, afeminada e aberração, usados por Linn dentro e fora dos palcos, é um processo de subversão. “Ser bixa e viada é o que me mantém viva e ativa dentro do meu corpo. É também um estado de espírito, é assumir desejos e vontades. Tem a ver com não abrir mão de si mesma e perceber toda força que existe nisso”, garante. “E, na real, esses termos são muito poderosos, pois denunciam a extrema fragilidade da masculinidade compulsória que precisa tentar deslegitimá-los para validar seu poder”. Tá bom pra você, queridã?

E se você, macho alfa, só percebeu agora “a bela aberração” que são as afeminadas… Bom, em Bixa Preta, a Linn tem uma coisinha a te dizer:


Link Matéria: http://www.huffpostbrasil.com/thiago-rizan/por-que-os-gays-brasileiros-devem-ouvir-a-mensagem-de-mc-linn-da_a_21699855/

Artigo postado pelo Geledés

Imagem relacionadaPor que o funk e não o rap?

Link: https://www.geledes.org.br/por-que-o-funk-e-nao-o-rap/#gs.AAe=zL0

Entrevista para jornal impresso

Por Bruna Camargo – Jornal Diário de Sorocaba, em 10/07/2017
FEBRE NA INTERNET

As cidades do entorno de Sorocaba já revelaram youtubers que, atualmente, são bastante conhecidos na Internet. Em uma longa lista de canais de todos os tamanhos, alguns destacam-se pelo humor e persistência. Os donos dos canais “Daniel Murillo Show”, “Mas é o Cúmulo” e “Ander Jackson” contam qual foi o caminho percorrido até milhares de visualizações e curtidas na plataforma de vídeos YouTube.

O RAPAZ DO ‘CASTELE’ – “Toda vez que eu ia no shopping, ouvia alguém gritando ‘castele’”, conta o comediante votorantinense Daniel Murillo, 26 anos, que ganhou destaque quando seu vídeo “Minha Cidade” viralizou nas redes sociais, em 2015. Hoje, o canal “Daniel Murillo Show” tem mais de 6 mil inscritos e 400 mil visualizações.

O primeiro vídeo foi postado no YouTube há cerca de dois anos para tentar alcançar um público ao qual Daniel não chegava com suas apresentações de stand-up. “Tinha algumas piadas para além do palco. Lógico que o excesso de tempo livre também ajudou”, brinca.

Com alguns equipamentos emprestados até comprar os próprios, conseguiu produzir conteúdo original. “Fiz várias tags, mais para parodiar esse formato”, explica Daniel, referindo-se aos vídeos que se tornam correntes com temas repetidos por vários youtubers. O vídeo “Minha Cidade” é um exemplo de tag, no qual ele revela as gírias de Sorocaba, como `castele´, `quaiar o bico´, `porva´ e `xé´. “Fiz porque eram umas piadas que fazia no meu stand up e não iria utilizar mais; então, resolvi registrar. Minha expectativa era alcançar 30 mil visualizações em um mês e teve 100 mil em uma semana”, conta. “Foi muito incrível. porque o pessoal gostou e se identificou”.

O comediante utiliza a plataforma do YouTube como uma forma de aumentar a audiência de seu stand up. “Como a Internet é a nova TV, é o meio principal que qualquer artista tem para se divulgar”, afirma. “Curto mesmo é o show ao vivo; ver as pessoas, ouvir as risadas. Isso vale mais que um vídeo viral”.

O canal, no entanto, não será deixado de lado. Há algum tempo sem postar vídeos, Daniel esclarece que 2017 mudou sua vida e resultou na falta de tempo, mas que voltará à ativa em julho, com duas publicações semanais e exibição de trechos dos seus shows. “Vou usar outros formatos para fazer outras ideias de piadas”, diz o comediante, contando assistir todos os tipos de youtubers para ganhar referência e acredita que pode ganhar espaço em meio a tantas produções. “Na Internet, em geral tem público para tudo. Um bom canal precisa ter um bom conteúdo e saber se divulgar para atingir esse público”, pontifica.

ACERTO NA SEGUNDA TENTATIVA – Quem vê os quase 100 mil inscritos no canal de Abner Wesley, 17 anos, não imagina que, em 2011, o morador da Vila Olímpia, em Sorocaba, já havia tentando o sucesso com o grupo de amigos. Desde os 10 anos de idade, o estudante divertia-se fazendo apresentações na escola através de vídeos. “A gente gravava sobre o tema que o professor pedia, editava e mandava para ele; a sala inteira dava risada”, conta Abner.

Logo, o caminho para o YouTube foi natural. “Éramos viciado em youtubers da época. A gente se reuniu e gravou alguns vídeos, mas a ideia foi cancelada logo em seguida, porque era muito ruim”, lembra. Hoje, seu canal “Mas é o Cúmulo” já tem mais de 2 milhões de visualizações e ganha novos seguidores todos os dias.

Com a decisão de voltar a gravar sozinho, em meados de 2015 Abner teve de escolher um nome para a nova empreitada no YouTube: “Eu não queria dar o meu nome para o canal. Acho que ‘Abner’ é muito difícil de ser lembrado – apesar de existir o Whindersson Nunes”, brinca. “Então, peguei um gibi da Turma da Mônica e um dos títulos da história era ‘mas é o cúmulo’, expressão que eu gostava muito de usar”.

O retorno veio primeiro dos amigos. “Recebi muitos elogios na escola. É claro que tem aquelas pessoas que, por trás, falam mal, porém nunca levei isso como algo ruim, mas uma crítica para melhorar”, garante Abner.

Já a família viu com outros olhos. As conversas refletiam a preocupação com os estudos e como a vida na Internet poderia interferir nos mesmos. “Os planos deles para mim eram outros”, conta. A situação mudou após os parentes observarem os resultados positivos.

Abner afirma ainda ter entrado no YouTube no momento em que o tipo de vídeos que fazia estava em alta, o que o ajudou a ganhar atenção. Sua preparação envolveu inspirar-se nos youtubers já conhecidos, como Júlio Cocielo, Felipistando, Carolinne Silver e Mítico Jovem, e assistir outros canais. “Na verdade, observei tudo que não deveria fazer”, admite, rindo.

A Internet oferece uma carreira promissora para o jovem, que se empenha em fazer sua visibilidade crescer. “Tenho um planejamento de postar, pelo menos, dois vídeos semanalmente, pois assim você não cai no esquecimento”, explica. “Saber a opinião do público também é muito importante, por isso sempre peço”.

O segredo de um bom canal, conta Abner, é conseguir cumprir o objetivo do seu conteúdo. “Se for de comédia e ele tirar um sorriso das pessoas, aquele canal é bom”, exemplifica. “Na verdade, faço o conteúdo que eu gostaria de assistir”.

O público do “Mas é o Cúmulo” tem ficado satisfeito e passou a reconhecê-lo; Abner costuma ver meninas olhando e cochichando quando passeia. “Tiram fotos minhas pensando que não estou vendo”, ri. “Da última vez, o flash do celular estava ligado. A menina ficou toda sem graça”.

Para o futuro, o jovem tem planos de investir em uma marca para atingir as pessoas que não acompanham a Internet. “Pretendo levar (o YouTube) como profissão inicial para poder investir em outros meios depois”.

DAS BRINCADEIRAS PARA AS PARÓDIAS – O canal é recente, o número de seguidores ainda não é tão alto e poucos vídeos foram postados. No entanto, o agendador de serviços Ander Jackson, 22 anos, está com todo o gás e empolgação para ganhar seu espaço como youtuber. “Sempre postei vídeos no Instagram ou nas histórias do Snapchat. Veio a ideia de postar no Facebook e, para acompanhar o ritmo, cheguei até o YouTube”, explica.

Com o celular que lhe oferecia boa qualidade de vídeo e conhecimentos de edição, decidiu se arriscar. Morador do bairro Wanel Ville 3, em Sorocaba, Ander é conhecido por ser naturalmente engraçado, mas ficou confuso no início das gravações: “Não sabia o que falar e nem como fazer”, revela. “Mas devemos ser nós mesmos e me inspirei em como minha vida estava na época, com muita gente falando das redes sociais das pessoas”.

Após alguns vídeos em que conversa com a câmera de modo espontâneo e cômico, Ander passou a publicar paródias musicais no canal que leva seu nome: “Escutando músicas normais, sempre acabava fazendo uma paródia de brincadeira. Decidi compartilhar com a galera que me segue”.

“Despacito” tornou-se “Tô póbrito”, “Bad Liar” ficou “Me trai” e “Shape of You” virou “Eu odeio meu cabelo ruim”. O jovem escreve a letra, busca a versão instrumental da música e grava sua versão; o processo leva cerca de dois dias. O investimento financeiro fica entre R$ 30 e R$ 40 para impulsionar os vídeos no Facebook. “Ultimamente, tem saído mais paródia para aproveitar o público das músicas novas”, explica.

Para Ander, ser autêntico é essencial na Internet. “Tentar ser outra pessoa não vai gerar um bom resultado”, comenta. Com pretensão de seguir a profissão de youtuber, ele tem objetivos claros em mente: “Sem meta, seria como andar em círculos sem saber para onde ir; é importante tanto para a vida pessoal quanto para a profissional”.

Internautas devem buscar conhecimento

Os youtubers surgiram logo que a população percebeu que poderia utilizar a plataforma de vídeos como ferramenta para estar do outro lado e criar informações, de acordo com a doutoranda em Multimeios pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e mestre em Comunicação e Cultura pela Uniso (Universidade de Sorocaba), Thífani Postali. “A gente conversa com os mais jovens e pergunta ‘o que você vai ser quando crescer?’, e eles dizem ‘youtuber’”, afirma.

Para Thífani, a possibilidade de estar em vídeos democratizou a comunicação. “Não é só através dos filtros da grande mídia”, explica. “Pela primeira vez, não só pelo YouTube, mas pelas redes sociais, as pessoas podem se posicionar, podem falar”.

Como tudo tem os lados positivo e negativo, tal liberdade implica no cuidado do produtor e também do receptor da informação: “A gente vê muitos youtubers falando o que querem, sem propriedade. Isso acaba sendo um problema, porque as pessoas confiam nessa imagem, que Edgar Morin chama de ‘star system’”.

O público deve, então, ter em mente que youtubers são, em maioria, pessoas comuns, dando opiniões pessoais sobre determinados assuntos.

Thífani acha o YouTube uma boa oportunidade para que criadores de conteúdo tenham espaço para mostrarem seus trabalhos. “O que é diferente daqueles que falam ‘vou abrir um canal, mas ainda não sei o que fazer’”, exemplifica.

A pesquisadora ainda repudia a postura de alguns canais. “Quando a gente pega uma pessoa que tem milhões de seguidores no YouTube e ela fala que tal dieta resolve sua vida em um mês, é problemático, porque você se torna um influenciador”, pontua. “A pessoa insere e retira significados das coisas. O que eu critico é a não medida sobre o que falar e como falar”.

A cultura do brasileiro em ter credibilidade cega na grande mídia complica a situação, segundo Thífani. “Por anos, nós nos deixamos levar por aquilo que a gente via na tela da TV. Quando a gente passa para a tela da Internet, continua acreditando”, observa. “Estamos num momento de aprender; ainda somos analfabetos digitais”.

COMUNICAÇÃO – Thífani defende que o momento é de diálogo e de estudos. “A chave para você não ser engolido por tantas opiniões é, justamente, buscar informações com profissionais, artigos, livros e matérias, para daí mensurar se aquilo é válido ou não e ter sua própria opinião”, afirma.

“A gente vai no básico e fecha com uma ideia vazia. A Internet depende muito mais da nossa atitude para investigar as coisas do que a TV, que dava tudo pronto”, diz a pesquisadora. “Depende muito da gente e nós não estamos preparados. Temos que falar mais sobre isso”.

PROFISSÃO – Cursos são dedicados à produção de vídeos para a Internet, enquanto o número de pessoas que criam canais continua aumentando. No entanto, Thífani acredita que o fenômeno não deve perdurar dessa maneira por tanto tempo. “Não sei o que vai acontecer, mas acredito que seja uma fase”, diz.

Para a pesquisadora, tratar youtuber como uma profissão é arriscado. “É uma coisa que você faz sem esse nome”, opina. “Você pode viver de um canal no YouTube, mas não é uma profissão”, reconhece.

Logo, Thífani acha válido que os usuários dessa ferramenta estejam buscando ir além da plataforma e espera que, para os que continuem fazendo vídeos, cuidados sejam tomados. “Espero que haja regulamentação!”

Link da matéria: http://www.diariodesorocaba.com.br/noticia/252835

Nota sobre saúde, nota sobre a minha história.

Decidi compartilhar para que mais pessoas busquem ajuda
Durante toda a minha vida, achei que eu fosse fraca para dores. Desde a minha primeira menstruação, sofro com cólicas, tendo que ir, por muitas vezes, ao Pronto Socorro para ser medicada às pressas. Eu não entendia porque eu não suportava aquela dor, já que com a maioria das meninas que eu conhecia, ainda que sofressem, não era dessa forma. Eu não sabia explicar exatamente o lugar da dor. Começava no útero, mas ia para as costas, pernas, intestino etc. Era insuportável e todo mês, antes de menstruar, eu ficava apavorada. Passei todo esse tempo indo a médicos, fazendo exames. Nada! “É só cólica menstrual”, “Toda mulher tem isso”, “Você tem que ser mais forte” etc. Como ser mais forte se até o corpo desligava?

Depois dos vinte e cinco anos, as dores deram uma trégua, mas as cólicas voltaram com tudo após os 30. Tenho 34. Busquei vários médicos e eu dava todas as dicas: tenho dor fortíssima em meu intestino e, durante a menstruação, ela fica insuportável. Invalida-me. Sinto dores abdominais, sinto sempre os três mesmos pontos em meu abdômen, além do intestino. Bateria de exames e nada. Ginecologistas e gastros diziam a mesma coisa: seus exames estão perfeitos, você está bem! Alguns diziam: deve ser emocional.

Certa vez, uma médica me disse: isso está com cara de endometriose, mas o seu convênio não cobre o tratamento e nem os exames. Opa! Descobri que os diversos exames que havia feito não detectavam a tal endometriose. Disse ainda: tome anticoncepcional e, se melhorar, deixa assim.

No ano passado, 2016, tive uma forte dor abdominal e busquei a ajuda de médicos especializados nessa tal de endometriose. O que é isso, afinal? Paguei  médicos e exames caríssimos, e descobri um nódulo em meu intestino. Exatamente onde eu reclamava de dor. A médica, então, me alertou: você tem endometriose profunda, mas não temos outra forma de detectar como está o seu abdômen, senão pela cirurgia. O custo da cirurgia é demasiadamente salgado, pois envolve duas equipes médicas: ginecológica e gastrointestinal. Nesse mesmo momento, fiz um convênio melhor, que cobria boa parte dos profissionais que eu precisava. Ainda bem que descobri a essa altura da vida! Como custearia tudo isso com vinte e poucos anos, sem a ajuda de familiares e amigos? A frase que não sai da minha cabeça: Como é possível não existir tratamento para quem não pode pagar?

Bom, de lá para cá, as dores se intensificaram e eu tive que tomar ainda mais providências. Os médicos, a princípio, queriam remover o útero e 15 cm do intestino. Eu comecei a estudar sobre a doença e busquei outros profissionais, menos radicais. Descobri que a remoção do útero não elimina a doença que, aliás, não tem cura, mas ainda bem, tem tratamento. Descobri que, dependendo da posição e do tamanho do nódulo, não é necessário remover 15 cm de intestino. Comecei a levar as coisas com mais calma, sempre buscando ajuda. Que providências tomei?

Minha cirurgia foi marcada para 26 de junho. Até lá, eu deveria manter a calma e cumprir com todas as minhas obrigações: sou professora, faço doutorado e tenho uma agência de publicidade. Também acredito que muito das nossas doenças são provocadas pelo emocional. Então, busquei me cuidar e mudar o que eu pude na minha vida.

De fevereiro (2017) para cá (julho), resolvi:

  1. Mudar a minha alimentação: diminuí o consumo de carne de boi, porco e frango, e incluí mais vegetal. Continuo consumindo carne, mas com bem menos frequência e quantidade. Troquei o possível por farinha integral e inclui frutas na dieta (nunca tive o hábito). Até passei a frequentar feira! Diminuí bebida alcoólica – sim, sou chegada a uma cachacinha, opa! Resultado: emagreci 4 kg em 3 meses.
  2. Trabalhar de casa: para isso, tive que abrir mão de muitas coisas relacionadas à agência de publicidade. Fechamos a sala no centro da cidade e tomei a decisão de não abraçar o mundo nessa área. Não foi fácil para mim. Resultado: por que não fiz isso antes?
  3. Cozinhar para mim: durante a semana, faço o meu almoço, chás e cuido de minha saúde. Fica mais fácil quando se está em casa. Desde os meus 18 anos de idade, me alimentava na rua por falta de tempo. Resultado: sinto-me mais leve e saudável.
  4. Cuidar da fé: não tenho religião definida, mas respeito e compartilho da maioria. Busquei ajuda e recebi de diversos amigos. Isso ajudou a manter a minha fé, que estava totalmente abalada. Eu tinha muito medo da cirurgia. Resultado: equilíbrio.
  5. Aproximar os amigos mais queridos: aqueles que não falam dos outros, que gostam de cozinhar, cantar, brincar. Eu já estava trabalhando nisso há anos, mas esse último ano foi o ápice. Resultado: mais amor e alegria.
  6. Afastar pessoas negativas: essencial quando se está fragilizado. Não é ser egoísta, aprendi isso, é preservar a saúde para depois poder ajudar. Mas, também tem gente ruim no mundo, e esses devem estar bem longe. Resultado: passo menos nervoso.
  7. Toquei e cantei mais: reuni os amigos para fazer uma das coisas que eu mais gosto: tocar violão e cantar. Para isso, montei uma pasta de músicas sertanejas e foi a melhor coisa que fiz nesse ponto. Resultado: peito cheio de alegria.
  8. Frequentei mais a casa da minha avó: antes, se eu parava uma tarde para isso, eu me sentia culpada por não estar trabalhando. Olha, para quem trabalha quase todos os dias nos 3 períodos, não parar para ver a vó é que deveria ser motivo para culpa! Resultado: felicidade e recebimento de carinho.
  9. Participei mais da família: receber e dar mais carinho. Estar mais com os meus sobrinhos que eu tanto amo! Resultado: mais amor.
  10. Arrumei a casa: aos poucos, eliminei tudo o que não usava em minha casa. Resultado: sensação de limpeza, leveza e organização.
  11. Olhei mais para mim: sem me preocupar com o que os outros estão pensando. Se eu tenho que dizer não, direi. Melhor do que fazer de mal grado e acumular sensação ruim.
  12. Arrumei uma cachorra para fazer companhia: é uma das coisas mais incríveis da vida. É uma vida que te dá muito amor sem você esperar. É ter motivos para voltar para casa feliz e deixá-la querendo voltar. Eu não ficava na minha casa, eu não ocupava o meu espaço. Eu não sabia, mas isso me fazia muito mal. Resultado: nem preciso falar!
  13. Cuidei da parte psicológica: busquei entender mais sobre meditação, técnicas de respiração etc. Resultado: mais autocontrole em momentos tensos.
  14. Passei 2 meses na casa da minha mãe: para sentir proteção quando estava apavorada. Resultado: fiquei mais forte!
  15. Pratiquei pilates e reeducação postural.
  16. Mandei até fazer uma plaquinha para não pressionar os dentes, o que me trazia dores no maxilar e cabeça.

 

Ufa! Acho que eu nunca havia olhado para mim, não dessa forma, com cuidado!

Todas essas mudanças, e mais algumas que eu não me recordo agora, me fortaleceram para que eu chegasse à cirurgia mais confiante e em paz. Com menos dores abdominais, na coluna etc.

Ela aconteceu, durou quase 5 horas e foi um sucesso. Ainda que eu tenha removido um pedaço do intestino, foi bem menos que 15 cm: 4,5. Tirei lesões exatamente dos lugares que eu mostrava aos médicos: um pedacinho do ovário, nódulo na bexiga e canal urinário. Fiquei 4 dias no hospital me recuperando, mas me recuperei muito bem! Tão bem que o médico disse que  eu poderia me alimentar só dois dias após o procedimento, mas duas horas depois, eu já tomava um café com leite e, no dia seguinte, arroz e carne branca. Hoje, completo 10 dias e me sinto ótima! Revisada! Modificada “de corpo e alma”. E eu tenho muito a agradecer, a todos os amigos e familiares que ficaram do meu lado, todos eles sabem que me ajudaram de alguma forma. Mas gostaria, especialmente, de agradecer a duas grandes mulheres que se doaram fisicamente e psicologicamente para me ver bem: Bruna Bellotto ❤ e Solange Postali, minha mãe. É impossível descrever o sentimento de gratidão! Outros amigos me ajudaram demais, demais mesmo! Eles sabem e eu sou eternamente grata por isso. Entendi um pouco mais sobre o que é a vida e as relações humanas. Sou grata por ter pessoas tão especiais em meu caminho.

Enfim, descobri que eu não era fraca para dor, mas sim muito forte! Aguentei isso por mais de 30 anos! Portanto, se você é mulher e sente essas dores, procure especialistas o quanto antes! Se tratar com tempo, talvez nem precise da cirurgia. Se o seu corpo te dá sinais de dor, de que algo está errado, ele é que está certo! Insista com os médicos! Se o médico diz algo que você não concorda plenamente, busque informações e outros profissionais. Mas, lembre-se: se falar com pessoas que tiveram ou têm os mesmos sintomas, cada corpo é um, cada caso é um. Não se apavore e evite apavorar os outros.

Endometriose é algo sério e precisa ser tratado. Infelizmente, o diagnóstico ainda leva anos e depende muito mais de nossa insistência com os médicos e aqueles que estão a nossa volta. Não deixe para depois.

Resolvi escrever este relato para compartilhar, pois só quem tem sabe o quanto é difícil achar informações sobre. Apavoramo-nos porque não encontramos as causas e cura, justamente porque é algo relativamente novo para a medicina. Eu e meu médico apostamos que uma das causas são os alimentos modificados. Mas a ciência ainda não provou. Na dúvida, se alimente bem e mude o que for possível para uma vida mais saudável e mais focada em você.

Thífani Postali

 

Artigo publicado em revista científica

capa tríade

v. 5 n. 9 (2017): Metodologias para análise de narrativas midiáticas: Reflexões sobre teoria e práxis

Thífani Postali, Fabio Nauras Akhras

PDF: Artigo Tríade 2017_Postali Akhras

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Precisamos voltar a cozinhar

       Artigo publicado na Gazeta de Votorantim, em 22 de abril de 2017.

  A razão é a principal característica humana e é responsável por todas as transformações realizadas na natureza pela espécie. O ser humano é o único ser que manipula os alimentos de modo a criar novas combinações e formas para se alimentar. Com a dominação do fogo, o ser humano passou a transformar ainda mais os alimentos, de modo que o ato de cozinhar transformou-se em uma das expressões culturais mais importantes da humanidade, não se restringindo apenas ao ato de se alimentar, mas proporcionando a socialização entre os indivíduos.

            Para muitas culturas, o ato de almoçar e jantar tornou-se um ritual familiar de confraternização. Todavia, com a industrialização e as transformações sociais ocorridas após as revoluções, o crescimento das cidades, populações, tarefas durante o dia, distâncias entre os locais e com o alcance das mulheres ao mercado de trabalho, o ato de cozinhar perdeu alguns de seus significados, abrindo espaço para alimentos transgênicos e industrializados.

            Ocorre que muitas vezes desconhecemos o que estamos ingerindo, principalmente quando nos referimos aos produtos enlatados, que hora ou outra aparecem em escândalos sobre contaminações. Em decorrência dessas e de outras situações, muitas pessoas adoecem sem ao menos saber a causa de seu problema, pois por atender o capital, os veículos de comunicação pouco falam sobre as consequências dessa alimentação com produtos processados ou modificados.

            Obviamente, sabemos que com o ritmo desse modelo social, torna-se impossível não se deparar vez ou outra com esse tipo de alimento. A questão é que devemos voltar a achar graça nas verduras não tão apresentáveis, diferentes daquelas que se assemelham aos enfeites de plástico da cozinha; o mesmo cabe aos legumes, às frutas etc. Devemos, quando possível, voltar a achar graça na cozinha como forma de reunir a família e os amigos e, assim, reunir os companheiros para compartilhar o pão! Desta forma, quem sabe, resistiremos de modo saudável aos alimentos avassaladores do mercado industrial, resgatando o que há de mais importante na vida humana: saúde e sociabilidade. Homens, mulheres, crianças, jovens: cozinhem!

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Isso não é humor: Danilo Gentili e as migalhas do riso

Artigo publicado na página A2, Jornal Cruzeiro do Sul em 04/04/17.

Isabella Reis Pichiguelli,com Thífani Postali

O humor não está em toda piada que faça rir. O aspecto constituinte do humor está na parte de dentro, no espírito. Humor que é humor está sempre direcionado à quebra de barreiras, tabus, status quo. Mikhail Bakhtin ensina que a maneira do riso para tanto é sua ambivalência: tem um lado positivo e um negativo, inseparáveis. Ao mesmo tempo, o riso destrói e reconstrói, mata e ressuscita, desintegra e une. Não é dirigido especificamente contra nada ou ninguém. É de todos e para todos. O humor sempre leva à renovação dos estados das coisas, do mundo.

Por isso, humorista que é humorista não usa o humor como desculpa para falar o que e do jeito que quiser. E sabe que se lhe faltar o princípio positivo do riso, o outro é apenas migalha, resto que pode até gerar risada, mas nada mais. Sabe que se lhe faltar o poder de restauração, lhe falta o próprio humor. No entanto, há os que não são humoristas. Trabalham com a linguagem do humor, mas não fazem humor.

É fato que há muito o que cause risadas sem ser humor. Henri Bergson aponta que só rimos do que não nos afeta emocionalmente. Sem o aspecto positivo do riso, a unidade, o riso de todos e para todos, só é possível rir do que não se conhece. É por essa razão que predominam, no conteúdo daqueles que dizem fazer humor mas não o fazem, as ofensas e os discursos de senso comum, posto que estes são baseados na falta de empatia e em estereótipos que reduzem pessoas e ideais a rótulos, cujos solos férteis são os que possuem dominação sobre os demais e a buscam preservar.

Um exemplo desse humor que não é humor é o “”humor”” de Danilo Gentili, apresentador do The Noite no SBT. Na maioria de suas “”piadas””, exacerbam-se os preconceitos contra grupos distantes de sua realidade. Assim, obviamente, quem compactua com seus discursos é quem não se vê no conteúdo e que contribui com um tipo de discurso que tem como função manter a ordem dominante. São discursos de Gentili: “”Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. A última vez que chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz””; “”O cara esperou uma gostosa ficar bêbada pra transar com ela. Todos sabemos o nome que se dá pra um cara desses: gênio””; “”Sério @LasombraRibeiro vamos esquecer isso… Quantas bananas vc quer pra deixar essa história pra lá?””, em resposta a um internauta negro; “”E esse dado da Ong Gay aí que “1 gay é morto a cada 26 hs”? 140 heteros são mortos a cada 24 hs. Alguém aí come meu c… hj? Só por segurança.”

Em entrevistas, Gentili sustenta que quem não ri de suas piadas é porque não possui senso de humor. Também crê que seu humor corrobora com a maioria da sociedade, ajudando a ir contra “”o que uma minoria tenta apascentar para que a sociedade toda viva de acordo com a agenda política deles””. Ou seja, ele não possui conhecimento sobre o que fala, o que reflete em seu trabalho. Mesmo que defenda que seu humor é autodepreciativo e contra o status quo, suas narrativas apontam para o contrário: quando se autodeprecia, não é taxativo como com outros grupos sociais, fazendo uso de um humor que não humilha, não o coloca (ou a seu grupo) numa situação inferior aos demais grupos.

Em suma, muitos comediantes têm se apropriado do humor esvaziando, de certo modo, o seu propósito. Acreditamos que num momento de grande tensão sobre os assuntos que envolvem aspectos político-sociais, o humor transformou-se com mais força em ferramenta de dominação e poder, em que aquele tem mais poder — visibilidade –, se presta a favorecer os discursos dominantes. E esses sim são minoria, caro Gentili.

Link para a página do Cruzeiro: http://www.jornalcruzeiro.com.br/materia/776954/isso-nao-e-humor-danilo-gentili-e-as-migalhas-do-riso

O Carnaval que foi mais popular

Artigo publicado na Gazeta de Votorantim, março, 2017.

Por muitas décadas, o carnaval do Rio de Janeiro serviu como manifestação cultural que tinha por finalidade a comunicação de resistência. Era o evento que fazia o povo aparecer em vários aspectos, da simples ocupação no espaço televisivo que era quase nulo, sobretudo, aos negros à toda rica cultura que emerge das margens, como os sambas que clamavam a cultura e os problemas dos morros, compostos por sambistas locais.

            Já em 1975, José Ramos Tinhorão publicou na
revista O Cruzeiro um artigo que chamava a atenção para o fato de que o carnaval estava se transformando em uma manifestação estrangeira. O teórico falou sobre a entrada das empresas no evento e a redução das manifestações culturais populares ao desejo dos patrocinadores. O carnaval carioca foi se calando com parte de seus sambas encomendados a outros músicos que não os locais e que, portanto, trabalhariam temas de interesse do capital, bem como as fantasias passaram a ser desenhadas por profissionais da elite, esta que também desfilaria pela avenida.

            Em 2017, pudemos observar uma significativa mudança em alguns discursos carnavalescos. A escola Imperatriz Leopoldinense, com o tema Xingú, provocou o agronegócio em defesa das florestas e dos índios, ao passo que a Mangueira, assim como a Imperatriz, levou para a avenida e para todo o Brasil – através da Rede Globo, o tema da religiosidade africana tão presente em nosso país, mas pouco abordado de forma positiva pela grande mídia brasileira.

            Parece que a diminuição de patrocinadores em decorrência da crise que afeta o Brasil devolveu ao povo a liberdade para falar sobre o que deseja e sobre aquilo que realmente é parte cultural do povo, de maneira mais livre. Os sambas-enredos das duas escolas afrontam os discursos dominantes, de modo a provocar discussões e reflexões sobre temas pouco abordados pelos grandes veículos, especialmente, aqueles que têm exclusividade para a transmissão da festa. O carnaval de 2017 fez valer a cultura popular de resistência, devolvendo um pouco de esperança sobre o uso de manifestações culturais como forma de resistir frente às omissões e imposições dominantes.Gazeta_mar_2017

Lançamento de Livro

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Representação social, política e a importância das ciências sociais

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, página A2,  em 28 de junho de 2016

Num momento em que as tecnologias da informação permitem que o receptor também se torne produtor de conteúdo, o conhecimento tornou-se ainda mais emergente. Com os últimos acontecimentos na política brasileira, é possível perceber, nas redes sociais, uma quantidade de pessoas que buscam expor suas ideias; o que julgo necessário para a reflexão a partir de diferentes pontos de vista. Por outro lado, há também um número significativo de indivíduos que procuram impor suas opiniões, em muitos casos, debochando daquelas que são contrárias às suas. Infelizmente, as manifestações mais taxativas vêm carregadas de ódio e, sobretudo, apontam como muitos indivíduos são desprovidos do conhecimento mínimo sobre a sociedade em que vivem.

Tomemos como exemplo a discussão sobre a falta de representação da diversidade na política. Nossa sociedade é formada por diversos grupos sociais que têm diferentes experiências de vida. Antes de tudo, importa esclarecer que as nossas ideologias são uma mescla de ideias formadas pela nossa família, grupo social, classe social; são transformadas ao longo do tempo pela nossa formação, nossos grupos de filiação, pelos jornais que escolhemos ler, filmes, publicidades, propagandas e programas que mais gostamos. Deste modo, somos diversos além de podermos ser mutáveis nas ideias, já que passamos as nossas vidas em contato direto com os outros, seja através de experiências ou leituras.

A visão sobre o mundo de uma pessoa que nasceu e vive em favelas e periferias pode ser muito diferente de uma pessoa que nunca experimentou a pobreza e a violência; um homem que convive em um ambiente que não discute as questões sobre gênero, muito provavelmente, não enxergará o sentido nas falas sobre as desigualdades de gênero; um branco que é acostumado a ler apenas conteúdos escritos por brancos, que consome produtos midiáticos que apresentam o “lugar de cada um” na sociedade e que frequenta lugares onde a maioria é branca, sem a ajuda do conhecimento e do diálogo, dificilmente entenderá a importância da luta pela consciência negra e pelos direitos dos negros nas sociedades pós-escravagistas; uma pessoa que não tem contato com homossexuais, seja na família ou no convívio social, se não buscar o conhecimento, estará fadada a entendê-los como pessoas “anormais” que devem ser tratadas; o deficiente físico também terá outra visão sobre diversos assuntos pouco discutidos, basta levar em consideração o quanto demoramos para ter leis de acessibilidade e que, ainda assim, são bastante falhas.

Portanto, as sociedades são diversas e a alteridade torna-se fundamental para a prática da democracia. O termo sugere que reconhecer o outro, aquele que é diferente de mim, do meu grupo, levando em consideração as suas peculiaridades e diferenças e também suas equivalências, faz com que os indivíduos tornem-se menos etnocêntricos, podendo, assim, diminuir os conflitos sociais. Deste modo, ter representantes políticos que sejam de diferentes grupos sociais contribui para que medidas sejam tomadas de forma mais justa, levando em consideração o todo, ou uma melhor parte do todo. Lembre-se: o que para você pode não ser importante, para outra pessoa pode significar muito! Posto assim, o conhecimento básico sobre as ciências sociais torna-se fundamental para o exercício da cidadania e democracia, levando em conta que a democracia tem como base o governo para todos. É preciso ter bom senso no lugar do senso comum, principalmente depois da invenção da internet, que não permite mais a desculpa do “desconhecimento”. Ter “opinião” requer leitura, argumentação, caso contrário, é reprodução irreflexiva.

Link para a matéria: http://www.jornalcruzeiro.com.br/materia/710886/representacao-social-politica-e-a-importancia-das-ciencias-sociais

Música e sexo: um caso além do funk

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, página A2,  em 03 de maio de 2016

Muito se fala que o funk é um tipo de prática musical depravada e que, portanto, não merece o reconhecimento como expressão cultural. Também é comum ouvirmos que, apesar de sua origem estadunidense, não possui absolutamente nada relacionado à cultura de origem. E aqui já temos dois equívocos.

Primeiro que, se formos considerar a cultura em seu sentido antropológico, toda e qualquer expressão humana deve ser considerada cultural. Segundo, que a musicalidade afroestadunidense sofreu diversas transformações, em seu próprio território e em outros que importaram essa cultura.

No Brasil, a partir dos anos 90, o funk ganhou visibilidade através dos meios de comunicação, mas o recorte feito pela mídia apresentava e ainda apresenta uma música associada à criminalidade e ao sexo. Hoje, também, dá ênfase ao “Funk Ostentação”, cujo conteúdo aborda o consumo de grifes, bebidas, baladas e status bem, nada diferente do que as publicidades vivem despejando em nossa sociedade, e o “Funk Putaria”, que discorre sobre a pornografia.

Deste modo, sua história não é recente e envolve severas críticas, vindas de distintos segmentos sociais, sobretudo, quanto ao seu conteúdo inapropriado. Todavia, existem diversos tipos de funk, inclusive uma vertente pouco difundida, o “Funk Consciente”, como o de MC Garden, que, assim como o Hip Hop, procura chamar a atenção para os problemas sociais que afligem os jovens e a sociedade brasileira. A música “Isso é Brasil” ganhou notoriedade nas redes sociais durante as manifestações ocorridas em 2013. Mas, mesmo assim, não foi “apadrinhada” pela grande mídia.

É fato que a expressão musical recebeu uma configuração brasileira, mas sua origem está atrelada ao ritmo estadunidense soul, que, segundo Herschmann, trata-se da união entre os ritmos gospel e rhythm and blues, que em meados de 1960 conquistou visibilidade mundial a partir de Ray Charles e James Brown. O termo funky surgiu nesse período, decorrente de um sentimento de alegria e de “orgulho negro”, passando a significar uma vertente da música ainda capaz de produzir uma sonoridade que representasse a negritude. No Brasil, o funky se transformou em funk, um estilo musical marcado pela dança e atitudes de alguns grupos de jovens que habitam as periferias, principalmente, das metrópoles Rio de Janeiro e São Paulo.

Outra manifestação musical que em muitas letras aborda o sexo é o blues. Os bluesmen discursavam sobre relacionamentos conturbados e sexo sem pudores. E esse foi um dos motivos de também ser considerado, no início do século XX, uma música ofensiva e desprezível. Robert Johnson, em “Phonograph Blues”, cantava o sexo através do gramofone, e, em “Terraplane Blues”, relacionava o sexo a peças de automóveis. Essa visão só mudou com a internacionalização do ritmo e a sua assimilação à música de lamento, como o rock ficou para a rebeldia e o jazz para música erudita apresentada pelo cinema.

Outras vertentes musicais também abordam o sexo de forma explícita. Da música clássica a toda conotação sexual do rock and roll, do pagode ao axé, em que uma geração desceu até a “boquinha da garrafa” quando criança, da música pop ao sertanejo e esse último que o diga! O chamado sertanejo universitário discorre sobre sexo e muitas composições envolvem elementos do funk putaria.

Portanto, a combinação entre sexo e música é caso antigo. O que difere é a forma como consumimos e valorizamos as expressões musicais. Ainda olhamos para elas sem o conhecimento de seu todo, acatando tudo o que determinam os principais veículos de comunicação. Nas emissoras de rádios mais comerciais, as “top mais” de sertanejo, pagode e funk; nas demais, o bombardeio da música pop internacional. Já parou para pensar no conteúdo das músicas de Rihanna, Miley Cyrus e outros “top”?

Link para a matéria: http://www.jornalcruzeiro.com.br/materia/696358/musica-e-sexo-um-caso-alem-do-funk

Podemos amenizar a miopia sobre o mundo?

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, página A2,  em 22 de março de 2016

Thífani Postali
Paulo Celso da Silva

Por muito tempo, os principais veículos de comunicação que funcionam com programações monólogas dominaram o fluxo e o teor das informações distribuídas para a população. Grandes escândalos como a corrupção que toma conta de nosso País, as atrocidades cometidas pelas grandes corporações entre outros fatos ligados aos grupos que possuem maior prestígio social, seja financeiro ou ideológico, eram mais facilmente manipulados e distribuídos para a maior parte da população, que os recebia junto com o jornalista que, com voz firme e confiável, emitia seus votos de “boa noite”.

Deste modo, criar estereótipos, oferecer os modelos de nações, apresentar culpados ou inocentá-los, esconder escândalos, etc., era uma tarefa muito fácil antes da chegada da internet, especialmente, das redes sociais. A rede possibilita à população expandir o assunto visto em outro meio, disseminá-lo e, o mais importante, discuti-lo quando de forma construtiva. Mas, muitos veículos oriundos do século passado ainda não aprenderam a lidar com a situação e continuam a reproduzir um modelo que já não cabe a uma população com acesso mais facilitado às informações.

Como exemplo, em outubro de 2015, ocorreu o rompimento de duas barragens da mineradora Samarco, em Minas Gerais, o que causou estragos gravíssimos para além da região em que a empresa se localiza, com o derramamento de um mar de lama de aproximadamente 50 milhões de metros cúbicos. Na primeira semana, o brasileiro pode acompanhar muito pouco sobre o ocorrido. Os principais telejornais do Brasil tratavam o caso como algo pequeno e chamaram de “catástrofe ambiental”, dando ênfase à quantidade de animais mortos. Nada se falava sobre a empresa, os culpados, os motivos, a ligação com o governo entre outras coisas tão importantes para a compreensão da população. E assim seguiu por quase uma semana, quando outro evento aconteceu.

O Estado Islâmico atacou a França, assunto que tomou conta dos noticiários. Na maior emissora do Brasil, a Globo, pudemos acompanhar reportagens ao vivo, plantões, comentários em todos os programas, até mesmo nos que não têm caráter jornalístico. Mas, e a tragédia ocorrida em Minas Gerais? Essa questão foi bastante levantada nas redes sociais por pessoas que cobravam a emissora pela cobertura também desse problema. Então, a Globo resolveu mudar a sua postura e cobrir melhor o rompimento das barragens, todavia, as matérias e reportagens tão pouco falavam dos motivos reais: as negligências e de ambas as corporações. O fato é que a internet possibilita a expansão do assunto. Não termina no “boa noite”, não “dá o ponto final”. Ela possibilita a reflexão a partir de diferentes focos, de veículos e fontes diversas, dos comentários dos colegas e dos professores, especialmente. Talvez a internet seja a principal fonte de diálogo, mas, para isso, teremos que aprender a usá-la de forma responsável. As mesmas corporações que produzem as informações distorcidas também estão na rede e, junto a elas, as pessoas que só querem ver o que está na televisão e que, portanto, defendem as mesmas ideias. Não podemos esquecer que a internet produziu o analfabeto digital que, dentre as diversas dificuldades que tem em lidar com as ferramentas, acaba compartilhando notícias mentirosas ou falaciosas. Em suma, temos informações disponíveis como nunca se teve na história, mas devemos saber como selecioná-las e trabalhá-las. Só assim poderemos, quem sabe, amenizar a miopia sobre o mundo.

Thífani Postali é doutoranda em Multimeios pela Unicamp e mestra em Comunicação e Cultura pela Uniso. É professora universitária e membro do grupo de pesquisa Mídias, Cidades e Práticas Socioculturais (MidCid). Blog: www.thifanipostali.com

Paulo Celso da Silva é docente e coordenador do programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Uniso. E-mail: paulo.silva@prof.uniso.br

Link para a matéria: http://www.jornalcruzeiro.com.br/materia/685755/podemos-amenizar-a-miopia-sobre-o-mundo

Todo cancionista é músico!

*Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, em 26/01/2016 – Caderno A2.

Em diversos estudos que compreendem a prática musical, existe a preocupação em contrastar o que se considera em termos de música erudita e popular. Para tanto, considera-se, de maneira simplificada, o erudito como gênero musical racionalizado, consciente, elaborado, concentrado quanto à técnica, conteúdo e estilo, ao passo que o popular remete ao conhecimento empírico, intuitivo, de fácil consumo, descompromissado com técnica, conteúdo e estilo. Entretanto, Luiz Tatit contesta essas definições acerca do popular. Para ele, o músico popular pode ser entendido como “cancionista”, termo que utilizou para descrever o sujeito que não sabe como e quando aprendeu a tocar, compor ou cantar, mas que não é descompromissado com a técnica. Tatit parte da ideia de que o cancionista, apesar de não dominar a teoria musical, sempre soube fazer tudo isso, já que compor significa “dar contornos físicos e sensoriais a um conteúdo psíquico e incorpóreo. Pressupõe, portanto, uma técnica de conversão de ideias e emoções em substância fônica conduzida em forma de melodia”. Para o musicólogo, o cancionista é um “malabarista” pelo fato de possuir controle de atividade que permite equilibrar a melodia no texto e o texto na melodia. Lembra, ainda, que cantar exige um permanente equilíbrio entre os elementos melódicos, linguísticos, os parâmetros musicais e a entonação coloquial.
As noções sobre música erudita e popular ajudam a compreender as questões gerais acerca do conceito de música, entretanto, o significado que acolhe os dois gêneros é aquele que entende a música como sentimento, produtora de sensações, ou, como reforça J. Jota de Moraes, a “forma de representar o mundo, de relacionar-se com ele e de concretizar novos mundos”.
Assim, a música envolve mais que uma simples oralidade somada ao ritmo; a música envolve todo um sentimento que é específico de algum indivíduo ou grupo. Segundo Moraes, “a maneira de construir música varia de comunidade para comunidade, de época para época e, às vezes, de indivíduo para indivíduo. Cada povo, cada momento da história tem o seu próprio sistema de organização musical”.
Com relação à cultura popular, Tatit ressalta que quem ouve uma canção “ouve alguém dizendo alguma coisa de uma certa forma”. Deste modo, o que caracteriza a música popular é, justamente, o fato de o receptor reconhecer na música situações cotidianas. Portanto, o discurso oral mostra-se como característica importante da música popular, diferente da música erudita, que possui uma forte tendência no sentido de converter a voz em instrumento musical, segundo o teórico. Talvez seja esse um dos principais pontos que diferenciam a música erudita da popular: a primeira não se obriga ao conteúdo discursivo ao passo que a segunda o valoriza.
A questão é que, apesar de toda a definição sobre a música, equivocadamente, procura-se decidir qual tipo de produção musical vale mais. Como apresentado, pode-se entender que, independente da técnica, música é sentimento. E isso faz com que as discussões sobre o que vem a ser a “verdadeira arte musical” sejam subjetivas, pois tanto a música erudita quanto a popular são revestidas de sentimentos e repertórios particulares de seus idealizadores. Isso sem estender a discussão sobre como o jazz, que era uma música considerada popular até o início do século passado e, portanto, desvalorizada, passou a ocupar a posição de erudita após o governo reconhecê-la como cultura estadunidense. Hoje o temos como uma música refinada, passível de muito estudo, mesmo que tenha sido originada por cancionistas. Posto assim, não cabe determinar de forma absoluta o valor sobre a arte, pelo menos a partir de uma visão antropológica. Erudito e popular podem ter a mesma importância cultural.