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Internet x informação: um olhar menos apocalíptico

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, em 02 de out. de 2018, p. A2.

Algumas pessoas, incluindo teóricos das ciências sociais, possuem uma visão negativa sobre a internet, de modo que sustentam que o novo meio de comunicação torna os indivíduos menos informados, devido à superficialidade e à forma como recebem as informações.

Todavia, devo dizer que discordo em certo ponto, pois, ainda que a internet ofereça textos distorcidos, superficiais e que provocam a alienação de uma parcela de usuários, que ainda não se ligou sobre a importância de checar fontes, a mesma rede possibilita diversos olhares sobre um mesmo assunto: seja pelo ângulo da matéria jornalística compartilhada numa rede social; pelo ângulo do amigo que nem sempre domina o assunto; e, também, do profissional, professor que põe ali as suas impressões sobre o tema com base em seus conhecimentos. Por permitir uma leitura não linear por meio dos diversos links, o usuário ainda pode buscar, no Google acadêmico e em outras ferramentas, informações científicas sobre o assunto, o que permite que o indivíduo tenha conteúdos para tirar suas próprias conclusões quando de sua vontade.

É certo que esse caminho exploratório não corresponde ao modelo de uso de todos os internautas, mas, do mesmo modo, não é possível se ter o controle efetivo sobre o interesse e a recepção alcançados em outras formas de comunicação, como na oralidade existente nas salas de aula ou, até mesmo, na comunicação multimídia oferecida pela limitada televisão. A internet, por outro lado, propicia a navegação por diversos textos e formas textuais, apresentando ao receptor um mar de ideias e possibilidades.

Pensando o discurso que diz que as pessoas estão menos informadas, não posso crer que a televisão, o cinema, o rádio e a própria escola deram conta de oferecer tamanha quantidade de olhares sobre um mesmo tema, especialmente quando observamos as questões ideológicas por trás dessas instituições dominantes.

Ainda que a internet, quando utilizada de maneira superficial, produza a alienação — também provocada por outros meios –, ela é, no momento, a forma mais completa para se obter conteúdos em diversas formas: do simples texto linear à interação através de conteúdos hipermidiáticos.

Outro ponto a ser destacado é a existência de jovens mais críticos, mais curiosos sobre temas que até pouco tempo eram omitidos pelas grandes instituições — e alguns ainda são. Havia, e ainda há, de certa forma, um mal-estar quando temas mais delicados são abordados, como se esses assuntos, que são parte do social, fossem exteriores à sociedade. Mas é possível perceber, nos últimos anos, jovens que se sentem mais à vontade para debater tais assuntos, como política, gênero, religião, preconceito etc.

E de onde vem essa coragem, que eu vou chamar de libertação das amarras da Caverna descrita no mito de Platão? Eu acredito e insisto que vem justamente das reflexões possibilitadas pela internet, pois as antigas instituições continuam desprezando determinados assuntos e ângulos, ou os tratando de forma taxativa ou superficial.

Posto assim, será que a internet é mais maléfica ou benéfica? Posso dizer que a resposta depende do seu uso, da disposição e do interesse do usuário, mas que, empiricamente, observo uma geração mais curiosa e crítica, mais voltada para o bom senso no lugar do senso comum. E isso é bom!

Link: https://www.jornalcruzeiro.com.br/opiniao/artigos/internet-x-informacao-um-olhar-menos-apocaliptico/

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Representação social, política e a importância das ciências sociais

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, página A2,  em 28 de junho de 2016

Num momento em que as tecnologias da informação permitem que o receptor também se torne produtor de conteúdo, o conhecimento tornou-se ainda mais emergente. Com os últimos acontecimentos na política brasileira, é possível perceber, nas redes sociais, uma quantidade de pessoas que buscam expor suas ideias; o que julgo necessário para a reflexão a partir de diferentes pontos de vista. Por outro lado, há também um número significativo de indivíduos que procuram impor suas opiniões, em muitos casos, debochando daquelas que são contrárias às suas. Infelizmente, as manifestações mais taxativas vêm carregadas de ódio e, sobretudo, apontam como muitos indivíduos são desprovidos do conhecimento mínimo sobre a sociedade em que vivem.

Tomemos como exemplo a discussão sobre a falta de representação da diversidade na política. Nossa sociedade é formada por diversos grupos sociais que têm diferentes experiências de vida. Antes de tudo, importa esclarecer que as nossas ideologias são uma mescla de ideias formadas pela nossa família, grupo social, classe social; são transformadas ao longo do tempo pela nossa formação, nossos grupos de filiação, pelos jornais que escolhemos ler, filmes, publicidades, propagandas e programas que mais gostamos. Deste modo, somos diversos além de podermos ser mutáveis nas ideias, já que passamos as nossas vidas em contato direto com os outros, seja através de experiências ou leituras.

A visão sobre o mundo de uma pessoa que nasceu e vive em favelas e periferias pode ser muito diferente de uma pessoa que nunca experimentou a pobreza e a violência; um homem que convive em um ambiente que não discute as questões sobre gênero, muito provavelmente, não enxergará o sentido nas falas sobre as desigualdades de gênero; um branco que é acostumado a ler apenas conteúdos escritos por brancos, que consome produtos midiáticos que apresentam o “lugar de cada um” na sociedade e que frequenta lugares onde a maioria é branca, sem a ajuda do conhecimento e do diálogo, dificilmente entenderá a importância da luta pela consciência negra e pelos direitos dos negros nas sociedades pós-escravagistas; uma pessoa que não tem contato com homossexuais, seja na família ou no convívio social, se não buscar o conhecimento, estará fadada a entendê-los como pessoas “anormais” que devem ser tratadas; o deficiente físico também terá outra visão sobre diversos assuntos pouco discutidos, basta levar em consideração o quanto demoramos para ter leis de acessibilidade e que, ainda assim, são bastante falhas.

Portanto, as sociedades são diversas e a alteridade torna-se fundamental para a prática da democracia. O termo sugere que reconhecer o outro, aquele que é diferente de mim, do meu grupo, levando em consideração as suas peculiaridades e diferenças e também suas equivalências, faz com que os indivíduos tornem-se menos etnocêntricos, podendo, assim, diminuir os conflitos sociais. Deste modo, ter representantes políticos que sejam de diferentes grupos sociais contribui para que medidas sejam tomadas de forma mais justa, levando em consideração o todo, ou uma melhor parte do todo. Lembre-se: o que para você pode não ser importante, para outra pessoa pode significar muito! Posto assim, o conhecimento básico sobre as ciências sociais torna-se fundamental para o exercício da cidadania e democracia, levando em conta que a democracia tem como base o governo para todos. É preciso ter bom senso no lugar do senso comum, principalmente depois da invenção da internet, que não permite mais a desculpa do “desconhecimento”. Ter “opinião” requer leitura, argumentação, caso contrário, é reprodução irreflexiva.

Link para a matéria: http://www.jornalcruzeiro.com.br/materia/710886/representacao-social-politica-e-a-importancia-das-ciencias-sociais