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Elas chegaram ao cinema

Artigo publicado no jornal Cruzeiro do Sul, em 03/10/2017, página A2.

Roger dos Santos
Thífani Postali

A memória que se tem das personagens femininas no cinema, por muitas vezes, sugere a figura da moça delicada, inocente, ingênua, quando não a da doce mãe ou da figura materna que cuida melhor dos filhos do que de si própria. A representação da avó, quase um anjo, recebe as crianças, brinca, cozinha, comunica-se com a inocência, um perfil criado para existir como liberta dos problemas da vida.

O leitor pode ter se lembrado de figuras célebres no cinema do século passado que se relacionam com as considerações apresentadas, como Branca de Neve ou Cinderela, que nos desenhos do cinema e dos livros foram e são vistas por gerações até hoje. São textos que repisam o lugar da personagem feminina como impossibilitada da posição de decidir.

Nas produções mais recentes as mudanças são perceptíveis e a lista não é pequena, da animação ao cinema de ação e ficção, finalmente, elas chegaram.

Há 26 anos, em Exterminador do futuro 2, Linda Hamilton, ao interpretar Sarah Connor, viu seu papel repaginado em relação ao anterior, de sete anos antes, 1984. A Sarah Connor do segundo filme tinha conhecimento e treinamento militar, tinha um plano a ser executado, estava pronta ao ataque quando necessário.

No avançar dos anos, no contexto das economias globalizadas em que a mulher na vida real assume cada vez mais responsabilidades, chega-se à segunda década do século 21 com a mostra que as personagens femininas assumiram o protagonismo. Exemplo das grandes bilheterias atuais são Rey e Jyn Erson em Star wars; Rapunzel, não mais apenas uma donzela aprisionada; Merida, a princesa escocesa arqueira e consciente que seu futuro não será apenas de se seguir protocolos, e até João e Maria cresceram e se tornaram guerreiros.

Posto assim, parece que o cinema tem buscado reparar as formas de representações estereotipadas que dominaram a sua história. Todavia, mesmo com o protagonismo alcançado em alguns títulos, importa ainda a reflexão sobre as representações quando comparadas às dos personagens masculinos. Deve-se questionar sobre a quantidade e formas de representação a partir do roteiro, como “o que motiva a história dela?”.

Indagações como essa foram levantadas já em 1985, quando Alison Bechdel apresentou a tira A regra, cuja personagem feminina diz que só assiste a um filme se ele der conta dos requisitos: 1. Deve ter pelo menos duas mulheres; 2. Elas devem conversar uma com a outra e 3. Sobre alguma coisa que não seja homem. Isso porque a autora constatou que quase todas as obras cinematográficas não contemplavam essas condições, o que foi comprovado até pouco tempo em análises sobre os filmes hollywoodianos.

A representação do social é um tema delicado, pois as obras, de alguma forma, impactam no imaginário coletivo que, por sua vez, naturaliza os papéis de gênero. Estamos caminhando para uma melhora na representação do feminino, mas devemos nos atentar sobre o seu papel, pois, ainda que ativo, sua motivação deve estar também para além da relação amorosa com o masculino, como nos filmes de ação, cujo objetivo que move o herói é salvar o mundo, ainda que exista uma donzela na história.

Em suma, apesar de se usar como recorte a representação do feminino, essas reflexões cabem para pensarmos questões de gênero mais abrangentes e as representações sobre outros grupos sociais. Observa-se uma melhora significativa sobre a representação do feminino, mas ainda há muito que melhorar. Que todos cheguem com força!

Link para o artigo: http://www.monteirolobatosorocaba.org/materia/824794/elas-chegaram-ao-cinema

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