Arquivos de sites

Olhares sobre Santiago

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, em 8/12/2015, pág. 7 do Caderno de Turismo.

Míriam Cris Carlos
Thífani Postali

Chegamos a Santiago, e, de cara, fomos tomadas por um sentimento inusitado,  despertado pelo  número incontável de bandeiras do Chile, hasteadas por todos os cantos: do aeroporto ao centro. Estavam em muitos lugares, em casas simples e sofisticadas, residenciais e comerciais, como que brotadas da terra. Uma chuva de bandeiras pintando a paisagem cinzenta de azul, branco e vermelho.

Quem já foi a Santiago pode perceber que o culto à bandeira, por lá, não é nada incomum. A que tremula na praça em frente ao Palácio La Moneda, imensa e imponente, emana, além de respeito e fascinação, uma certa inquietude que faz pensar sobre a nossa relação com nossos símbolos.

 Mais tarde, procuramos um lugar para comer. Acertamos na simplicidade do bar, na sua informalidade e no sabor genuíno do ceviche chileno. Erramos feio pelo fato de termos de enfrentar uma audiência apaixonada que assistia ao jogo entre as seleções chilena e brasileira: todos no restaurante eram chilenos. Nós, a exceção. Porém, difícil seria ter entrado em outro lugar onde fosse um pouco diferente. Não havia um restaurante do entorno sem uma TV ligada no jogo. E a torcida, apaixonada, vibrava a cada lance como se ali estivesse a mais apaixonada das torcidas brasileiras. Espaçadamente, as mesas viravam uma percussão tocada fortemente pelas mãos e acompanhadas pelos brados que ecoavam: CHI CHI CHI LE LE LE.   Tudo culminou com a derrota do Brasil (2×0) em 09 de outubro, e um desalento indescritível, mesmo para aqueles que não são fãs do esporte, como é o nosso caso.

Também acompanhamos o feriado de “Aniversario del Descubrimiento de América”,  uma data que parece não ter sentido para muitos chilenos. Do taxista às intervenções urbanas, as mensagens pareciam ser contrárias ao evento. Talvez menos para a multidão de famílias que seguiu para o zoológico. Em pichações pelo centro da cidade, afirmações de que o Chile não foi descoberto, mas sim invadido; em cartazes espalhados, reflexões sobre a origem e identidade do povo chileno, pedindo o reconhecimento dos povos Mapuches e questionando: “Por que se desconocen nuestras raíces?”. Outros cartazes, no estilo lambe-lambe, pediam a união do povo para a construção de um “Novo Chile”, enquanto a questão sobre o papel cultural e social das mulheres, que envolve diretamente o conceito de feminismo, também em evidência no Brasil, marcava diversos locais. Em um deles, a frase “Mujer, no me gusta cuando callas”, que se refere à violência.

                A partir dessas manifestações, podemos perceber o quanto os chilenos levantam questões semelhantes às nossas, todavia, parece que lá o povo está melhor organizado quanto às discussões sociais no espaço público. Em se tratando das urbanas, cartazes gritam estrategicamente a cada esquina, com o uso evidente de técnicas de áreas como design e publicidade.

Quanto à culinária de Santiago, os pratos são ricos em peixes e frutos do mar, muitos dos quais completamente desconhecidos em nossos mares, graças à oferta abundante que representa ser banhado pelo Pacífico. Um bairro bastante agradável para passear e perder-se na escolha entre os bares e restaurantes é o Lastarria, onde se concentram chilenos e também turistas. Para quem gosta de apreciar vinhos, vale sentar em locais como o BocaNariz e harmonizar diferentes queijos, entre outros pratos cuidadosamente (e inusitadamente) preparados, junto a uma variedade de vinhos servidos em taças, especialmente para degustação.  Não à toa o restaurante se chama BocaNariz. Trata-se de um exercício para o paladar e o gosto, uma experiência que envolve cheirar e degustar, mas também ver. Outro restaurante que experimentamos e que, diga-se de passagem, foi o que mais nos aproximou da autêntica cozinha de Santiago, foi o Palacio Del Vino, cujo proprietário, José Luis, é um simpaticíssimo brasileiro que trabalhou como sommelier na vinícola Concha Y Toro. O restaurante fica em um casarão antigo, meticulosamente decorado com objetos os mais variados.  Segundo José Luis, o dono do imóvel escolheu a dedo quem iria ocupá-lo. O mais interessante é que você é servido pelo próprio José Luis que, junto a sua esposa, que é a chefe da cozinha, preparam um menu degustação com a harmonização de vinhos. Enquanto serve, José Luis dá uma aula sobre culinária, vinhos e a experiência com sabores. Por isso, não há cardápio. O cliente deve estar disposto a mergulhar na surpresa dos paladares. O sentimento é o de um desfile de aromas e sabores preparado com arte, com cuidado, com zelo e com alma.

Um outro lugar bastante curioso é o The Clinic. Ali funciona um jornal semelhante ao que foi o nosso antigo Pasquim, mas também um bar e restaurante, com vários ambientes cheios de manchetes do jornal, fotos, objetos estranhos pendurados nas paredes, além de quadros com um humor político, crítico e muito ácido, do qual não escapa nem a presidente Michelle Bachelet. Para cada ambiente há um tipo de música, e trata-se de um ponto de encontro de amigos, artistas e intelectuais, além de turistas curiosos. Uma frase por dia, em uma lousa, dá o tom crítico do ambiente. No dia em que lá estivemos, uma frase de Evo Morales classificava o capitalismo como um câncer a ser extirpado para não destruir a humanidade.

Em uma mesa de bar posta na calçada, em outro canto de Santiago, próximo ao Pátio Bellavista (este bem turístico, enquanto que dois quarteirões adiante já não havia turistas, mas cidadãos comuns de Santiago), enquanto tomávamos uma água e nos refrescávamos da caminhada, chamou a atenção um cortejo de carros. Parecia uma festa: buzinaço, gritaria, cartazes, faixas. Mas contraditoriamente, as pessoas pareciam tristes – os rostos contraídos; alguns chorosos. Não era uma festa. Era um enterro. Possivelmente de um jovem. E o caixão ia coberto, em carro aberto, com uma bandeira de time de futebol.

Uma situação que nos chamou bastante a atenção foi a valorização dos artistas independentes. Nas ruas e nos metrôs, músicos tocam e vendem seus Cds. Foi impressionante acompanhar o número de pessoas contribuindo com dinheiro ou compra dos Cds, fato que no Brasil parece pouco ocorrer, talvez pelo comportamento predatório da indústria da música, que ainda prevalece em nosso país.

Mas, um dos fatos que mais causam admiração é a quantidade de cachorros soltos nas movimentadas ruas do centro, nos parques e bairros de Santiago. Quase todos os cachorros são grandes em seu porte físico, alguns deles beirando à obesidade. Eles deitam nas calçadas em meio à correria do dia-a-dia e também ocupam as sombras frescas dos parques. Ocorre que esses cachorros possuem casinhas, água e alimento espalhados por todo o lado. Não conseguimos descobrir se essa é uma iniciativa de órgãos públicos ou da própria população, mas achamos bastante interessante e acolhedor. É possível observar comerciantes em geral cuidando dos animais que, dóceis, acompanham as pessoas que lhes dão atenção por um bom tempo. No bairro boêmio Bellavista, um deles nos acompanhou por três quarteirões, observando cada passo que dávamos!

É óbvio que a cidade apresenta problemas, como em qualquer grande metrópole. O Mapocho, rio que corta a cidade, ostentava garrafas, restos de comida, muita sujeira em suas margens. O trânsito no centro, nos horários de pico, é lento e caótico. O metrô em alguns horários se assemelha ao de São Paulo, com lotação total: impossível se mexer dentro do vagão. Mas sem dúvida é um lugar para perambular, principalmente a pé, durante o dia ou à noite. Há detalhes a cada esquina, contemplados sem bobeira, porque atenção é algo que qualquer grande centro exige, mas há uma sensação de segurança, guardada não apenas pelos carabineiros, a polícia chilena, mas pela sensação de que ali está um povo em paz com a vida, o trabalho e os sonhos, em uma cidade bem cuidada, ainda que o número de moradores de rua tenha aumentado significativamente em comparação a outras vezes em que a visitamos.

E o melhor, sem a névoa densa de poluição que nubla de cinza opaco o horizonte, para onde se olhava, lá estavam, salpicadas de branco, como uma paisagem de sonho ou de calendário. Olhar, olhar novamente, olhar mais uma vez e respirar fundo, como se o ar gélido pudesse refrescar, bem mais que os pulmões, o nosso coração tropical, que se derreteu no contato com tanta diferença materializada na visão das Cordilheiras.

Chile - dez 2015
.