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Música e sexo: um caso além do funk

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, página A2,  em 03 de maio de 2016

Muito se fala que o funk é um tipo de prática musical depravada e que, portanto, não merece o reconhecimento como expressão cultural. Também é comum ouvirmos que, apesar de sua origem estadunidense, não possui absolutamente nada relacionado à cultura de origem. E aqui já temos dois equívocos.

Primeiro que, se formos considerar a cultura em seu sentido antropológico, toda e qualquer expressão humana deve ser considerada cultural. Segundo, que a musicalidade afroestadunidense sofreu diversas transformações, em seu próprio território e em outros que importaram essa cultura.

No Brasil, a partir dos anos 90, o funk ganhou visibilidade através dos meios de comunicação, mas o recorte feito pela mídia apresentava e ainda apresenta uma música associada à criminalidade e ao sexo. Hoje, também, dá ênfase ao “Funk Ostentação”, cujo conteúdo aborda o consumo de grifes, bebidas, baladas e status bem, nada diferente do que as publicidades vivem despejando em nossa sociedade, e o “Funk Putaria”, que discorre sobre a pornografia.

Deste modo, sua história não é recente e envolve severas críticas, vindas de distintos segmentos sociais, sobretudo, quanto ao seu conteúdo inapropriado. Todavia, existem diversos tipos de funk, inclusive uma vertente pouco difundida, o “Funk Consciente”, como o de MC Garden, que, assim como o Hip Hop, procura chamar a atenção para os problemas sociais que afligem os jovens e a sociedade brasileira. A música “Isso é Brasil” ganhou notoriedade nas redes sociais durante as manifestações ocorridas em 2013. Mas, mesmo assim, não foi “apadrinhada” pela grande mídia.

É fato que a expressão musical recebeu uma configuração brasileira, mas sua origem está atrelada ao ritmo estadunidense soul, que, segundo Herschmann, trata-se da união entre os ritmos gospel e rhythm and blues, que em meados de 1960 conquistou visibilidade mundial a partir de Ray Charles e James Brown. O termo funky surgiu nesse período, decorrente de um sentimento de alegria e de “orgulho negro”, passando a significar uma vertente da música ainda capaz de produzir uma sonoridade que representasse a negritude. No Brasil, o funky se transformou em funk, um estilo musical marcado pela dança e atitudes de alguns grupos de jovens que habitam as periferias, principalmente, das metrópoles Rio de Janeiro e São Paulo.

Outra manifestação musical que em muitas letras aborda o sexo é o blues. Os bluesmen discursavam sobre relacionamentos conturbados e sexo sem pudores. E esse foi um dos motivos de também ser considerado, no início do século XX, uma música ofensiva e desprezível. Robert Johnson, em “Phonograph Blues”, cantava o sexo através do gramofone, e, em “Terraplane Blues”, relacionava o sexo a peças de automóveis. Essa visão só mudou com a internacionalização do ritmo e a sua assimilação à música de lamento, como o rock ficou para a rebeldia e o jazz para música erudita apresentada pelo cinema.

Outras vertentes musicais também abordam o sexo de forma explícita. Da música clássica a toda conotação sexual do rock and roll, do pagode ao axé, em que uma geração desceu até a “boquinha da garrafa” quando criança, da música pop ao sertanejo e esse último que o diga! O chamado sertanejo universitário discorre sobre sexo e muitas composições envolvem elementos do funk putaria.

Portanto, a combinação entre sexo e música é caso antigo. O que difere é a forma como consumimos e valorizamos as expressões musicais. Ainda olhamos para elas sem o conhecimento de seu todo, acatando tudo o que determinam os principais veículos de comunicação. Nas emissoras de rádios mais comerciais, as “top mais” de sertanejo, pagode e funk; nas demais, o bombardeio da música pop internacional. Já parou para pensar no conteúdo das músicas de Rihanna, Miley Cyrus e outros “top”?

Link para a matéria: http://www.jornalcruzeiro.com.br/materia/696358/musica-e-sexo-um-caso-alem-do-funk

Favelei: o funk ‘melhorado’ de MC Veia

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, em 17 de julho de 2015.

Míriam Cris Carlos
Thífani Postali

Foto jornal MC Veia

Por que o funk e não o rap?

Para se pensar as práticas musicais rap e funk e suas relações com os veículos de comunicação de massa, não podemos fugir à lógica mercadológica que compreende a indústria do entretenimento. Visando atingir ao maior número de pessoas possível, a indústria cultural admite ou adapta os produtos que melhor atendam ao sistema capitalista. Como acrescenta Néstor Canclini, os formatos e as mudanças permitidas são feitas de acordo com a dinâmica do mercado do sistema em que se encontra. Assim, o que é passível de veiculação são os produtos culturais rentáveis à indústria, que deixa de lado as escolhas pessoais dos produtores, no caso, dos compositores de rap e funk.

De acordo com Edgar Morin, as produções da indústria cultural são dirigidas a todos, ou seja, às diferentes idades, às diversas classes e grupos sociais, que formam a massa de consumo para as indústrias nacionais ou mundiais.

Considerando as colocações de Canclini e Morin, a fórmula para se inserir nos meios de comunicação de massa implica produzir conteúdos que dialoguem com o maior número de pessoas. Assim, alguns temas, como amor, sexo e poder, são líderes nas produções massivas, já que envolvem textos facilmente identificáveis por uma maioria.

Surgidas a partir da segunda metade do século XX, as práticas culturais urbanas rap e funk são oriundas de um mesmo grupo social, formado por jovens que se encontram às margens da vida social urbana, ou melhor, daquilo que se coloca como ideal da vida social urbana, já que são desfavorecidos economicamente.

O rap, por exemplo, tem sua raiz na Jamaica e surgiu em 1960, quando a população carente do país passou a utilizar a música como meio de expressão contra o sistema local. Da Jamaica para os Estados Unidos e depois para o mundo – graças às novas tecnologias, o rap tornou-se a música do movimento Hip Hop, que tem como finalidade disseminar “Paz, Amor, União e Diversão” por meio de manifestações artísticas chamadas de elementos, tais como o rap, a dança, o grafitti, os MCs e os DJs.

É claro que as invenções humanas podem ser utilizadas para diversos fins. A princípio, o Hip Hop foi criado por África Bambaataa para diminuir a violência e disciplinar as gangues dos guetos de Nova Iorque. Entretanto, cientes da capacidade que a música rap tem em disseminar informações, outras gangues começaram a utilizá-la para fazer apologia ao crime e ao uso de drogas ilegais. A partir dessa situação, Bambaataa criou o quinto elemento do movimento, chamando-o de “conhecimento”. A intenção era legitimar o movimento dizendo que o verdadeiro Hip Hop tem que passar mensagens positivas ao grupo, além de despertar o senso crítico dos jovens.

Por esse motivo, existem dois tipos de rap: aquele que possui conteúdo crítico-social abrangendo discursos políticos e filosóficos e o gangsta rap, que relata o cotidiano violento dos indivíduos que vivem esse contexto. Não coincidentemente, a maioria das pessoas que desconhecem essa musicalidade a assimila à delinquência, o que é fruto dos textos midiáticos que sempre trataram o rap de forma taxativa, dando ênfase apenas às produções gangstas.

Emergido no mesmo período e grupo social, o funk que relata o cotidiano dos jovens das favelas não teve a mesma trajetória do rap. Com algumas exceções, a maioria das letras abordavam o comportamento e o entretenimento dos jovens moradores dos morros do Rio de Janeiro, tendo como foco os cenários dos bailes funk e o sexo. Recentemente, os compositores de funk alteraram os temas trocando os relatos da diversão dos jovens desfavorecidos economicamente para a diversão dos jovens de famílias abastadas. Com esse novo formato, nomeado “funk de ostentação”, o produto cultural ganhou visibilidade e ingresso na mídia.

O interessante é perceber como a indústria cultural continua praticando as mesmas imposições de sempre. Talvez o rap não obtenha tanta notoriedade pelo fato de produzir textos reflexivos e resistentes ao sistema social vigente. Do mesmo modo, existem funks com conteúdos críticos, como os de MC Garden que refletem sobre a política e opressão de seu grupo, mas esses não chegam a ser difundidos pela indústria cultural. Já alguns rappers como Emicida tentam, além de suas letras críticas, produzir outras mais neutras, aparecendo apenas em canais e programas de menor audiência. Por outro lado, recentemente, a maior emissora de televisão brasileira passou a divulgar o funk, inserindo-o nos programas líderes de audiência.

É certo que não podemos depositar o sucesso do funk apenas a sua divulgação propiciada pelos grandes meios. Devemos levar em consideração também o consumo da população brasileira que, de certa forma, aponta os produtos de melhor aceitação. Logo, o funk é viável por oferecer uma linguagem mais rentável à atual prática social que permite textos mais explícitos sobre assuntos como sexo, consumo de bebidas alcoólicas, entre outros comportamentos considerados imorais por diversas instituições sociais. Assim, talvez possamos pensar que o funk tornou-se viável por acompanhar o comportamento de inúmeros jovens brasileiros e também por não possuir, em maioria, textos passíveis de censura, como os do rap.

ARTIGO publicado em 23/03/15, no Jornal Cruzeiro do Sul, folha A2.
Link: http://www.cruzeirodosul.inf.br/materia/600772/por-que-o-funk-e-nao-o-rap

O funk invade os sons da ‘classe A’

*Notícia publicada na edição de 04/06/2013 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 2 do caderno A

“Isso não é música!”. Você já deve ter ouvido, pelo menos, umas dezenas de vezes a frase acima quando alguém se referiu ao funk como um estilo musical. Até pouco tempo, essa manifestação cultural, provinda dos grupos mais desfavorecidos economicamente, especialmente, localizados na cidade de Rio de Janeiro, não possuía espaços nas rádios, novelas, lojas de discos, trilhas sonoras de vídeos publicitários e festas da maioria das pessoas que compõe as demais classes sociais.

Ocorre que o funk, em sua maioria, abordava assuntos populares no sentido de retratar o cotidiano de um grupo social específico, no caso, o comportamento e o entretenimento de grande parte dos jovens moradores das favelas.

Na maioria das produções, as letras carregam conteúdos sexuais de forma explícita, como as letras da cantora carioca Tati Quebra Barraco que, desde o ano de 2000, faz sucesso em quase todo o Brasil. Algumas de suas músicas chegaram a tocar nas rádios populares, no entanto, aquelas em que o conteúdo erótico não era tão explícito como “”Atoladinha””, em parceria com funkeiro Bola de Fogo “”[…] vai me enterrar na areia? não, não, vou atolar, to ficando atoladinha, calma, calma foguetinha […]””. Entretanto, a maioria das produções só podem ser ouvidas em rádios piratas, cds, internet e bailes específicos como, por exemplo, as letras de “”69 frango assado””, “”Motel””, “”Orgia””, “”Ardendo assopra””, entre outras dezenas de títulos que não caberiam neste texto devido ao teor tão apelativo.

Se tratando da mídia, geralmente o funk era apresentado de maneira negativa em reportagens que mostravam o comportamento dos adolescentes e jovens nos bailes funk. Práticas de sexo e orgias durante as festas eram os temas mais explorados.

Em 2012, o consumo do funk apresentou dar indícios de mudanças. Algumas músicas passaram a ser consumidas por jovens de todas as classes sociais, inclusive os das mais abastadas. Aproveitando o gancho, a indústria cultural passou a veicular as músicas, bem como apresentar os cantores de um estilo musical que, até pouco tempo, era abolido por esse sistema. Talvez possamos dizer que, nesse ano, a manifestação ganhou notoriedade, como têm as demais produções populares do país.

A própria publicidade que, sempre tão atenta às mudanças de comportamentos sociais, passou a utilizar o funk como trilha sonora de campanhas para produtos direcionados aos membros da “”classe A”” brasileira. Uma das músicas mais tocadas nos primeiros meses de 2013 foi “”Passinho do Volante”” do Mc Federado e os “”Leleks””, cujo conteúdo aborda os movimentos da direção de um carro “”[…]Girando girando girando para o lado Girando girando girando pro outro Aaaaaaaaah lelek lek lek lek lek lek lek lek lek lek […]””. Ela ganhou maior projeção quando o jogador de futebol Neymar passou a dançar a coreografia em comemoração aos gols realizados. Tornou-se febre. Passou a tocar em todas as rádios populares, programas televisivos, sons dos carros, festas e internet.

Atentos a essa aceitação, a marca de veículos Mercedes Benz – que tem uma imagem conservadora -, decidiu renovar a comunicação disponibilizando um vídeo publicitário na internet com a trilha da música citada, onde o novo modelo do Classe A faz os movimentos sugeridos pela letra. Uma estratégia ousada para chamar a atenção do público jovem que consome funk, mas que pode colocar em risco o conceito da marca perante o fiel consumidor.

A explicação para tal fenômeno se dá pelo fato de que, hoje, a maioria dos funks veiculados pela mídia não tratam apenas do dia a dia do grupo social de que emergiram, mas incluem, além da sexualidade, assuntos que dialogam com as classes mais abastadas, como marcas de grifes, carros importados, dinheiro, baladas regadas a bebidas destiladas e poder. Essa nova expressão tem sido denominada como funk da ostentação e tem sido produzida também em outras regiões do Brasil.

A letra “”Como é bom ser vida loka”” de Mc. Rodolfinho apresenta de maneira bem explícita os modos de vida daqueles que possuem poder financeiro “”[…] Bolso esquerdo só tem peixe, o direito tá cheio de onça, ai meu deus como é bom ser vida loka. De carrão, de motona, o bagulho te impressiona. Traz bebida pras gatona. Deixa elas malucona. Camarote, areá vip, baladinha monstra […] Relógio rolex, double x, Ed hardy a firma é forte, Chego no shopping, Ei gerente, Quero sair daqui todo de Oakley.[…]””. Da mesma forma, o paulistano Mc. Danado canta: “”[…] Vida é ter um Hyundai e uma Hornet/10 mil pra gastar, Rolex e Juliet […].””

Talvez seja possível entender o aumento do consumo do funk pelo fato de as músicas apresentarem contextos que conversam com as outras classes sociais, não somente aquelas que possuem condições para viver o que é relatado nas letras, mas também aquelas que sonham em poder um dia usufruir dessa situação tão pouco possível para quase toda a população brasileira.

Disponível em:  http://www.cruzeirodosul.inf.br/acessarmateria.jsf?id=477192