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Política e religião: um relacionamento sem fé?

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, página A2, em 17 de abril de 2018.
Thífani Postali
com Isabella Reis Pichiguelli 

Nós, brasileiros, temos nos agitado mais com relação à política nos últimos anos. Ainda que pouco compreendamos os processos legais e ilegais correntes na esfera pública, uma coisa é fato: descobrimos que política nos interessa e que religião se discute, ainda mais quando presenciamos um afloramento de religiosos se embrenhando nos caminhos tortuosos da política, ao passo que vemos políticos, das figuras mais contraditórias, se alinhando aos que se dizem “homens de fé cristã”, ainda que defendam ações totalmente contrárias aos ensinamentos de Jesus Cristo.

Rubem Alves esclarece que dentro dos limites do mundo profano debatemos sobre as coisas que se nos apresentam de modo concreto e visível, ao passo que o mundo do sagrado se refere às coisas invisíveis, que estão para além dos nossos sentidos comuns, que “apenas os olhos da fé podem contemplar”. Assim, as religiões tornaram-se fundamentais para a vida humana, na medida em que buscam explicar os fenômenos e os sinais que estão para além da manipulação humana, dando-os sentidos e significados, inclusive para o cotidiano profano da vida.

No entanto, a humanidade é diversa e as trocas culturais apresentaram diferentes formas de explicar e dar sentido à existência da natureza. Ao mesmo tempo, muitos grupos culturais buscaram impor a sua crença àqueles que julgaram diferentes ou que “desviaram” do caminho. Em alguns períodos e locais, religião e política caminham de mãos dadas, impossibilitando o diálogo entre diferentes percepções pelos olhos da fé — ou não. A Idade Média nos apresentou um período de julgamentos e eliminação do diferente, ao passo que o Oriente Médio ainda hoje nos mostra o desastre resultante da fusão entre o poder do Estado e o poder da religião.

Ocorre que, no Brasil, falamos de mundos sagrados. Por sua história e miscigenação, a cultura brasileira integra crenças das mais variadas, incluindo as híbridas, que emergiram no país com a vinda de africanos, europeus e outros povos. Por esse motivo, a nossa Constituição decreta o Brasil um país laico, mas essa ideia está apenas nos documentos oficiais, não se traduz no cotidiano, sobretudo, nas atitudes daqueles que riscam e rasgam papéis.

Como falamos no início, estamos num momento em que homens que se dizem religiosos buscam alcançar a vida política, o que tem crescido nos últimos anos. O grande problema dessa relação é que, muitas vezes, a religião não passa de um escudo para a prática de atos que só dizem respeito a seus próprios interesses. Para falar do cristianismo, evidenciado por muitos desses políticos: que fé cristã é essa que não olha para o próximo, não se importa com o que o outro diz, não se revolta contra as injustiças sociais e, pior, por diversas vezes corrobora com as injustiças? Ainda que existam, infelizmente são poucas as figuras públicas que podem dar bons exemplos de como a fé cristã pode motivar uma prática política em prol do bem de todos e da justiça social.

Em nome da religião, muitos tomam decisões à luz do próprio umbigo. Inquestionavelmente, dessa maneira se torna falsa a religião. No entanto, exposta às mídias, pode ser conhecida por muitos como legítima. E o perigo das religiões falsas, tomadas como legítimas, é justamente que chamam para si um poder exterior que se baseia no exclusivismo e na destruição do diferente. O Estado laico e a convivência entre as religiosidades, já frágeis no Brasil, ficam ainda mais ameaçados. A todos nós, religiosos ou não, é hora, inescapável, de nos voltarmos às mensagens originais e compreender, atentos e alertas, de que falam e o que pedem as religiões legítimas. O voto, ao menos por enquanto, ainda cabe a nós.

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Música e sexo: um caso além do funk

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, página A2,  em 03 de maio de 2016

Muito se fala que o funk é um tipo de prática musical depravada e que, portanto, não merece o reconhecimento como expressão cultural. Também é comum ouvirmos que, apesar de sua origem estadunidense, não possui absolutamente nada relacionado à cultura de origem. E aqui já temos dois equívocos.

Primeiro que, se formos considerar a cultura em seu sentido antropológico, toda e qualquer expressão humana deve ser considerada cultural. Segundo, que a musicalidade afroestadunidense sofreu diversas transformações, em seu próprio território e em outros que importaram essa cultura.

No Brasil, a partir dos anos 90, o funk ganhou visibilidade através dos meios de comunicação, mas o recorte feito pela mídia apresentava e ainda apresenta uma música associada à criminalidade e ao sexo. Hoje, também, dá ênfase ao “Funk Ostentação”, cujo conteúdo aborda o consumo de grifes, bebidas, baladas e status bem, nada diferente do que as publicidades vivem despejando em nossa sociedade, e o “Funk Putaria”, que discorre sobre a pornografia.

Deste modo, sua história não é recente e envolve severas críticas, vindas de distintos segmentos sociais, sobretudo, quanto ao seu conteúdo inapropriado. Todavia, existem diversos tipos de funk, inclusive uma vertente pouco difundida, o “Funk Consciente”, como o de MC Garden, que, assim como o Hip Hop, procura chamar a atenção para os problemas sociais que afligem os jovens e a sociedade brasileira. A música “Isso é Brasil” ganhou notoriedade nas redes sociais durante as manifestações ocorridas em 2013. Mas, mesmo assim, não foi “apadrinhada” pela grande mídia.

É fato que a expressão musical recebeu uma configuração brasileira, mas sua origem está atrelada ao ritmo estadunidense soul, que, segundo Herschmann, trata-se da união entre os ritmos gospel e rhythm and blues, que em meados de 1960 conquistou visibilidade mundial a partir de Ray Charles e James Brown. O termo funky surgiu nesse período, decorrente de um sentimento de alegria e de “orgulho negro”, passando a significar uma vertente da música ainda capaz de produzir uma sonoridade que representasse a negritude. No Brasil, o funky se transformou em funk, um estilo musical marcado pela dança e atitudes de alguns grupos de jovens que habitam as periferias, principalmente, das metrópoles Rio de Janeiro e São Paulo.

Outra manifestação musical que em muitas letras aborda o sexo é o blues. Os bluesmen discursavam sobre relacionamentos conturbados e sexo sem pudores. E esse foi um dos motivos de também ser considerado, no início do século XX, uma música ofensiva e desprezível. Robert Johnson, em “Phonograph Blues”, cantava o sexo através do gramofone, e, em “Terraplane Blues”, relacionava o sexo a peças de automóveis. Essa visão só mudou com a internacionalização do ritmo e a sua assimilação à música de lamento, como o rock ficou para a rebeldia e o jazz para música erudita apresentada pelo cinema.

Outras vertentes musicais também abordam o sexo de forma explícita. Da música clássica a toda conotação sexual do rock and roll, do pagode ao axé, em que uma geração desceu até a “boquinha da garrafa” quando criança, da música pop ao sertanejo e esse último que o diga! O chamado sertanejo universitário discorre sobre sexo e muitas composições envolvem elementos do funk putaria.

Portanto, a combinação entre sexo e música é caso antigo. O que difere é a forma como consumimos e valorizamos as expressões musicais. Ainda olhamos para elas sem o conhecimento de seu todo, acatando tudo o que determinam os principais veículos de comunicação. Nas emissoras de rádios mais comerciais, as “top mais” de sertanejo, pagode e funk; nas demais, o bombardeio da música pop internacional. Já parou para pensar no conteúdo das músicas de Rihanna, Miley Cyrus e outros “top”?

Link para a matéria: http://www.jornalcruzeiro.com.br/materia/696358/musica-e-sexo-um-caso-alem-do-funk

Entrevista e participação no programa Ipa Brasil – rádio

Janeiro 2014
O Ipa Brasil é um programa da rádio Ipanema Fm, da cidade de Votorantim/Sorocaca, conduzido por Renata Moeckel.
Entre o bate papo, algumas músicas foram selecionadas para tocar, incluindo o motivo das escolhas.
Tempo de duração: 1h

Músicas escolhidas:
1. Jack Soul Brasileiro – Lenine
2. Súplica Cearese – 1960 Gordurinha – Regravação de Luiz Gonzaga e O Rappa
3. Vivo num morro – Pato Fú- 1998
4. Televisão – Titãs- 1985
5. Admirável Chip Novo – Pitty – 2003
6. Pra sonhar – Marcelo Jeneci.

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