Category Archives: Vídeos/Entrevistas

Entrevista para jornal impresso

Por Bruna Camargo – Jornal Diário de Sorocaba, em 10/07/2017
FEBRE NA INTERNET

As cidades do entorno de Sorocaba já revelaram youtubers que, atualmente, são bastante conhecidos na Internet. Em uma longa lista de canais de todos os tamanhos, alguns destacam-se pelo humor e persistência. Os donos dos canais “Daniel Murillo Show”, “Mas é o Cúmulo” e “Ander Jackson” contam qual foi o caminho percorrido até milhares de visualizações e curtidas na plataforma de vídeos YouTube.

O RAPAZ DO ‘CASTELE’ – “Toda vez que eu ia no shopping, ouvia alguém gritando ‘castele’”, conta o comediante votorantinense Daniel Murillo, 26 anos, que ganhou destaque quando seu vídeo “Minha Cidade” viralizou nas redes sociais, em 2015. Hoje, o canal “Daniel Murillo Show” tem mais de 6 mil inscritos e 400 mil visualizações.

O primeiro vídeo foi postado no YouTube há cerca de dois anos para tentar alcançar um público ao qual Daniel não chegava com suas apresentações de stand-up. “Tinha algumas piadas para além do palco. Lógico que o excesso de tempo livre também ajudou”, brinca.

Com alguns equipamentos emprestados até comprar os próprios, conseguiu produzir conteúdo original. “Fiz várias tags, mais para parodiar esse formato”, explica Daniel, referindo-se aos vídeos que se tornam correntes com temas repetidos por vários youtubers. O vídeo “Minha Cidade” é um exemplo de tag, no qual ele revela as gírias de Sorocaba, como `castele´, `quaiar o bico´, `porva´ e `xé´. “Fiz porque eram umas piadas que fazia no meu stand up e não iria utilizar mais; então, resolvi registrar. Minha expectativa era alcançar 30 mil visualizações em um mês e teve 100 mil em uma semana”, conta. “Foi muito incrível. porque o pessoal gostou e se identificou”.

O comediante utiliza a plataforma do YouTube como uma forma de aumentar a audiência de seu stand up. “Como a Internet é a nova TV, é o meio principal que qualquer artista tem para se divulgar”, afirma. “Curto mesmo é o show ao vivo; ver as pessoas, ouvir as risadas. Isso vale mais que um vídeo viral”.

O canal, no entanto, não será deixado de lado. Há algum tempo sem postar vídeos, Daniel esclarece que 2017 mudou sua vida e resultou na falta de tempo, mas que voltará à ativa em julho, com duas publicações semanais e exibição de trechos dos seus shows. “Vou usar outros formatos para fazer outras ideias de piadas”, diz o comediante, contando assistir todos os tipos de youtubers para ganhar referência e acredita que pode ganhar espaço em meio a tantas produções. “Na Internet, em geral tem público para tudo. Um bom canal precisa ter um bom conteúdo e saber se divulgar para atingir esse público”, pontifica.

ACERTO NA SEGUNDA TENTATIVA – Quem vê os quase 100 mil inscritos no canal de Abner Wesley, 17 anos, não imagina que, em 2011, o morador da Vila Olímpia, em Sorocaba, já havia tentando o sucesso com o grupo de amigos. Desde os 10 anos de idade, o estudante divertia-se fazendo apresentações na escola através de vídeos. “A gente gravava sobre o tema que o professor pedia, editava e mandava para ele; a sala inteira dava risada”, conta Abner.

Logo, o caminho para o YouTube foi natural. “Éramos viciado em youtubers da época. A gente se reuniu e gravou alguns vídeos, mas a ideia foi cancelada logo em seguida, porque era muito ruim”, lembra. Hoje, seu canal “Mas é o Cúmulo” já tem mais de 2 milhões de visualizações e ganha novos seguidores todos os dias.

Com a decisão de voltar a gravar sozinho, em meados de 2015 Abner teve de escolher um nome para a nova empreitada no YouTube: “Eu não queria dar o meu nome para o canal. Acho que ‘Abner’ é muito difícil de ser lembrado – apesar de existir o Whindersson Nunes”, brinca. “Então, peguei um gibi da Turma da Mônica e um dos títulos da história era ‘mas é o cúmulo’, expressão que eu gostava muito de usar”.

O retorno veio primeiro dos amigos. “Recebi muitos elogios na escola. É claro que tem aquelas pessoas que, por trás, falam mal, porém nunca levei isso como algo ruim, mas uma crítica para melhorar”, garante Abner.

Já a família viu com outros olhos. As conversas refletiam a preocupação com os estudos e como a vida na Internet poderia interferir nos mesmos. “Os planos deles para mim eram outros”, conta. A situação mudou após os parentes observarem os resultados positivos.

Abner afirma ainda ter entrado no YouTube no momento em que o tipo de vídeos que fazia estava em alta, o que o ajudou a ganhar atenção. Sua preparação envolveu inspirar-se nos youtubers já conhecidos, como Júlio Cocielo, Felipistando, Carolinne Silver e Mítico Jovem, e assistir outros canais. “Na verdade, observei tudo que não deveria fazer”, admite, rindo.

A Internet oferece uma carreira promissora para o jovem, que se empenha em fazer sua visibilidade crescer. “Tenho um planejamento de postar, pelo menos, dois vídeos semanalmente, pois assim você não cai no esquecimento”, explica. “Saber a opinião do público também é muito importante, por isso sempre peço”.

O segredo de um bom canal, conta Abner, é conseguir cumprir o objetivo do seu conteúdo. “Se for de comédia e ele tirar um sorriso das pessoas, aquele canal é bom”, exemplifica. “Na verdade, faço o conteúdo que eu gostaria de assistir”.

O público do “Mas é o Cúmulo” tem ficado satisfeito e passou a reconhecê-lo; Abner costuma ver meninas olhando e cochichando quando passeia. “Tiram fotos minhas pensando que não estou vendo”, ri. “Da última vez, o flash do celular estava ligado. A menina ficou toda sem graça”.

Para o futuro, o jovem tem planos de investir em uma marca para atingir as pessoas que não acompanham a Internet. “Pretendo levar (o YouTube) como profissão inicial para poder investir em outros meios depois”.

DAS BRINCADEIRAS PARA AS PARÓDIAS – O canal é recente, o número de seguidores ainda não é tão alto e poucos vídeos foram postados. No entanto, o agendador de serviços Ander Jackson, 22 anos, está com todo o gás e empolgação para ganhar seu espaço como youtuber. “Sempre postei vídeos no Instagram ou nas histórias do Snapchat. Veio a ideia de postar no Facebook e, para acompanhar o ritmo, cheguei até o YouTube”, explica.

Com o celular que lhe oferecia boa qualidade de vídeo e conhecimentos de edição, decidiu se arriscar. Morador do bairro Wanel Ville 3, em Sorocaba, Ander é conhecido por ser naturalmente engraçado, mas ficou confuso no início das gravações: “Não sabia o que falar e nem como fazer”, revela. “Mas devemos ser nós mesmos e me inspirei em como minha vida estava na época, com muita gente falando das redes sociais das pessoas”.

Após alguns vídeos em que conversa com a câmera de modo espontâneo e cômico, Ander passou a publicar paródias musicais no canal que leva seu nome: “Escutando músicas normais, sempre acabava fazendo uma paródia de brincadeira. Decidi compartilhar com a galera que me segue”.

“Despacito” tornou-se “Tô póbrito”, “Bad Liar” ficou “Me trai” e “Shape of You” virou “Eu odeio meu cabelo ruim”. O jovem escreve a letra, busca a versão instrumental da música e grava sua versão; o processo leva cerca de dois dias. O investimento financeiro fica entre R$ 30 e R$ 40 para impulsionar os vídeos no Facebook. “Ultimamente, tem saído mais paródia para aproveitar o público das músicas novas”, explica.

Para Ander, ser autêntico é essencial na Internet. “Tentar ser outra pessoa não vai gerar um bom resultado”, comenta. Com pretensão de seguir a profissão de youtuber, ele tem objetivos claros em mente: “Sem meta, seria como andar em círculos sem saber para onde ir; é importante tanto para a vida pessoal quanto para a profissional”.

Internautas devem buscar conhecimento

Os youtubers surgiram logo que a população percebeu que poderia utilizar a plataforma de vídeos como ferramenta para estar do outro lado e criar informações, de acordo com a doutoranda em Multimeios pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e mestre em Comunicação e Cultura pela Uniso (Universidade de Sorocaba), Thífani Postali. “A gente conversa com os mais jovens e pergunta ‘o que você vai ser quando crescer?’, e eles dizem ‘youtuber’”, afirma.

Para Thífani, a possibilidade de estar em vídeos democratizou a comunicação. “Não é só através dos filtros da grande mídia”, explica. “Pela primeira vez, não só pelo YouTube, mas pelas redes sociais, as pessoas podem se posicionar, podem falar”.

Como tudo tem os lados positivo e negativo, tal liberdade implica no cuidado do produtor e também do receptor da informação: “A gente vê muitos youtubers falando o que querem, sem propriedade. Isso acaba sendo um problema, porque as pessoas confiam nessa imagem, que Edgar Morin chama de ‘star system’”.

O público deve, então, ter em mente que youtubers são, em maioria, pessoas comuns, dando opiniões pessoais sobre determinados assuntos.

Thífani acha o YouTube uma boa oportunidade para que criadores de conteúdo tenham espaço para mostrarem seus trabalhos. “O que é diferente daqueles que falam ‘vou abrir um canal, mas ainda não sei o que fazer’”, exemplifica.

A pesquisadora ainda repudia a postura de alguns canais. “Quando a gente pega uma pessoa que tem milhões de seguidores no YouTube e ela fala que tal dieta resolve sua vida em um mês, é problemático, porque você se torna um influenciador”, pontua. “A pessoa insere e retira significados das coisas. O que eu critico é a não medida sobre o que falar e como falar”.

A cultura do brasileiro em ter credibilidade cega na grande mídia complica a situação, segundo Thífani. “Por anos, nós nos deixamos levar por aquilo que a gente via na tela da TV. Quando a gente passa para a tela da Internet, continua acreditando”, observa. “Estamos num momento de aprender; ainda somos analfabetos digitais”.

COMUNICAÇÃO – Thífani defende que o momento é de diálogo e de estudos. “A chave para você não ser engolido por tantas opiniões é, justamente, buscar informações com profissionais, artigos, livros e matérias, para daí mensurar se aquilo é válido ou não e ter sua própria opinião”, afirma.

“A gente vai no básico e fecha com uma ideia vazia. A Internet depende muito mais da nossa atitude para investigar as coisas do que a TV, que dava tudo pronto”, diz a pesquisadora. “Depende muito da gente e nós não estamos preparados. Temos que falar mais sobre isso”.

PROFISSÃO – Cursos são dedicados à produção de vídeos para a Internet, enquanto o número de pessoas que criam canais continua aumentando. No entanto, Thífani acredita que o fenômeno não deve perdurar dessa maneira por tanto tempo. “Não sei o que vai acontecer, mas acredito que seja uma fase”, diz.

Para a pesquisadora, tratar youtuber como uma profissão é arriscado. “É uma coisa que você faz sem esse nome”, opina. “Você pode viver de um canal no YouTube, mas não é uma profissão”, reconhece.

Logo, Thífani acha válido que os usuários dessa ferramenta estejam buscando ir além da plataforma e espera que, para os que continuem fazendo vídeos, cuidados sejam tomados. “Espero que haja regulamentação!”

Link da matéria: http://www.diariodesorocaba.com.br/noticia/252835
Anúncios

Entrevista – Arte na TV

Lançamento de “Cidade e Comunicação: a miopia sobre o mundo e outros textos.
2014.

Entrevista para a Rádio Fritura

Entrevista para a rádio Fritura, 17 de abril de 2017.
Games, Cinema e Hip Hop.

Colaboração em matéria – Jornal Diário de Sorocaba

Estrangeiros aproveitam carnaval e contam impressões
Por Bruna Camargo

Eles vieram de países distantes e falam diferentes línguas, mas uma coisa têm em
comum, viveram em Sorocaba durante um ano e experimentaram a sensação de estar em uma das festas populares mais conhecidas do mundo, o carnaval brasileiro. Em meio a estereótipos perpetuados ao redor do globo, cinco jovens de distintas etnias descrevem o choque com o que observaram na cultura brasileira e as lembranças que levaram para casa.

MÉXICO – Chegando ao Brasil após não ter muita escolha sobre o país ao qual seria enviado pelo programa de intercâmbio do qual participou, Daniel Estrada Ortega, 20 anos, estudante de Administração, morou com quatro famílias, das quais três são de Sorocaba e uma de Araçoiaba da Serra. “Fui para a escola e fiz bastante amizade. No começo, foi um pouco difícil, porque eu não falava nada de Português, mas depois aprendi até o sotaque sorocabano”, revela. O programa possibilitava conhecer e fazer atividades com vários outros intercambistas que estiveram em Sorocaba no mesmo período. “Aprendi muita coisa. Quando você vai para um país diferente, não tem noção do que vai experimentar. Isso se torna uma coisa muito interessante, que dá muita sabedoria no final”, expressa.

Em solo tupiniquim, Ortega conseguiu uma bolsa de estudos em uma academia de dança, o que mostra sua ligação com as artes e a admiração ao conhecer o carnaval. “Vimos o desfile que teve em Sorocaba. Foi pequeno, mas muito legal.” Não há celebração equivalente em Chihuahua, no México, de onde ele vem. “Foi cheio de cores e os figurinos aparentam ser muito pesados; mas o mundo inteiro dançando e cantando.” Já em São Paulo, o mexicano pôde comparar a dimensão da festa. “Nunca imaginei que fosse tão grande. Os carros que passam são gigantes e as ruas são lotadas de pessoas. Amei isso, porque é um dia que todo mundo fica junto celebrando a mesma coisa e só tem cor e alegria”, aprecia.

DINAMARCA – Deixar terras nórdicas para enfrentar o calor brasileiro durante um ano foi o desafio encarado por Nadia Møller Hansen, 21 anos, que pretende começar um curso universitário neste ano. “No começo, foi muito difícil, eu sentia muita saudade da minha família e do meu namorado, mas minhas famílias hospedeiras ajudaram-me”, conta. A cultura representou um impacto desde o início. “NaDinamarca, as pessoas não são muito abertas, mas no Brasil sim, e isso me impressionou. De repente, eu me sentia parte do lugar”, anima-se. “A cultura é muito diferente, mas de um jeito bom.” Nadia considera a experiência como a melhor da sua vida e se lembra de visitar diversas
cidades do País. “Mas Sorocaba foi, sem sombra de dúvida, um dos melhores lugares
em que já estive. É grande, e eu amei. Há muitas atividades para fazer e muitos lugares para experimentar. É uma cidade com vida e alma”, elogia. Presenciando desfiles em Sorocaba e em São Paulo, Nadia afirma ter sorrido o tempo todo. “Foi incrível só de assistir, meio irreal”, comenta. “Foi muito diferente, porque na Dinamarca isso nunca aconteceria. Pessoas fantasiando-se e se juntando é incrível, e o Brasil deve sentir orgulho de ter coragem em fazer tal coisa, o que me lembra de uma palavra que uso sobre o país, ‘união’.” Nadia diz nunca ter acreditado no que via na televisão sobre a festa, mas se surpreendeu com o que encontrou. “Pessoas quase ‘peladas’ na ru foi um grande choque para mim. Mas não é algo ruim, apenas mostra as diferenças entre Dinamarca e Brasil, que eu realmente gosto.”

Há um grande carnaval no norte da Dinamarca, mas a intercambista diz não ser nada similar ao brasileiro. “Aqui, é estar com os amigos e beber. Não é para celebrar nada, é apenas um evento”, esclarece.
“Alguns se vestem feito loucos, outros não.” Quando informada de que algumas cidades brasileiras estão cancelando desfiles de carnaval por conta da crise econômica, a dinamarquesa espantou-se. “O quê? Não podem fazer isso”, exclama. “Quando alguém fala sobre o Brasil, o carnaval já vem à mente. Ele mostra a cultura e a união tão bem. É um chamariz e pessoas  de todo o mundo viajam só para ser parte disso.”

EQUADOR – O país não faz fronteira com o Brasil, mas Domenica Tamayo, 20 anos, saiu da capital Quito para conhecer o País considerado vizinho em 2013. Agora, ela é estudante de Direito, mas durante um ano aprendeu a língua portuguesa e viajou muito com as três famílias com as quais se hospedou. “Fui para o Rio, Natal, Foz, Salvador, Minas Gerais, Porto Alegre e Fortaleza”, lista. Domenica achou o carnaval bem diferente. “Fui para o Desfile das Campeãs no sambódromo de São Paulo e achei muito legal, porque ficamos a noite toda; saímos de lá às 7 da manhã”, relata. Domenica lembra-se de observar os carros alegóricos e as dançarinas. “Os carros eram gigantes e as garotas fazem a dança com o salto gigante e os vestidos muito coloridos.” A imensidão de cores foi uma das coisas que mais impactou Domenica, que pôde sentir-se contagiada. “Eles fazem a gente dançar e se divertir muito.” Outra surpresa foi a descoberta de que se leva um ano para preparar o desfile, durante uma visita ao Rio de Janeiro. “Acho isso bem diferente.” Já durante o passeio aNatal, no Rio Grande do Norte, a equatoriana esteve em  uma festa à fantasia na praia. “A gente usou decorações e roupas diferentes”, lembra. “A gente comemora sim, o Carnaval, mas não é como no Brasil, que é uma festividade importante”, observa. “No Equador é feriado, mas principalmente nos povoados pequenos; a gente tem o costume de jogar ovos, farinha e água”, explica. “É muito engraçado, mas não sei por que a gente faz isso”, brinca.

Paula Navas, 21 anos, estudante de Marketing, também é equatoriana, mas de Ambato. A escolha pelo Brasil veio através da prima, que visitara o País e lhe falou muito bem da comida, costumes, pessoas e lugares. “Gostei muito de Sorocaba, porque minha cidade tem a metade da população”, menciona. “Foi a melhor coisa que fiz.” Em visita a São Paulo, achou o desfile das escolas de samba longo, mas considera toda a celebração importante para a cultura brasileira. “O carnaval é uma identificação e, por isso, muitos estrangeiros gostam de ir para lá e dançar Interessado em dança, Daniel Estrada Ortega, 20 anos, aproveitou a música direto do desfile Domenica Tamayo, 20 anos, conheceu oito Estados brasileiros antes de chegar à avenida.

ESTADOS UNIDOS – O americano Dylan Speicher, 20 anos, deixou Hershey, na Pennsylvania, e demorou para se acostumar com Sorocaba. “Achei muito barulhenta, muito trânsito, muito corrida e é grande”, descreve. Com a amizade dos brasileiros, adaptouse à nova moradia e enfrentou a dificuldade de aprender o Português. “Foi frustrante, mas a dificuldade pode te fazer melhor e vale a pena.”
Speicher é muito grato a todos os brasileiros que o receberam e diz partilhar uma profunda conexão com o País. “É algo que eu nunca vi antes. Aproveitei tudo. E faria de novo, talvez em outra cidade do Brasil.”
Agora estudando Finanças em Washington D.C., Speicher recorda-se do Desfile dos Campeões em São Paulo. “Muita música incrível, dança e carros alegóricos fantásticos”, exclama. “Foi legal acenar para as dançarinas, porque elas acenavam de volta. As pessoas da plateia pareciam felizes, e eu estava muito feliz.” Festejar durante o carnaval foi a interpretação pessoal do estudante, mas algo ainda o incomoda. “Acho que nunca
entendi o que realmente está sendo celebrado, se a festa faz sentido”, divaga.

ALÉM DO ESTEREÓ- TIPO – A dúvida de Dylan Speicher é recorrente e questionada não apenas por estrangeiros, como também pelos próprios brasileiros. Muitos não estão familiarizados com as raízes do carnaval e as diversas representações da festa em todo o País.
Thífani Postali, mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade de Sorocaba, conta que o carnaval é reduzido ao carioca, pois é o que chega, através da televisão, para muitas pessoas. “O carnaval é antigo, iniciou-se na Grécia e ganhou o mundo por Paris.
Existe em diversos locais, mas, assim como a cultura é diversa, cada povo traduziu a festa aos seus moldes”, explica. A professora reconhece a beleza da celebração carioca,
mas entende que possui fins mercadológicos. Em seus estudos, analisa que a expansão da festa às camadas sociais mais abastadas a descaracterizaram, incorporando roupas de
estilistas renomados e enredos distantes da realidade das escolas de samba. “Acaba limitando um pouco a sua expressividade como cultura popular”, lamenta.

Carnaval_Diariod e sorocaba

Entrevista – Café com Ela – 13/07/2015

Mudança em hábito de leitura afasta os livros e aproxima conteúdos online

Por Erick Rodrigues erikrodrigues@jornalipanema.com.br

Só os amantes da leitura entendem a sensação de tocar e, até mesmo, sentir o cheiro de um livro novo. Essa sensação de prazer se transforma e vai além quando as páginas de uma obra literária se abrem diante dos olhos, transportando o leitor para um universo novo de informação, cultura e infinitas possibilidades. Todos esses sentimentos associados à leitura têm se tornado, no entanto, distantes de muitos brasileiros, que substituíram o livro por conteúdos que estão a um clique de distância.

Assim como diversos outros aspectos do mundo em que vivemos foram afetados pelas facilidades apresentadas pela internet e outras tecnologias, o hábito de leitura da população também sofre uma mudança nos dias atuais. Com uma infinidade de informação à mão na web, muitos acabaram deixando os livros de lado e focaram apenas no conteúdo online, que nem sempre é apresentado de forma completa.

Para a mestre em Educação e coordenadora do curso de Pedagogia da Universidade de Sorocaba (Uniso), Denise Lemos Gomes, o fenômeno é justificado por uma mudança comportamental, que interfere diretamente no hábito de leitura do brasileiro. “A leitura não está entre as atividades que as pessoas mais gostam e procuram para fazer no tempo livre. Experimenta-se, hoje, uma crescente modificação de ideologias políticas e existenciais, além de uma cultura de competição e individualismo extremado, que torna as pessoas mais egocêntricas e ávidas por informação e novidades a todo o tempo. A internet facilita isso”, afirma.

Ainda segundo Denise, mesmo ganhando cada vez mais espaço, a internet precisa ser utilizada de forma moderada. “O uso precisa ser racional e comedido, para que não se utilize a web como única fonte de informação, relegando os livros e, com eles o hábito da leitura, a um segundo plano, pois isso pode prejudicar a formação integral do indivíduo”, comenta.

A mestre em Educação frisa os efeitos que a influência apenas de informações vindas da internet pode trazer. “As pessoas se tornam, dia após dia, reféns e prisioneiras de seus aparelhos eletrônicos, utilizando-os como único instrumento para coleta de informação e leitura. No entanto, há necessidade de se acautelar quanto a qualidade do que está disponível no mundo virtual, pois há textos com erros de conteúdo e escrita. São, também, redigidos de forma imediatista, acrítica e sem aprofundamento, o que pode prejudicar a construção do conhecimento”, pontua.


Modernidade aliada à leitura
 
As vantagens da leitura também são evidentes para Thifani Postali, mestre em Comunicação e Cultura da Uniso. “A falta de leitura e de busca de compreensão pode fazer com que a pessoa se torne passivo diante de diversos assuntos apresentados pelos meios de Comunicação. Aquele que tem o hábito de ler livros e outras fontes de informação consegue se posicionar de forma mais concreta perante os temas”, afirma.
 
Thifani, no entanto, defende o papel da internet como aliada da leitura, e não inimiga. “O uso da internet como fonte de pesquisa é bastante polêmico. Muitas vezes, o usuário desconhece que a web oferece ferramentas que nos levam a fontes tão confiáveis quanto os livros, quando não oferecem acesso aos próprios. Não vejo problema em buscar informações pela internet, desde que saiba como fazer”, diz.
 
A facilidade ao acesso de informações é outro ponto destacado pela mestre em Comunicação e Cultura. “Por curiosidade, questionei alunos se eles abriam o jornal físico com frequência e eles disseram que não. Então, perguntei se liam matérias jornalísticas com freqüência e disseram que sim. Talvez isso aponte que a tecnologia tem seu grande valor, como as redes sociais, que também possibilitam acesso direto aos jornais e revistas que levam informação ao público, ao contrário do que acontecia antes, quando o público é que tinha que buscar as informações”. Para Thifani, a internet e o livro não são inimigos declarados. “A tecnologia é uma aliada. O que nos falta é o hábito ou, até mesmo, o conhecimento sobre a melhor forma de utilizá-la”, destaca. 
O diretor da Biblioteca Municipal “Jorge Guilherme Senger”, André Mascarenhas, também concorda que a internet pode vir a ser uma aliada, mesmo reconhecendo que a mesma pode trazer alguns malefícios para quem usa. “Por um lado, a internet é muito importante, pois expande o acesso a conteúdos e isso é legal. Mas, por outro lado, acaba abrindo um leque tão grande de informações que as pessoas acabam ficando desfocadas. Muitos, também, acabam procurando conteúdo em sites de busca e de relacionamento, que, às vezes, não são tão confiáveis”.
Mascarenhas também acredita que na tecnologia como uma aliada da leitura. “Em um país como o nosso, acredito que a tendência em relação à leitura pode melhorar, com fontes como a internet dando acesso a diferentes materiais de informação e cultura, inclusive literatura. Pode haver um estímulo nesse sentido, com a pessoa procurando a internet mas, também, o livro”, declara o diretor da biblioteca.
Sem tempo para ler
O ritmo acelerado do dia a dia também tem feito com que muitas pessoas se afastem da leitura. É comum ouvirmos alguém dizer que “não tem tempo para os livros”. “Vive-se, nos dias atuais, a escravização do tempo e da rotina, que obriga a população à execução de tarefas múltiplas em curto espaço cronológico, o que pode acarretar no afastamento das práticas de leitura e menor grau de concentração para tal tarefa, o que é lamentável”, afirma  Denise Lemos Gomes, a coordenadora do curso de Pedagogia da Uniso.
A má administração das horas do dia é um ponto destacado pelo diretor da Biblioteca Municipal para a “falta de tempo” para a leitura. “A principal queixa, hoje, é que não há tempo para ler. Porém, muitas vezes, a pessoa fica três horas em uma rede social, por exemplo. Na verdade, não há o hábito da leitura, que deve surgir desde cedo”, explica.
Já para a mestre em Comunicação e Cultura Thifani Postali, as tecnologias vieram para contribuir com a atual vida acelerada da população. “Talvez, a leitura de romances tenha diminuído, mas creio que a leitura de notícias e matérias variadas tenha aumentado com a internet, pela facilidade de as pessoas poderem acompanhar ou buscar algo ali, em suas mãos, por meio de celulares e tablets. A tecnologia possibilitou que pudéssemos ter acesso às informações em uma velocidade semelhante à vida acelerada”.
Mudando de plataforma
Algumas pessoas, que não dispensam um bom livro, se deixaram influenciar pela tecnologia e, até para facilitar o dia a dia, mudaram apenas a plataforma de leitura. A jornalista Aguilaia Lopes continua aproveitando os prazeres da leitura, mas a praticidade fez com que ela trocasse o livro físico pelos e-books, também conhecidos como livros digitais.
“Ainda compro livros, mas em menor quantidade. Agora geralmente baixo da internet, até pela questão dos preços, que considero muito elevados no Brasil. Então, aqueles que são mais fáceis de achar ou que vejo que não tenho tanto desejo de querer guardar, eu baixo”, conta a jornalista.
Utilizando o celular para ler os e-books no dia a dia, Aguilaia pontua outras facilidades que os livros digitais podem proporcionar. “Como eu pego ônibus, fica mais fácil de guardar na bolsa, até mesmo pela questão do peso. Em dias de chuva, por exemplo, fica mais fácil de conservar. No celular, consigo ler com mais facilidade do que carregar um livro, que eu fico com a sensação que ocupa espaço na bolsa e pode virar motivo de preocupação se a chuva chegar”, destaca.
Para Thifani, as novas forma de leitura podem ser vistas como facilitadoras. “Uma pessoa não precisa mais carregar o peso de um livro, mas ele pode acompanhá-la a toda hora, por meio dos dispositivos móveis. Claro que algumas pessoas preferem ler livros físicos, no entanto, os e-books oferecem acesso a títulos, inclusive para a nova geração. Portanto, creio que estimula os hábitos de leitura”, opina.
Denise, no entanto, chama atenção para o fato de que a prática ainda não se mostrou influente para o aumento de leitores. “Os e-books foram apresentados, há tempos, como sucessores dos livros impressos. Mas, uma pesquisa da Associação Pró-Livro sobre os hábitos de leitura mostrou que a maioria dos entrevistados, por volta de 82%, nunca leu pelo computador, o que leva a concluir que os mesmos ainda não proporcionaram a tão esperada disseminação da leitura”, diz.
O diretor da Biblioteca Municipal também analisa a influência das novas plataformas de leitura. “O digital é só um meio, mas o importante é o conteúdo. O livro de papel nunca vai acabar. É claro que é muito mais prático ler no celular, inclusive é mais fácil para ter mil livros no celular do que na bolsa. Porém, acho que quem tem o hábito de ler livros, vai continuar tendo”, frisa.
Criando o hábito
Seja no papel ou no celular, o hábito da leitura deve ser estimulado desde cedo nas crianças. “O resgate do hábito de leitura pode ser iniciado pela família, que precisa ler para os filhos, tendo em vista que os pais exercem grande influência na formação do futuro leitor. É fundamental valorizar a leitura e aflorar a imaginação das crianças. A escola também é o centro de formação de leitores, com o professor como instigador desse hábito”, afirma Denise Lemos.
Segundo Mascarenhas, além da família, os professores também ganharam destaque nesse papel de incentivadores dos livros. A transformação do papel da biblioteca, para ele, também pode ser visto como um estímulo para as novas gerações e uma parceria para as escolas. “Recebemos, hoje, cerca de 180 crianças de escolas municipais por semana. Pensamos a biblioteca como um local de convívio social, onde são realizados eventos, contações de histórias e exposições literárias, além de outros projetos, o que acaba atraindo o público, com foco na criança e no adolescente, que acaba vindo com a escola e, depois, até trazendo os pais”.
Denise finaliza reforçando as vantagens que a leitura pode trazer para o conhecimento e nas reflexões de uma pessoa, o que reafirma a importância do estímulo aos hábitos de leitura. Para isso, Denise cita o escritor peruano Mario Vargas Llosa, que disse que “um público comprometido com a leitura é crítico, rebelde, inquieto, pouco manipulável e não crê em lemas que alguns fazem passar por ideias.
Link da matéria: http://www.jornalipanema.com.br/noticias/jornal-ipanema/57246-mudanca-em-habito-de-leitura-afasta-os-livros-e-aproxima-conteudos-online
.

Entrevista para a Revista Bianchini

Na íntegra:

Entrevista sobre Funk Ostentação
Por: Vanessa Olivier
Revista Bianchini, novembro de 2014.

 B- O que o chamado funk ostentação representa para a sociedade de hoje?

T.P – É complicado dizer o que ele representa para a sociedade,  mas podemos arriscar dizer alguns pontos: Quando o funk deixa de falar sobre festas dos jovens das favelas e passa a falar de eventos das classes mais abastadas, ele passa a se comunicar com outros grupos sociais. A mídia, que, especialmente hoje, se apropria daquilo que é consumido e incentivado pelas pessoas na internet, passa a veicular essa manifestação cultural, claro, com os seus “toques” – A Anitta já não é a mesma que dançava “quadradinho de 8” em vídeos disponibilizados em redes sociais.  Portanto, é complicado falar sobre o que ele representa para a sociedade, pois depende de grupos e classes sociais. Para os jovens mais ricos (que estão consumindo o Funk), a visão do produto pode ser  diferente, levado mais para o lado da brincadeira. Para os jovens da periferia, ele pode estar distante de sua suas realidades, podendo até sofrer a desaprovação dos mesmos.

B- O que será que fortaleceu tanto essa nova modalidade de funk?
TP. –  A mudança do tema. Quando ele falou por mais de 20 anos apenas sobre os assuntos dos jovens da periferia, ele era pouco visível e marginalizado pelo resto da sociedade e pela mídia. Quando ele passa a falar de assuntos que jovens e grupos de outras classes e grupos sociais reconhecem, ele passa a ser consumido, pois cria uma comunicação, já que trata de assuntos afins entre eles.

B – Muitas críticas foram levantadas por intelectuais sobre o funk ostentação. Uma delas aponta o incentivo ao consumo desenfreado, o que pode levar muitos jovens da periferia ao mundo do crime. Você concorda com essa afirmação?
TP. – O consumo desenfreado é uma realidade de muito tempo. A lógica da indústria em parceria com as estratégias de marketing talvez sejam as maiores causadoras desse crime de “roubo de um tênis Nike”, por exemplo, que acontece desde que a publicidade passou a tratar os produtos como propiciadores de outros atributos como status, sensualidade e poder. Creio que o Funk Ostentação seja fruto dessa lógica, um reflexo de algo bem maior. Tanto que esse funk parece não ser tão consumido nas periferias como as outras modalidades, inclusive o de resistência que faz crítica a sociedade assim como o Hip Hop, mas que é desconhecido pela maioria da população.

B – Mesmo sendo melhor assimilado do que os outros funks (porno, proibidão etc), você acredita que o funk ostentação ainda não conseguiu se livrar de preconceitos?
TP.- Não e, talvez, nunca consiga. Mas seus idealizadores conseguem a aprovação da sociedade quando dão outro tratamento, o que deixa de ser “Ostentação”. Recentemente vimos a apropriação do funk pela indústria cultural. Na Copa do Mundo, por exemplo, uma das músicas mais tocadas foi “País do Futebol” de MC Guimê (que curiosamente, disse em entrevista que nem gosta do esporte), e que se tornou tema de abertura da novela global Geração Brasil. Do mesmo modo, a Anitta com o “Show das Poderosas” que agradou desde crianças à idosos. Mas daí o funk se torna outro produto, manipulado pela indústria para que se torne rentável. MC Guimê e Anitta, por exemplo, em seus shows cantam várias outras modalidades do funk  que não podem estar em evidência na mídia.

B- Por quanto tempo será que esse gênero de funk irá durar?
TP. Creio que o sucesso seja passageiro, como em outras produções já foram. É difícil prever.

B – O produtor cultural Renato Barreiros, diretor do documentário Funk Ostentação, disse que a modalidade está em crise, que está perdendo o público que o consagrou, pois passaram a falar muito de artigos de luxo AAA, que estão cada vez mais caros e distantes do poder de consumo da nova classe C. Você concorda?

TP. – Sim, como disse antes. Ele muda o seu perfil para atrair outros públicos, de modo que se distancia da realidade do grupo que o idealizou. Isso já aconteceu com outras produções. O Jazz nos EUA, por exemplo, quando passa a criar sons para agradar os brancos, por volta de 1920, passa a ser visto de forma negativa por muitos negros, que viam na produção algo próprio de sua identidade, no país tão segregado.

B- A revista Vogue (classe AAA), de março, trouxe a musa do funk Valesca Popozuda como destaque, com o seguinte título: Valesca Popozuda sai do gueto e vai para as páginas da Vogue Brasil. Será uma tentativa de introduzir o funk ostentação (que canta o luxo) na classe A?

TP. – Creio que não seja uma tentativa de introdução, mas sim de apropriação. Ela esteve em evidência nos veículos, nas redes sociais e, inclusive, em discussões acadêmicas. Assim, penso que está muito mais atrelado ao aproveitamento do “diferente” , do curioso, que do funk em si.

Matéria:

.Bianchini Funk 2014

Entrevista – Ipa TV.

Kiko Pagliato entrevista Thífani Postali.

.

Entrevista – Jorna Bom Dia sorocaba

Bom Dia

Professores da Uniso lançam livro sobre comunicação

Notícia publicada na edição de 14/03/14 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 005 do caderno C – o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

Por Maíra Fernandes  maira.fernandes@jcruzeiro.com.br

Temas da contemporaneidade como o uso das redes sociais, o trânsito nas cidades, a arte urbana, entre outros que fazem parte da vida cotidiana das pessoas, constam no livro Cidade e comunicação: a miopia sobre o mundo e outros textos, que os professores da Universidade de Sorocaba (Uniso), Thífani Postali e Paulo Celso da Silva lançam amanhã, no Chalé Francês. A entrada é gratuita.

O livro, que sai pela Paco Editorial, é um compilado de textos que foram publicados no jornal Cruzeiro do Sul, mesclados a uma produção inédita dos professores, e trazem a cidade e a comunicação como proposta central do debate que abre várias frentes de discussões: No trânsito somos todos estrangeiros; Manifesto para manifestar-se e A força do capital erótico; por exemplo, são alguns dos títulos de autoria de Paulo Celso da Silva no livro. Já O facebook e os muros das grandes cidades; Além das campanhas da Coca-Cola e O hip hop mudou a minha vida, foram os textos produzidos por Thífani e constam nessa seleção que conta com mais de 30 títulos.

O nome do livro foi inspirado em um dos artigos produzidos em conjunto, A miopia sobre o mundo e do outro, uma metáfora sobre a impossibilidade de se enxergar a realidade com clareza, diante de tantas informações. “Daí a proposta de lançar uma nova visão sobre o mundo, em especial, sobre os assuntos que permeiam a vida em sociedade”, defende Thífani. Mestre em comunicação e cultura, é ela também quem explica a naturalidade da opção em lançarem uma obra juntos, já que sua produção de artigos sempre esteve vinculada ao Paulo Celso, doutor em geografia humana e que foi seu professor na graduação e orientador no mestrado. “Desde essa época (2009), peço orientações, opiniões e debato os assuntos com ele. A obra materializa essa produção em conjunto, pois parte dos artigos possuem o olhar de ambos”, conta. Além da academia, os professores também têm em comum o gosto pela música e, no lançamento de logo mais, o público poderá conferir uma performance musical dos dois também.

Leve mas intenso

“A ideia é fazer com que as reflexões saiam do círculo acadêmico e alcancem outros públicos. O retorno é gratificante, pois recebo comentários e ampliações das reflexões por e-mail, redes sociais e até publicações em blogs diversos, de pessoas que leram e se identificaram com o conteúdo”, fala Thífani, sobre a experiência com a produção de textos menos acadêmicos, mas não menos questionadores, e escritos de forma sucinta, bem menores e mais objetivos do que as costumeiras produções acadêmicas.

“O texto mais conciso é também mais dinâmico, rápido. Faz com que a ideias sejam recebidas com uma velocidade diferente pelo leitor. E ele responde nessa velocidade também, usando o site do jornal, os e-mails que constam nas matérias. Diferente de um livro que primeiro passa pela editora”, defende também Paulo Celso.

Sobre essa questão, a também professora da Uniso, Míriam Cris Carlos que é quem assina o prefácio da obra, reforça que os textos até podem parecer leves, mas são reflexos de pesquisas de fôlego de ambos. “Paulo Celso da Silva e Thífani Postali, neste livro, materializam aquilo que considero como papel fundamental da academia, a construção colaborativa do conhecimento, da crítica, de olhares múltiplos sobre o universo que nos cerca e, especialmente, sobre as realidades que nos chegam, recortadas pelas mídias. Eles nos fazem lembrar que os meios de comunicação oferecem realidades parciais, signos e aspectos de culturas multifacetadas, por nós assimilados e reproduzidos sem que compreendamos devidamente”, defende Míriam sobre o trabalho dos professores que responderam às questões do jornal Cruzeiro do Sul que seguem abaixo:

Entrevista

Paulo Celso, de acordo com seus textos sobre as cidades, gostaria de saber qual seu olhar sobre Sorocaba, e a importância de incitar no outro esse olhar?

Paulo Celso: A cidade é um grande texto para ser lido e relido no cotidiano. Toda alteração, por pequena que seja, altera tal leitura. Sorocaba tem características bastante interessantes para observar, estudar e socializar ideias. Sempre que ouço alguém falar : “quando chegarmos a um milhão de habitantes…” , fico imaginando que dificuldades toda essa gente terá para viver e conviver nos espaços da cidade. Precisamos desenvolvimento, em todos os níveis, e não crescimento. Se na Alemanha diziam, na idade média, que “o ar da cidade liberta”, queremos esse ar para Sorocaba. Mas isso é uma construção diária de todos nós.

Thífani, suas pesquisas são retratadas no livro como uma tentativa de leitura da contemporaneidade. Qual sua leitura desse momento, principalmente da comunicação que vem das periferias da cidade, sob a forma de música, grafite e manifestações a partir das redes sociais?

Thífani Postali: A vida em sociedade apresenta discursos diversos entre os grupos considerados dominantes e dominados. Os discursos dominantes ocupam os principais veículos de comunicação, definindo aquilo que deve ou não ser dito. Logo as nossas referências sobre o que é certo ou errado, bonito ou feio, o que vale e o que não vale, vem de um conjunto ideológico pré-estabelecido, não restando meios para que discursos diferentes ocupem o mesmo canal. Desta forma, os grupos dominados procuram outras formas de comunicar seus anseios, suas ideias e vontades, e é por meio das manifestações culturais que conseguimos obter acesso a essas informações, seja num discurso de rap, num grafite, frases pichadas e até a marcação de nomes e símbolos que tem como função marcar o território urbano e mostrar ser parte desse universo. Essas manifestações, principalmente as que apresentam discursos críticos-sociais, têm sua importância em estabelecer outro olhar sobre a vida em sociedade, de modo que dão “voz” aos grupos excluídos.

Qual o papel da mídia nessa leitura contemporânea do mundo? Como ser crítico mediante tantas informações ?

Paulo Celso: A informação é uma ferramenta muito importante para viver a urbanidade. Porém, é necessário que os que habitam essa urbe tenham seus próprios filtros, que sejam capazes de transformar tais informações em conhecimentos e ações, caso contrário é ruído e não traz benefícios. A crítica vem do constante exercício da reflexão, de propor perguntas para a realidade imediata, de buscar comparações entre o existente e o imaginado.

Serviço

O lançamento acontece amanhã, das 17h às 21h, no Chalé Francês, localizado na Praça Maylasky, Centro, em frente à Estação Ferroviária. A entrada é gratuita. A obra pode ser encontrada nos sites da Livrarias Cultura, Saraiva, além da Paco Editorial, com média de preço a R$ 38.

Imagem

Programa Ipa Brasil – 27-02-2014

Produção: Thífani Postali
Apresentação: Renata Moeckel

Veiculado na rádio Ipanema 91,1 – Sorocaba-Votorantim, aos domingos, das 9h às 10h,
o programa apresenta músicas e comentários a partir dos olhares da comunicação e cultura.

.

Entrevista para o programa Uniso Comunidade

A fim de complementar o aprendizado dos estudantes, alguns professores da Universidade de Sorocaba (Uniso) buscam reunir seus conhecimentos e transformar em livros. Foi assim com os convidados do programa Uniso Comunidade desta semana: o professor de Matemática e autor da obra “Estatística Geral e Aplicada”, Sérgio Rocha; e os professores Thífani Postali e Paulo Celso da Silva, que assinam o livro “A miopia sobre o mundo e outros textos”.
Fotos: Rafael EisingerVer
TVCOM, canal 7 da NET: de seg a sex, às 21h;
TV Votorantim, canal10: ter, às 11h e sex, às 16:30;
Rádio Cantate FM 104,5: sáb, às 18:30, dom, às 17h
TV COM

Entrevista para Ipa TV

Janeiro 2014.

.

Entrevista e participação no programa Ipa Brasil – rádio

Janeiro 2014
O Ipa Brasil é um programa da rádio Ipanema Fm, da cidade de Votorantim/Sorocaca, conduzido por Renata Moeckel.
Entre o bate papo, algumas músicas foram selecionadas para tocar, incluindo o motivo das escolhas.
Tempo de duração: 1h

Músicas escolhidas:
1. Jack Soul Brasileiro – Lenine
2. Súplica Cearese – 1960 Gordurinha – Regravação de Luiz Gonzaga e O Rappa
3. Vivo num morro – Pato Fú- 1998
4. Televisão – Titãs- 1985
5. Admirável Chip Novo – Pitty – 2003
6. Pra sonhar – Marcelo Jeneci.

.

Contribuição para a revista Bianchinni: Consciência Negra

Contribuição para a revista Bianchinni, novembro de 2013.
Na matéria de SAMI MAZARIN, sobre Consciência Negra, falei sobre a importância de duas mulheres para a história.

Textos
1. Harriet A. Jacobs

Biachinni Consciencia negraÓrfã de mãe aos seis anos, Harriet A. Jacobs (1813-1897) foi uma das únicas escravas de sua época a aprender a ler e escrever. Nascida na Carolina do Norte, no sul dos Estados Unidos, ela é responsável por um marco na produção histórica sobre o período escravagista, o livro

Incidentes na vida de uma escrava, publicado em 1861, sob o pseudônimo de Linda Brent.
Segundo a professora universitária e mestre em Comunicação e Cultura Thífani Postali, “sabemos da história, mas não temos acesso a relatos próprios que mostrem os anseios e a luta desse povo”. Escritora, ativista abolicionista e escrava fugitiva, Harriet chegou a ser ameaçada de ter seus filhos vendidos, caso não cedesse aos abusos sexuais de um de seus donos. São conflitos como este, comuns às escravas na época, que são abordados no livro. “Talvez Harriet seja um dos nomes mais importantes a serem lembrados pela consciência negra, pois produziu uma fonte valiosa sobre o período em que viveu, explicando situações que a maioria dos livros escolares e demais produções não apresentam”, defende Thífani.

2. Bessie Smith

Em um momento da história norte-americana em que as mulheres negras se encontravam no nível mais baixo da escala social, a cantora Bessie Smith, a Imperatriz do Blues, “apresentava uma personalidade forte, encarando a aceitabilidade social como um desafio”, lembra Thífani Postali, que também é pesquisadora da história do blues.

“Ela foi exceção. Cantava ao lado de grandes nomes, como Louis Armstrong, além de administrar a sua carreira, o que para a época era algo totalmente inusitado”, afirma. Bessie se tornou a cantora de blues mais famosa das décadas de 20 e 30.
Reconhecida pelo Grammy Awards e Rock and Roll Hall of Fame, a cantora é considerada um exemplo de perseverança e luta social até o momento de sua morte, de acordo com a pesquisadora. Após um grave acidente de carro, Bessie teria morrido “porque a ela foi negado o tratamento médico imediato por causa de sua cor, já que a ambulância a levou para um ‘hospital de brancos’”.

“Problemas, problemas, tenho em todos os meus dias. Parece que problemas me seguirão até o túmulo”
Bessie Smith na canção Downhearted Blues

Arquivo na íntegra: Arquivo consciencianegra Bianchinni 2013_

Site da revista: http://www.revistabianchini.com.br/
.

Café com Thífani Postali

Café com Thífani PostaliPor Renata Moeckel
06 de julho 2013.

Esta semana tivemos o prazer de um café com Thífani Postali, a quem  conheci há alguns anos, quando ainda muito garota, mas já esbanjando talento com seu violão e sua voz ultra-afinada. Quando a reencontrei e perguntei por qual razão não a via mais se apresentando ela respondeu:  “Agora é tempo de dedicação total aos estudos”. Achei bacana essa postura tão responsável e atualmente entendo que os resultados não poderiam ter sido melhores ou mais produtivos. Thífani formou-se em Comunicação Social, fez pós-graduação em Marketing e mestrado em Comunicação e Cultura. E não pára por aí… É professora universitária, escritora, autora do livro “Blues e Hip Hop – Uma perspectiva folkcomunicacional”, resultado de sua dissertação no mestrado e tem – projeto em andamento – para breve, o  lançamento de mais um livro: Desta vez uma coletânea dos artigos que escreve para jornal, projeto em parceria com Paulo Celso, coordenador de mestrado na Universidade de Sorocaba.  Thífani fala da felicidade de ter unido duas de suas paixões: música e cultura. “Em criança ganhei um violão e com 14 anos ja tocava em bandas, nas apresentações e gincanas de escola. Optei por fazer faculdade aqui mesmo em Sorocaba para poder continuar tocando. Foi por época da pós e do mestrado que dei uma parada para me dedicar somente aos estudos. Para o livro foram tres anos estudando o blues…” , comentou.  Thífani nos contou também que sua rotina de trabalho se adapta de acordo, primeiramente, com  sua agenda de aulas nas universidades em que atua e, em seguida, vem as outras atividades profissionais, como a Agência NT2, que dirige ao lado de Noriaki Yamazaki Junior. Nas horas livres violão, filmes e cozinhar (mais este talento!). Seus planos para o futuro próximo são seguir estudando para um doutorado e produzindo artigos e livros. Posso dizer à vocês que junto a esse jeito doce de menina, existe uma mulher inteligentíssima, sensível e cuja competência dispensa comentários. Quando perguntamos à ela qual o fator preponderante para o sucesso ela diz:  “Calma. É preciso ter  calma para se fazer (e bem) cada coisa a seu tempo”. Pois é, quem a conhece sabe o talento que é essa moça… Parabéns, Thífani! E continue brilhando.

Link: http://www.jornalipanema.com.br/colunas/renata-moeckel/5863-cafe-com-thifani-postali

No impresso:

Entrevista Ipanema

 .

Olha o que dizem os muros

Notícia publicada na edição de 01/07/2012 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 003 do caderno C – o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

Olha o que dizem os muros

Professora da Uniso, Thífani Postali, faz uma breve leitura das pichações e grafites da cidade; destaque fica por conta dos trabalhos de Will Ferreira

Por: Andrea Alves andrea.alves@jcruzeiro.com.br

Ao chegar em Montevideo, no Uruguai, a professora Thífani Postali – professora da Uniso e autora do livro “Blues e Hip Hop – Uma perspectiva folkcomunicacional”, da Paco Editorial – constatou o quanto os protestos pichados nos muros da cidade mudam o cenário urbano. “Independente de ser considerado um ato delinquente e, em algumas sociedades, passível de punição rigorosa; independente da opinião pública acerca da poluição visual da cidade e do problema causado aos proprietários dos muros aproveitados, não se pode deixar de considerar que essas impressões são práticas culturais corriqueiras dos centros urbanos e eficazes quando procuram revelar resistência social, ainda mais aquelas que pretendem citar os principais problemas que afligem as grandes cidades”, observa a professora. Esse tipo de manifestação é alvo de uma nova pesquisa que a comunicóloga pretende fazer em Sorocaba, onde os protestos começam a surgir na mídia urbana, ou melhor, nos muros, mas em forma de grafite.

Os protestos já fazem parte da cultura de países como Uruguai e Argentina. “Se você for hoje à Casa Rosada, em Buenos Aires, vai se deparar com algum tipo de protesto”, comentou Thífani. Surpresa ela ficou ao ver, em Montevideo, o modo como as pessoas se utilizam da pichação para dar voz ao que pensam sobre questões trabalhistas, educação e união entre pessoas do mesmo sexo. “Eles utilizam uma técnica que é chamada de bombing.” O bombing, impressões/pichações a partir de moldes, surgiu nos Estados Unidos, na década de 1960. “Jovens da Filadélfia começaram a utilizar os vagões de metrô para que seus registros percorressem vários locais. Quanto mais traços houvesse pelas cidades, mais respeitado era o pichador. Essa prática alcançou diversos países que carregam, em seus muros e vagões de trem ou metrô, inscrições de pichadores locais.”

Em Montevideo, observou Thífani, o bombing tem uma finalidade marcante, mais que a de definir territórios ocupados por determinadas gangues ou tribos urbanas: a de divulgar conceitos e eventos. “É uma técnica prática e rápida de pichação quando se quer veicular uma mensagem e que provavelmente é feita por classe de trabalhadores. O que chama a atenção é que as opiniões transmitidas com desenhos simples ou frases são expressivas não apenas de um grupo social específico, mas de variados grupos que buscam por meio das impressões urbanas, resistir e lutar contra os padrões e regras impostos pelo sistema local.” Segundo Thífani, os símbolos são como mensagens rápidas quando se pode substituir frases. “No entanto, algumas informações exigem frases como é o caso de “La educación no se vende” marcadas em diferentes espaços de Montevideo.” Em diferentes partes do mundo observa-se manifestações como essas. Em Nova Iorque, por exemplo, pinturas e pichações são feitas em grandes carros de transporte, como vãns. “Perguntei ao taxista se aquilo era comum em toda a cidade e ele disse que nunca tinha notado. Para mim foi muito impactante. É o que tem acontecido aqui com o grafite”, conta.

Em Sorocaba

Por influência da capital paulista, as pichações em Sorocaba se caracterizam pela marcação territorial de grupos. Thífani conta que são como as letras retas, muito presentes em São Paulo, onde surgiram na década de 80, pouco tempo depois do período da ditadura. “É comum que após um acontecimento marcante outro movimento surja. Algumas dessas letras, vistas em São Paulo e em Sorocaba, são ilegíveis e o propósito é esse, que somente os grupos as entendam”, explica Thífani. As pesquisas de Thífani acontecem nas regiões centrais da cidade, ponto para onde convergem diferentes grupos e onde são demarcadas as ideias que se pretendem divulgar. “Se há protestos é no centro que devem estar.” Interessante, ela diz, que é durante a noite, com estabelecimentos comerciais fechados, portas abaixadas e pouco movimento de vai-e-vem de pessoas e carros, que se nota melhor a quantidade e a diversidade de pichações. Foi assim que ela se deu conta de que, mais uma vez a exemplo do que aconteceu em São Paulo, o grafite vem tomando força em Sorocaba. “Um tom de protesto começa a surgir e, se observar os trabalhos de artistas da cidade, é possível compreender parte do que eles querem dizer ou transmitir.”

Alguns artistas têm marcado presença nesse território e até ultrapassam os limites da região central, já que é um trabalho mais elaborado (e permitido por lei, precisando apenas de autorização dos proprietários/responsáveis pelos muros), como Japs e Will Ferreira, cita a pesquisadora, esse último com seu personagem mascarado que já tornou símbolo de seu trabalho. Thífani interpreta e reforça: “é o homem máquina. Entendo que fala de regressão social e hipocrisia, justamente uma das críticas mais fortes do hip hop.”

A pesquisadora chega a apostar que essa onda de protestos que começa a surgir em Sorocaba pode ser invadida ainda pelo bombing. “Já vi algo parecido numa novela, com alguém pichando um molde. Acredito que dentro de um ano ou um pouco mais isso possa ser visto em Sorocaba.”

.
.

Dia Internacional do Rock

Pesquisadora fala das intrínsecas relações entre o rock e o blues

Notícia publicada na edição de 13/07/2012 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 004 do caderno C – o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

Maira Fernandes

maira.fernandes@jcruzeiro.com.br

O rock, estilo musical mundialmente comemorado na data de hoje, tem uma intrínseca ligação com outro estilo musical estadunidense, o blues. As discussões que propõem esse entendimento e que constam no artigo “O rock saiu do lixo estadunidense”, da pesquisadora sorocabana Thífani Postali, apontam ainda que o elo histórico entre os dois gêneros passa por uma questão de preconceito racial. No artigo, baseado no capítulo “O Blues e a indústria de discos”, que compõe o livro ” Blues e Hip Hop: uma perspectiva folkcomunicacional”, de autoria da pesquisadora, subentende-se que para ser reconhecido e respeitado no seu País de origem, o blues precisou ser gravado por um branco e renomeado como rock and roll.

“O blues, como o conhecemos, surgiu no início do século 20 e era a escória musical da época. Apesar de ter uma musicalidade enriquecedora e reconhecida por qualquer apreciador da boa música, era evitado pelo país; exceto pelas gravadoras que tinham em seu faturamento uma fatia provinda dos “discos race””, conta a pesquisadora em seu livro, lembrando que, mesmo reconhecendo o potencial do produto, a musicalidade afro-estadunidense era taxada como “coisa de bandido”. Aí surge a figura do produtor Sam Philips, proprietário da Sun Records, que diferentemente da maioria das gravadoras, reconhecia o potencial do blues e, mesmo não conseguindo que o produto alcançasse aceitação do público, continuava produzindo-os. “E foi exatamente da Sun Records que surgiu o primeiro marco que daria acesso ao blues à indústria da música; não o blues propriamente dito, mas o famoso rock and roll”, reforça Thífani, chegando, enfim, a ligação entre os gêneros.

Em 1953, quando Elvis Presley procurou Sam Phillips para gravar três canções que fez para a mãe, Phillips se surpreendeu com o branco que “cantava e dançava como os negros”. “No documentário “The Road to Menphis” (2003), o bluesman Ike Tuner simplifica todo o desenrolar da história fazendo com que Sam Phillips reconheça a verdadeira identidade do gênero musical. O bluesman acusa que o empresário investiu em um rapaz branco que imitava o negro, pelo simples fato de Elvis Presley poder tocar nas rádios, gerando lucros a gravadora. Disse em meio à discussão que já estava tensa: “vocês pegaram o branco que tocava Blues e decidiram chamar isso de Rock and Roll!”. Sam Phillips concorda defendendo a sua posição cultural: “eu precisava mostrar ao mundo o quanto essa musicalidade era boa e ele foi o meio que eu arrumei para isso””, conta a pesquisadora, reproduzindo o debate do documentário.

Thífani ressalta ainda que, independente das acusações contra a originalidade do “rei do rock”, a situação não anula a sua importância para a música estadunidense. “Elvis Presley nasceu no Mississippi, estado onde surgiu o blues e formado pela maioria da população afro-estadunidense, portanto, teve contato direto com a cultura local, desenvolvendo a sua maneira de produzir música de maneira natural”, pontua.

Outro episódio importante que aponta o rock and roll intrinsecamente ligado ao blues, frisa a pesquisadora em seu livro, foi o sucesso da banda Rolling Stones nos Estados Unidos. “Os próprios bluesmen estadunidenses, dentre eles B.B. King, reconhecem a importância dos europeus na disseminação da verdadeira história musical do país. Segundo Mick Fleetwood, em entrevista para o documentário “Red, White & Blues” (2003), quando a banda inglesa foi aos Estados Unidos e falou da influência musical de Muddy Waters, percebeu que a plateia não conhecia o bluesman. Em meio aos aplausos do fervoroso público que dava – e ainda dá – valor a quase tudo o que é europeu, a banda chamou ao palco Muddy, mostrando a canção do bluesman e a sua influência no som que se tornou massificado. E essa foi a prova de que o produto que seria um dos maiores da cultura estadunidense, só não era aceito por conta da segregação social”, reforça Thífani. A pesquisadora ainda cita Eric Burdon, para quem os britânicos se apropriaram do que os Estados Unidos da América “culturalmente haviam jogado no lixo”.

“O episódio apresentado pode ter sido o principal motim, não para o surgimento do rock and roll – que já existia antes de se chamar assim, antes mesmo de Elvis Presley – mas para fazer com que a população estadunidense desse valor, adotasse parte da sua cultura. Ironicamente, o blues teve que ser trocado de nome e cantado por um branco para integrar a indústria musical, além de ter que passear na Europa para adquirir valor e reconhecimento quanto a sua verdadeira identidade”, conclui a pesquisadora.

Link da matéria: http://www.cruzeirodosul.inf.br/acessarmateria.jsf?id=402107.

Entrevista para o Jornal Cruzeiro do sul

‘O hip hop é uma atualização do blues’

Thífani Postali lança livro hoje em que propõe uma aproximação entre os gêneros no que se refere às questões de resistência social

Por Maíra Fernandes
maira.fernandes@jcruzeiro.com.br

A paixão pela música e a leitura dos pensamentos do sociólogo espanhol, Manuel Castells, foram o estopim para que a mestre em Comunicação e Cultura, a sorocabana Thífani Postali, se aprofundasse em um estudo sobre o blues e o hip hop, mas sob a luz da única teoria de comunicação brasileira, a folkcomunicação. E o resultado dessa pesquisa – sua dissertação de mestrado pela Uniso – virou um livro,”Blues e Hip Hop, uma perspectiva folkcomunicacional”, editado pela Paco, e que será lançado hoje no Espaço Cultural “São Bento” ( Largo São bento, 144).

O evento abre com um debate sobre o documentário “Godfathers & Sons” e conta com a presença do professor orientador do trabalho e também músico, Paulo Celso da Silva, e o músico, Marcos Boi, a partir das 18h. Nos quatro anos que passou envolvida com o projeto, a pesquisadora mergulhou de cabeça nos assuntos relacionados ao tema como a questão cultural e social afro-estadunidense, a disseminação dos gêneros no Brasil e seu caráter de resistência. Também escutou muitas músicas dos gêneros. A ideia, reforça, é refletir sobre o caráter de comunicação da música, principalmente nesses dois gêneros, e falar da “arena de resistência”.

Para a pesquisadora, independente de onde for feito, o hip hop sempre será diferente de um lugar para o outro, pois comunica a realidade de cada comunidade. “Hip hop é uma atualização do blues”, sentencia, lembrando da importância do gênero como denúncia, contestação e também acalanto, para os escravos das plantações de algodão no sul dos Estados Unidos, que usavam o canto, depois definido como “blues”, para embalar as sofridas jornadas de trabalho. Confira a entrevista:

P – Como se deu a escolha do tema?

R – A escolha do tema foi a paixão pela música. Não entendo nada sobre a teoria da música, mas toco violão e canto há muitos anos. Na verdade, tudo começou quando eu estava pesquisando sobre a identidade de uma Universidade Comunitária e lendo Manuel Castells – “O poder da Identidade”, quando me deparei com uma frase que chamou a atenção. O autor dizia mais ou menos assim, que o jazz e o rap “são culturas que expressam a identidade negra norte-americana, fundada na longa tradição de racismo e opressão social”. Concordei com as colocação de Castells, mas pensei que se fôssemos levar a fundo os estudos de identidade, opressão social, o ideal seria apresentar o blues e o hip hop como as manifestações que caracterizam a luta social dos afro-estadunidenses. A história social da música afro-estadunidense apresenta que o blues era um meio de comunicação, lamentação entre o grupo social. Os próprios bluesmen não gostavam de ser identificados como tocadores de jazz, mas sim de blues. Eles alegavam que o jazz era a música do “negro para o branco”, a música do Mickey Mouse, ou seja, comercial. Tocar jazz, era para muitos, se “vender para a indústria do entretenimento”. E falando no rap, como colocou o autor, hoje o hip hop é a manifestação que marca a identidade dessas pessoas, tendo o rap como um dos seus elementos. O hip hop não apenas comunica através da musicalidade, mas também do grafite, das danças, das palestras, MCs, DJs entre outros elementos. Então, se fosse para seguir a risca, Manuel Castells deveria ter falado em blues e hip hop. Levei essas questões ao professor Dr. Paulo Celso da Silva, que foi meu orientador no programa de Mestrado em Comunicação e Cultura da Universidade de Sorocaba (Uniso) e que, por ironia do destino, é baixista e apaixonado por blues. Não tive opção de escolha (risos). Acabei incetivada a estudar minha primeira paixão: a música.

P – Por qual motivo estudar os gêneros blues e o hip hop (rap)? Você faz um vínculo entre a disseminação de ambos os gêneros no Brasil?

R – Na verdade, isso tem relação com a teoria da comunicação que aplico, a folkcomunicação, além de minha paixão pelo blues. Muitos pesquisadores utilizam as teorias de fora do país para entender as manifestações brasileiras. Eu quis fazer o inverso; apliquei a nossa única teoria da comunicação para entender “as manifestações de fora”. Essa é a minha proposta teórica. Sobre a relação com o Brasil, no livro existe um capítulo chamado “Hip Hop à brasileira”. Nele apresento o hip hop brasileiro e o processo da tradução cultural brasileira. Procuro mostrar que não se trata de cópia, mas de uma maneira de interpretar, utilizando a manifestação estadunidense e adequando as possibilidades e realidade brasileira. O hip hop será diferente em qualquer país que ele for praticado – como é -, ainda mais porque se trata de um meio de comunicação e resistência.

P – Quais os aspectos mais interessantes entre um gênero e outro que você conseguiu detectar com esse estudo?

R – É importante esclarecer que o objeto de estudo do hip hop é o rap, ou seja a música. Dentre inúmeros aspectos que aproximam as manifestações musicais, o mais interessante é a forma como a música é utilizada como meio de comunicação. No livro, criei um quadro comparativo para que o leitor perceba que, apesar de os gêneros parecerem bastante distintos, quando analisados pelo viés musical, eles têm bastante proximidade. Ambos possuem em seus discursos a crítica social e relatos do cotidiano de seus territórios como característica principal; os bluesman duelavam através dos violões, os rappers e ou Mc”s através das rimas. Da mesma forma com que hoje o rap é, em muitos casos, visto como uma manifestação ofensiva, o blues era há um século. Hoje ele é supervalorizado por todos os grupos sociais, quem sabe daqui alguns anos o hip hop também não seja? Outro fato curioso é que os bluesmem acusavam Elvis Presley de ter se apropriado da cultura afro-estadunidense para se promover, hoje, muitos rappers acusam Eminem. Na verdade e, resumindo, existe uma frase do sociólogo Nestor Canclini para explicar as mudanças sociais: “onde havia cantores, hoje, há disc-jóqueis”, portanto, o hip hop talvez faça parte das mudanças socias, sendo a atualização do grupo na forma de praticar a comunicação.

P – Quanto tempo de pesquisa, o que pesquisou e qual seu parecer sobre o resultado final?

R – Hoje estou no 4º ano, desde que iniciei a pesquisa. Li muito a respeito, encontrei referencias raras, fui a shows, visitei Nova York, ouvi muita música. Tive meus altos e baixos, duvidei do resultado e logo me animei. Trata-se de uma dissertação de mestrado, portanto, não é pode ser considerado um resultado acabado. Mas diante de todo o material levantado, é possível chegar a conclusão de que o Hip Hop é uma atualização do Blues, quando analisado do ponto de vista da comunicação e da história social que envolve a musicalidade estadunidense.

P – Em sua interpretação, qual a importância do blues – musicalmente e socialmente? O hip hop tem o mesmo grau de importância ou poderá ter?

R – Bom, a importância social é que se trata de um meio de comunicação muito eficaz. É uma arena de resistência! A oralidade em si é fantástica! E o hip hop tem o mesmo peso, pois possui essa intenção. Só para esclarecer, a essência do hip hop está no conhecimento, 5º elemento do movimento. Africa Banbaataa, seu fundador, diz que só é capaz de fazer hip hop aquele que sabe quem é, qual o seu papel na sociedade para assim disseminar ideias positivas e de conscientização para o público, diferente do que a grande maioria da população recebe a respeito do hip hop: uma música violenta e negativa- coisa da indústria do entretenimento!

Notícia publicada na edição de 04/06/2011 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 1 do caderno C – o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

Link: http://portal.cruzeirodosul.inf.br/acessarmateria.jsf?id=303512

.

Entrevista para o Cruzeiro em Revista – Cruzeiro Fm.

Maria Helena e Thífani Postali – 03/06/2011

Entrevista sobre a relação do Blues e  Hip Hop.

http://www.cruzeirofm.com.br

.