Category Archives: Textos em jornal

A representação do feminino nos jogos digitais

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, em 10 de agosto de 2018, página A2.
Por Thífani Postali, professora da Uniso

Por muitos anos, os acadêmicos discutiram a representação de gênero nas produções audiovisuais, sobretudo, a representação do feminino quando comparada à do masculino. O resultado é que temos diversos estudos, especialmente em cinema, que apontam como a mulher foi representada de maneira taxativa pelos seus produtores. Aos olhares mais atentos, dependendo da produção, é possível identificar se o olhar oferecido ao espectador é masculino ou feminino.

Algumas atitudes são claramente identificáveis: as mulheres são apresentadas com super close up, em detalhes como boca, seios e outras partes do corpo, de modo que se resulta na objetificação da mulher. Outro ponto já bastante estudado são as narrativas dialógicas: enquanto o homem é ativo, herói, a mulher é passiva e, quase sempre, sua personagem refere-se ao relacionamento com o homem, do qual é dependente.

Nos jogos digitais, essas observações se tornam ainda mais possíveis, visto que as representações são intensificadas. Neles, as mulheres são representadas de modo frágil, como personagens que não têm noção sobre a coisa. Afinal, quem vai para a luta de vestidinho vermelho curto e seios aparentes?

Desde o início dos jogos digitais, a figura da mulher é representada de dois modos: ou como as mocinhas de Hollywood que, indefesas, devem ser salvas pelo herói — uma das primeiras personagens foi a Princesa que surgiu em Donkey Kong, 1981, e se tornou a Princess Peach da série Super Mario Bros –; ou como as lutadoras de rua e guerreiras que, desde os anos 90, já se apresentavam com poucas roupas e pernas aparentes, seios e bundas avantajados, além dos movimentos sensuais e sonoridade que beiram a pornografia. Chun Li, a primeira personagem feminina de Street Figther, de 1991, luta mostrando as pernas grossas, e seus movimentos erotizados fazem com que sua calcinha apareça em quase todos os golpes. Já em Streets of Rage, lançado pela Sega em 1990, a personagem Blaze Fielding segue as mesmas características. Blaze até ganhou uma versão independente disponível na internet: Naked Blaze, em que o jogador pode jogar com a personagem totalmente nua.

Se fizermos um levantamento das principais produções realizadas desde 1990, podemos perceber que ainda são raríssimas as personagens que não se apresentam com essas características. Até mesmo aquelas que possuem melhor representação, como a Lara Croft da série Tomb Raider ou as personagens da série Resident Evel, não escapam. Recentemente, com o aumento — ou a coragem das mulheres em se assumirem jogadoras de jogos de agon — algumas produtoras têm melhorado as representações. Em The Last Of Us (2013), Elie, Marlene, Tess e Sarah estão bem mais próximas da realidade: são femininas, mas não sensualizadas ou erotizadas. Por outro lado, antigos grandes títulos, como Street Figther e Mortal Kombat, continuam apostando na objetificação. Curiosamente, a personagem mais recente de Street é a brasileira Laura, que, além de acolher todas as características já mencionadas, é tratada com posições de câmera que mostram suas aberturas de pernas e movimentos que beiram a pornografia.

Essas questões devem ser discutidas, uma vez que as representações, por mais fictícias que sejam, possuem algum impacto na percepção sobre o social. Certa vez, perguntei aos alunos de jogos digitais (meninos) se a Laura parecia com o que viam na realidade. Fui surpreendida com as respostas positivas de alguns, que alegaram que ela é como a maioria das meninas. Então os convidei a observar quantas “Lauras” encontravam no pátio da universidade.

Em suma, o mercado de jogos digitais tem crescido de forma significativa e essas questões devem ser problematizadas, uma vez que as ficções, muitas vezes, são incorporadas à realidade.

Link para o artigo: https://www.jornalcruzeiro.com.br/opiniao/artigos/a-representacao-do-feminino-nos-jogos-digitais/

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A vez das patroas: um novo olhar na música sertaneja

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, em 10 de julho de 2018, página A2.

Por Thífani Postali

Há alguns anos escrevi sobre a transformação da música sertaneja em um produto esvaziado pela indústria da música, marcado pelo chamado sertanejo universitário, cujas letras carregadas de repetições como “taim taim taim” , “che, che, che”, representavam o feminino de modo estigmatizado, numa posição submissa com relação à figura masculina, situação diferente das letras que estouraram nas décadas de 1980 e 1990, que lamentavam a traição ou o abandono da mulher cruel.

 Mesmo com as letras que colocavam a mulher em uma posição de superioridade, até pouco tempo, as produções e interpretações sertanejas eram realizadas quase que totalmente por homens, sendo que as mulheres apareciam apenas na forma de representação verbal, com raras exceções de duplas e nomes como As Galvão, As Marcianas ou, até mesmo, Fafá de Belém, que teve bastante visibilidade quando gravou a canção Nuvem de Lágrimas de Chitãozinho & Xororó.

Recentemente podemos acompanhar uma leva de mulheres que não só interpretam canções, mas que também compõem oferecendo uma nova roupagem ao gênero musical. Marília Mendonça, por exemplo, tornou-se a protagonista desse novo modo de fazer sertanejo, oferecendo narrativas que não exaltam o feminino ou o masculino, mas que os coloca de modo mais equilibrado. Cabe ressaltar que as duplas femininas das décadas passadas também ofereciam canções sobre o amor, mas na maioria das vezes, assim como as masculinas, produziam conteúdos de lamúria sobre os relacionamentos.

Ainda que o tema central seja o relacionamento amoroso – dominante em quase todos os gêneros musicais, as letras de Marília Mendonça contam histórias e situações mais suaves, alcançando um público mais genérico, fato que fez com que duplas renomadas no circuito sertanejo, como Henrique e Juliano, apadrinhassem suas composições. Nas narrativas, geralmente, as situações ocorrem no presente e, mesmo que uma ou outra aborde a traição – não tão frequente como antigamente –, a voz feminina da canção assume uma posição ativa, com mensagens que valorizam a mulher ou o relacionamento equilibrado.

E mesmo que ainda seja possível encontrar algumas narrativas  que remontam à ideia do homem traído pela mulher cruel, ou outras que colocam a mulher em situação de submissão, como no sertanejo universitário, hoje o que prevalece são as letras mais equilibradas quanto às questões de gênero, criadas por um olhar feminino mais atento.

Cabe lembrar que este artigo não pretende depreciar certas produções, e sim apontar diferentes formas de conteúdo, levando em conta que os textos culturais, de alguma forma, impactam no imaginário coletivo e podem provocar reflexões ou cristalizar estigmas sociais, neste último caso, contribuindo para a naturalização de questões que devem ser repensadas. Como a discussão é a posição feminina, passamos do olhar masculino sobre a mulher cruel que trai, para a mulher fútil, que está interessada apenas nos Camaros Amarelos, bebidas e festas oferecidas pelo homem para, agora, a mulher que tem voz, que é dona de si.

Posto assim, a música, com todo o seu arsenal comunicativo, é elemento cultural que oferece potencialidades para se pensar a sociedade e serve também como artefato para refletirmos as representações e relações sociais. Portanto, deve ser problematizada à luz das ciências. Ainda há muito que refletir sobre as relações de poder presentes nas canções sertanejas desde que o tema relacionamento amoroso tornou-se central.

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Política e religião: um relacionamento sem fé?

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, página A2, em 17 de abril de 2018.
Thífani Postali
com Isabella Reis Pichiguelli 

Nós, brasileiros, temos nos agitado mais com relação à política nos últimos anos. Ainda que pouco compreendamos os processos legais e ilegais correntes na esfera pública, uma coisa é fato: descobrimos que política nos interessa e que religião se discute, ainda mais quando presenciamos um afloramento de religiosos se embrenhando nos caminhos tortuosos da política, ao passo que vemos políticos, das figuras mais contraditórias, se alinhando aos que se dizem “homens de fé cristã”, ainda que defendam ações totalmente contrárias aos ensinamentos de Jesus Cristo.

Rubem Alves esclarece que dentro dos limites do mundo profano debatemos sobre as coisas que se nos apresentam de modo concreto e visível, ao passo que o mundo do sagrado se refere às coisas invisíveis, que estão para além dos nossos sentidos comuns, que “apenas os olhos da fé podem contemplar”. Assim, as religiões tornaram-se fundamentais para a vida humana, na medida em que buscam explicar os fenômenos e os sinais que estão para além da manipulação humana, dando-os sentidos e significados, inclusive para o cotidiano profano da vida.

No entanto, a humanidade é diversa e as trocas culturais apresentaram diferentes formas de explicar e dar sentido à existência da natureza. Ao mesmo tempo, muitos grupos culturais buscaram impor a sua crença àqueles que julgaram diferentes ou que “desviaram” do caminho. Em alguns períodos e locais, religião e política caminham de mãos dadas, impossibilitando o diálogo entre diferentes percepções pelos olhos da fé — ou não. A Idade Média nos apresentou um período de julgamentos e eliminação do diferente, ao passo que o Oriente Médio ainda hoje nos mostra o desastre resultante da fusão entre o poder do Estado e o poder da religião.

Ocorre que, no Brasil, falamos de mundos sagrados. Por sua história e miscigenação, a cultura brasileira integra crenças das mais variadas, incluindo as híbridas, que emergiram no país com a vinda de africanos, europeus e outros povos. Por esse motivo, a nossa Constituição decreta o Brasil um país laico, mas essa ideia está apenas nos documentos oficiais, não se traduz no cotidiano, sobretudo, nas atitudes daqueles que riscam e rasgam papéis.

Como falamos no início, estamos num momento em que homens que se dizem religiosos buscam alcançar a vida política, o que tem crescido nos últimos anos. O grande problema dessa relação é que, muitas vezes, a religião não passa de um escudo para a prática de atos que só dizem respeito a seus próprios interesses. Para falar do cristianismo, evidenciado por muitos desses políticos: que fé cristã é essa que não olha para o próximo, não se importa com o que o outro diz, não se revolta contra as injustiças sociais e, pior, por diversas vezes corrobora com as injustiças? Ainda que existam, infelizmente são poucas as figuras públicas que podem dar bons exemplos de como a fé cristã pode motivar uma prática política em prol do bem de todos e da justiça social.

Em nome da religião, muitos tomam decisões à luz do próprio umbigo. Inquestionavelmente, dessa maneira se torna falsa a religião. No entanto, exposta às mídias, pode ser conhecida por muitos como legítima. E o perigo das religiões falsas, tomadas como legítimas, é justamente que chamam para si um poder exterior que se baseia no exclusivismo e na destruição do diferente. O Estado laico e a convivência entre as religiosidades, já frágeis no Brasil, ficam ainda mais ameaçados. A todos nós, religiosos ou não, é hora, inescapável, de nos voltarmos às mensagens originais e compreender, atentos e alertas, de que falam e o que pedem as religiões legítimas. O voto, ao menos por enquanto, ainda cabe a nós.

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A publicidade que toca questões sociais.

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, em 09 de janeiro de 2018, página A2.

Por Thífani Postali

Os textos publicitários (verbais, audiovisuais, impressos, etc.) sempre acompanharam, em sua maioria, os discursos sociais dominantes, inclusive, reproduzindo imagens estigmatizadas dos diversos grupos sociais.

Com relação à representação da mulher, até meados de 1980/90, as peças apresentavam a imagem da “mulher ideal” para os padrões do século 20. O arquétipo mais utilizado nesse período foi o da “grande mãe”, ou seja, a mulher devota ao lar, aos filhos e ao marido, como aparece nas campanhas de margarinas, eletrodomésticos e produtos de limpeza. Outro arquétipo feminino utilizado a partir do final do século 20 e em abundância até a atualidade é o da sedutora, com base na representação da deusa Afrodite, que pode ser identificada em campanhas de vestuários, cosméticos, etc.

As representações com apoio no arquétipo da guerreira (Atena) surgiram com força no século 21, quando os questionamentos sobre o papel social da mulher ganharam mais visibilidade com o avanço das novas tecnologias da comunicação, especificamente, com os diálogos propiciados pelas redes sociais, em conjunto com as novas representações do feminino no cinema, nos jogos digitais e em outras produções midiáticas. Ainda que alguns segmentos continuem trabalhando a imagem de modo taxativo, como insistem algumas marcas populares de cerveja, é possível observar uma mulher mais ativa e dona de si em outras campanhas, inclusive de produtos de limpeza e outros produtos de consumo no lar.

Outro recorte que merece atenção é a representação do negro que, até pouco, era ausente nas campanhas publicitárias de um país cuja maioria da população se percebe como negra. Quando apresentado no passado, o negro surgia de forma estigmatizada ou com textos de humor que seguiam discursos dominantes-preconceituosos. Hoje, no entanto, aparece inserido em diversas campanhas e outros produtos midiáticos, muitas vezes, como protagonista dos textos.

O mesmo vem acontecendo, mas de modo mais tímido, com a representação de diversidade sexual e de gênero. Cabe lembrar que, até o século passado, era praticamente inexistente a representação de homossexuais, transgêneros, transexuais, entre outros grupos, em peças publicitárias. Em outros textos midiáticos, como as telenovelas, os grupos eram apresentados de modo bastante taxativo, o que apenas colaborava para um olhar estigmatizado, em acordo com o senso comum generalista. Parece que agora há mais representatividade, ainda que eu acredite que falte um pouco de sensibilidade quanto ao tratamento dado por muitos publicitários, que estão tendo que produzir conteúdos que, em alguns casos, não dominam – o que acaba produzindo novos textos generalistas – assunto para outro artigo.

Há quem reclame que essa é uma jogada de marketing para chamar a atenção. E claro que é, ainda mais considerando que a publicidade, como mencionado anteriormente, busca reproduzir os ideais do público que almeja atingir. Nos últimos anos, pudemos acompanhar peças que, inclusive, questionaram o senso comum e a própria generalização existente na publicidade do século passado, o que parece apontar para um novo rumo discursivo em consonância com as novas gerações de consumidores, que se apresentam menos passivas quanto aos discursos engendrados no senso comum da sociedade no século 20.

Em suma, mesmo que seja jogada de marketing e que, portanto, sabemos que o discurso pode mudar a qualquer momento para acompanhar novos ideais dos consumidores, prefiro os discursos sobre as questões sociais aos fechados do século passado. Estes, pelo menos, estão alinhados à ciência e podem contribuir para uma sociedade mais justa e inclusiva.

Link: https://www.jornalcruzeiro.com.br/materia/850141/a-publicidade-que-toca-as-questoes-sociais

Elas chegaram ao cinema

Artigo publicado no jornal Cruzeiro do Sul, em 03/10/2017, página A2.

Roger dos Santos
Thífani Postali

A memória que se tem das personagens femininas no cinema, por muitas vezes, sugere a figura da moça delicada, inocente, ingênua, quando não a da doce mãe ou da figura materna que cuida melhor dos filhos do que de si própria. A representação da avó, quase um anjo, recebe as crianças, brinca, cozinha, comunica-se com a inocência, um perfil criado para existir como liberta dos problemas da vida.

O leitor pode ter se lembrado de figuras célebres no cinema do século passado que se relacionam com as considerações apresentadas, como Branca de Neve ou Cinderela, que nos desenhos do cinema e dos livros foram e são vistas por gerações até hoje. São textos que repisam o lugar da personagem feminina como impossibilitada da posição de decidir.

Nas produções mais recentes as mudanças são perceptíveis e a lista não é pequena, da animação ao cinema de ação e ficção, finalmente, elas chegaram.

Há 26 anos, em Exterminador do futuro 2, Linda Hamilton, ao interpretar Sarah Connor, viu seu papel repaginado em relação ao anterior, de sete anos antes, 1984. A Sarah Connor do segundo filme tinha conhecimento e treinamento militar, tinha um plano a ser executado, estava pronta ao ataque quando necessário.

No avançar dos anos, no contexto das economias globalizadas em que a mulher na vida real assume cada vez mais responsabilidades, chega-se à segunda década do século 21 com a mostra que as personagens femininas assumiram o protagonismo. Exemplo das grandes bilheterias atuais são Rey e Jyn Erson em Star wars; Rapunzel, não mais apenas uma donzela aprisionada; Merida, a princesa escocesa arqueira e consciente que seu futuro não será apenas de se seguir protocolos, e até João e Maria cresceram e se tornaram guerreiros.

Posto assim, parece que o cinema tem buscado reparar as formas de representações estereotipadas que dominaram a sua história. Todavia, mesmo com o protagonismo alcançado em alguns títulos, importa ainda a reflexão sobre as representações quando comparadas às dos personagens masculinos. Deve-se questionar sobre a quantidade e formas de representação a partir do roteiro, como “o que motiva a história dela?”.

Indagações como essa foram levantadas já em 1985, quando Alison Bechdel apresentou a tira A regra, cuja personagem feminina diz que só assiste a um filme se ele der conta dos requisitos: 1. Deve ter pelo menos duas mulheres; 2. Elas devem conversar uma com a outra e 3. Sobre alguma coisa que não seja homem. Isso porque a autora constatou que quase todas as obras cinematográficas não contemplavam essas condições, o que foi comprovado até pouco tempo em análises sobre os filmes hollywoodianos.

A representação do social é um tema delicado, pois as obras, de alguma forma, impactam no imaginário coletivo que, por sua vez, naturaliza os papéis de gênero. Estamos caminhando para uma melhora na representação do feminino, mas devemos nos atentar sobre o seu papel, pois, ainda que ativo, sua motivação deve estar também para além da relação amorosa com o masculino, como nos filmes de ação, cujo objetivo que move o herói é salvar o mundo, ainda que exista uma donzela na história.

Em suma, apesar de se usar como recorte a representação do feminino, essas reflexões cabem para pensarmos questões de gênero mais abrangentes e as representações sobre outros grupos sociais. Observa-se uma melhora significativa sobre a representação do feminino, mas ainda há muito que melhorar. Que todos cheguem com força!

Link para o artigo: http://www.monteirolobatosorocaba.org/materia/824794/elas-chegaram-ao-cinema

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Precisamos voltar a cozinhar

       Artigo publicado na Gazeta de Votorantim, em 22 de abril de 2017.

  A razão é a principal característica humana e é responsável por todas as transformações realizadas na natureza pela espécie. O ser humano é o único ser que manipula os alimentos de modo a criar novas combinações e formas para se alimentar. Com a dominação do fogo, o ser humano passou a transformar ainda mais os alimentos, de modo que o ato de cozinhar transformou-se em uma das expressões culturais mais importantes da humanidade, não se restringindo apenas ao ato de se alimentar, mas proporcionando a socialização entre os indivíduos.

            Para muitas culturas, o ato de almoçar e jantar tornou-se um ritual familiar de confraternização. Todavia, com a industrialização e as transformações sociais ocorridas após as revoluções, o crescimento das cidades, populações, tarefas durante o dia, distâncias entre os locais e com o alcance das mulheres ao mercado de trabalho, o ato de cozinhar perdeu alguns de seus significados, abrindo espaço para alimentos transgênicos e industrializados.

            Ocorre que muitas vezes desconhecemos o que estamos ingerindo, principalmente quando nos referimos aos produtos enlatados, que hora ou outra aparecem em escândalos sobre contaminações. Em decorrência dessas e de outras situações, muitas pessoas adoecem sem ao menos saber a causa de seu problema, pois por atender o capital, os veículos de comunicação pouco falam sobre as consequências dessa alimentação com produtos processados ou modificados.

            Obviamente, sabemos que com o ritmo desse modelo social, torna-se impossível não se deparar vez ou outra com esse tipo de alimento. A questão é que devemos voltar a achar graça nas verduras não tão apresentáveis, diferentes daquelas que se assemelham aos enfeites de plástico da cozinha; o mesmo cabe aos legumes, às frutas etc. Devemos, quando possível, voltar a achar graça na cozinha como forma de reunir a família e os amigos e, assim, reunir os companheiros para compartilhar o pão! Desta forma, quem sabe, resistiremos de modo saudável aos alimentos avassaladores do mercado industrial, resgatando o que há de mais importante na vida humana: saúde e sociabilidade. Homens, mulheres, crianças, jovens: cozinhem!

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Isso não é humor: Danilo Gentili e as migalhas do riso

Artigo publicado na página A2, Jornal Cruzeiro do Sul em 04/04/17.

Isabella Reis Pichiguelli,com Thífani Postali

O humor não está em toda piada que faça rir. O aspecto constituinte do humor está na parte de dentro, no espírito. Humor que é humor está sempre direcionado à quebra de barreiras, tabus, status quo. Mikhail Bakhtin ensina que a maneira do riso para tanto é sua ambivalência: tem um lado positivo e um negativo, inseparáveis. Ao mesmo tempo, o riso destrói e reconstrói, mata e ressuscita, desintegra e une. Não é dirigido especificamente contra nada ou ninguém. É de todos e para todos. O humor sempre leva à renovação dos estados das coisas, do mundo.

Por isso, humorista que é humorista não usa o humor como desculpa para falar o que e do jeito que quiser. E sabe que se lhe faltar o princípio positivo do riso, o outro é apenas migalha, resto que pode até gerar risada, mas nada mais. Sabe que se lhe faltar o poder de restauração, lhe falta o próprio humor. No entanto, há os que não são humoristas. Trabalham com a linguagem do humor, mas não fazem humor.

É fato que há muito o que cause risadas sem ser humor. Henri Bergson aponta que só rimos do que não nos afeta emocionalmente. Sem o aspecto positivo do riso, a unidade, o riso de todos e para todos, só é possível rir do que não se conhece. É por essa razão que predominam, no conteúdo daqueles que dizem fazer humor mas não o fazem, as ofensas e os discursos de senso comum, posto que estes são baseados na falta de empatia e em estereótipos que reduzem pessoas e ideais a rótulos, cujos solos férteis são os que possuem dominação sobre os demais e a buscam preservar.

Um exemplo desse humor que não é humor é o “”humor”” de Danilo Gentili, apresentador do The Noite no SBT. Na maioria de suas “”piadas””, exacerbam-se os preconceitos contra grupos distantes de sua realidade. Assim, obviamente, quem compactua com seus discursos é quem não se vê no conteúdo e que contribui com um tipo de discurso que tem como função manter a ordem dominante. São discursos de Gentili: “”Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. A última vez que chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz””; “”O cara esperou uma gostosa ficar bêbada pra transar com ela. Todos sabemos o nome que se dá pra um cara desses: gênio””; “”Sério @LasombraRibeiro vamos esquecer isso… Quantas bananas vc quer pra deixar essa história pra lá?””, em resposta a um internauta negro; “”E esse dado da Ong Gay aí que “1 gay é morto a cada 26 hs”? 140 heteros são mortos a cada 24 hs. Alguém aí come meu c… hj? Só por segurança.”

Em entrevistas, Gentili sustenta que quem não ri de suas piadas é porque não possui senso de humor. Também crê que seu humor corrobora com a maioria da sociedade, ajudando a ir contra “”o que uma minoria tenta apascentar para que a sociedade toda viva de acordo com a agenda política deles””. Ou seja, ele não possui conhecimento sobre o que fala, o que reflete em seu trabalho. Mesmo que defenda que seu humor é autodepreciativo e contra o status quo, suas narrativas apontam para o contrário: quando se autodeprecia, não é taxativo como com outros grupos sociais, fazendo uso de um humor que não humilha, não o coloca (ou a seu grupo) numa situação inferior aos demais grupos.

Em suma, muitos comediantes têm se apropriado do humor esvaziando, de certo modo, o seu propósito. Acreditamos que num momento de grande tensão sobre os assuntos que envolvem aspectos político-sociais, o humor transformou-se com mais força em ferramenta de dominação e poder, em que aquele tem mais poder — visibilidade –, se presta a favorecer os discursos dominantes. E esses sim são minoria, caro Gentili.

Link para a página do Cruzeiro: http://www.jornalcruzeiro.com.br/materia/776954/isso-nao-e-humor-danilo-gentili-e-as-migalhas-do-riso

O Carnaval que foi mais popular

Artigo publicado na Gazeta de Votorantim, março, 2017.

Por muitas décadas, o carnaval do Rio de Janeiro serviu como manifestação cultural que tinha por finalidade a comunicação de resistência. Era o evento que fazia o povo aparecer em vários aspectos, da simples ocupação no espaço televisivo que era quase nulo, sobretudo, aos negros à toda rica cultura que emerge das margens, como os sambas que clamavam a cultura e os problemas dos morros, compostos por sambistas locais.

            Já em 1975, José Ramos Tinhorão publicou na
revista O Cruzeiro um artigo que chamava a atenção para o fato de que o carnaval estava se transformando em uma manifestação estrangeira. O teórico falou sobre a entrada das empresas no evento e a redução das manifestações culturais populares ao desejo dos patrocinadores. O carnaval carioca foi se calando com parte de seus sambas encomendados a outros músicos que não os locais e que, portanto, trabalhariam temas de interesse do capital, bem como as fantasias passaram a ser desenhadas por profissionais da elite, esta que também desfilaria pela avenida.

            Em 2017, pudemos observar uma significativa mudança em alguns discursos carnavalescos. A escola Imperatriz Leopoldinense, com o tema Xingú, provocou o agronegócio em defesa das florestas e dos índios, ao passo que a Mangueira, assim como a Imperatriz, levou para a avenida e para todo o Brasil – através da Rede Globo, o tema da religiosidade africana tão presente em nosso país, mas pouco abordado de forma positiva pela grande mídia brasileira.

            Parece que a diminuição de patrocinadores em decorrência da crise que afeta o Brasil devolveu ao povo a liberdade para falar sobre o que deseja e sobre aquilo que realmente é parte cultural do povo, de maneira mais livre. Os sambas-enredos das duas escolas afrontam os discursos dominantes, de modo a provocar discussões e reflexões sobre temas pouco abordados pelos grandes veículos, especialmente, aqueles que têm exclusividade para a transmissão da festa. O carnaval de 2017 fez valer a cultura popular de resistência, devolvendo um pouco de esperança sobre o uso de manifestações culturais como forma de resistir frente às omissões e imposições dominantes.Gazeta_mar_2017

Jornalismo enlatado: o que devemos consumir?

Artigo publicado em 10/01/17 – Cruzeiro do Sul

A padronização e a influência das produções midiáticas são temas que levantam discussões acaloradas desde o início do século passado. Muitas produções apresentam fórmulas simplificadas, que oferecem um desfecho já previsto pelo público. Esse padrão ocorre porque as grandes corporações sabem que seguir modelos facilmente aceitáveis produz rentabilidade. Isso significa que, quanto mais se trabalha em cima de padrões, maior a chance de agradar ao público, ou seja, de atrair ou manter a audiência.

Audiência. Esse é o segredo! A grande mídia, obviamente, precisa de lucro para sobreviver; verba que advém, em grande parte, dos anúncios publicitários ou de propagandas que procuram os veículos ou programas que têm maior público. E como cultivar o público?
Se a intenção do veículo é garantir audiência, o segredo está em abordar temas que sejam comuns para a maioria, independentemente de classe ou grupo social, raça, etnia, gênero e idade. Sendo assim, Edgar Morin lembra que os temas mais manjados são aqueles que envolvem relacionamentos amorosos e violência, situações genéricas em que boa parte do público consegue se identificar. Ocorre que fica simples de entender quando pensamos em entretenimentos que se resumem em mocinho-vilão-mocinha, ação-reação, causa-efeito, problema-solução, tensão-alívio. Todavia, quando partimos para as produções jornalísticas, acreditamos estar diante de verdades e sem intenções comerciais.

Assim como o entretenimento, boa parte do jornalismo dominante apresenta-se como produto de fácil consumo para a maioria. Ao referir-se à televisão, Bourdieu esclarece que os fatos-ônibus, ou seja, as variedades dos noticiários, apresentam conteúdos genéricos e padronizados para garantir a audiência e o lucro. Logo, esse formato contribui para ocultar o que seria de maior relevância social para o público, já que os profissionais, além de serem pressionados para produzir o genérico, são também pressionados pelos políticos para fomentar ou abafar escândalos. Isso sem contar os veículos que, como empresas, possuem em seus produtos apenas as suas próprias intenções.

Outro ponto importante a ser tocado é que enganam-se aqueles que acreditam que este ou aquele veículo é imparcial. Todos os produtos carregam um ou vários olhares que podem ser iguais — ou não — sobre um fato. Das técnicas de filmagem e edição à escolha das fontes para dar credibilidade à informação, pode haver muito significado. O destaque de uma matéria, o pequeno recorte dado a outra, o sorrisinho irônico do jornalista ao final da apresentação, enfim, uma infinidade de possibilidades que podem influenciar a opinião pública e que determinam que assuntos devem ser considerados no lugar de outros. E essas situações já foram bastante refletidas à luz das teorias da comunicação. Lembrando que muitos estudos desenvolvidos no século passado não estavam preocupados em desvendar os truques da mídia, mas desenvolvê-los ainda mais para utilizar a opinião pública para favorecer os interesses daqueles que tinham mais força.

Em suma, deixar de ler ou assistir a este ou àquele produto só contribui para que o receptor feche ainda mais suas ideias. O ideal é buscarmos informações em diferentes veículos e, com preferência, naqueles que apresentam contrapontos. A leitura de outros que são extremos também colabora para o exercício da reflexão. Fora isso, temos hoje a possibilidade de acompanharmos produções locais, regionais, internacionais e independentes. O segredo está em não deixar de consumir os enlatados, mas acompanhar com atenção e desconfiança.

Link para página: http://www.jornalcruzeiro.com.br/materia/756748/jornalismo-enlatado-o-que-devemos-consumir

Representação social, política e a importância das ciências sociais

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, página A2,  em 28 de junho de 2016

Num momento em que as tecnologias da informação permitem que o receptor também se torne produtor de conteúdo, o conhecimento tornou-se ainda mais emergente. Com os últimos acontecimentos na política brasileira, é possível perceber, nas redes sociais, uma quantidade de pessoas que buscam expor suas ideias; o que julgo necessário para a reflexão a partir de diferentes pontos de vista. Por outro lado, há também um número significativo de indivíduos que procuram impor suas opiniões, em muitos casos, debochando daquelas que são contrárias às suas. Infelizmente, as manifestações mais taxativas vêm carregadas de ódio e, sobretudo, apontam como muitos indivíduos são desprovidos do conhecimento mínimo sobre a sociedade em que vivem.

Tomemos como exemplo a discussão sobre a falta de representação da diversidade na política. Nossa sociedade é formada por diversos grupos sociais que têm diferentes experiências de vida. Antes de tudo, importa esclarecer que as nossas ideologias são uma mescla de ideias formadas pela nossa família, grupo social, classe social; são transformadas ao longo do tempo pela nossa formação, nossos grupos de filiação, pelos jornais que escolhemos ler, filmes, publicidades, propagandas e programas que mais gostamos. Deste modo, somos diversos além de podermos ser mutáveis nas ideias, já que passamos as nossas vidas em contato direto com os outros, seja através de experiências ou leituras.

A visão sobre o mundo de uma pessoa que nasceu e vive em favelas e periferias pode ser muito diferente de uma pessoa que nunca experimentou a pobreza e a violência; um homem que convive em um ambiente que não discute as questões sobre gênero, muito provavelmente, não enxergará o sentido nas falas sobre as desigualdades de gênero; um branco que é acostumado a ler apenas conteúdos escritos por brancos, que consome produtos midiáticos que apresentam o “lugar de cada um” na sociedade e que frequenta lugares onde a maioria é branca, sem a ajuda do conhecimento e do diálogo, dificilmente entenderá a importância da luta pela consciência negra e pelos direitos dos negros nas sociedades pós-escravagistas; uma pessoa que não tem contato com homossexuais, seja na família ou no convívio social, se não buscar o conhecimento, estará fadada a entendê-los como pessoas “anormais” que devem ser tratadas; o deficiente físico também terá outra visão sobre diversos assuntos pouco discutidos, basta levar em consideração o quanto demoramos para ter leis de acessibilidade e que, ainda assim, são bastante falhas.

Portanto, as sociedades são diversas e a alteridade torna-se fundamental para a prática da democracia. O termo sugere que reconhecer o outro, aquele que é diferente de mim, do meu grupo, levando em consideração as suas peculiaridades e diferenças e também suas equivalências, faz com que os indivíduos tornem-se menos etnocêntricos, podendo, assim, diminuir os conflitos sociais. Deste modo, ter representantes políticos que sejam de diferentes grupos sociais contribui para que medidas sejam tomadas de forma mais justa, levando em consideração o todo, ou uma melhor parte do todo. Lembre-se: o que para você pode não ser importante, para outra pessoa pode significar muito! Posto assim, o conhecimento básico sobre as ciências sociais torna-se fundamental para o exercício da cidadania e democracia, levando em conta que a democracia tem como base o governo para todos. É preciso ter bom senso no lugar do senso comum, principalmente depois da invenção da internet, que não permite mais a desculpa do “desconhecimento”. Ter “opinião” requer leitura, argumentação, caso contrário, é reprodução irreflexiva.

Link para a matéria: http://www.jornalcruzeiro.com.br/materia/710886/representacao-social-politica-e-a-importancia-das-ciencias-sociais

Um convite à consciência negra

Artigo publicado na Gazeta de VOTORANTIM. De 07 de 13 de maio de 2016
Mais de um século depois do fim da escravidão, o assunto sobre preconceito étnico parece não estar resolvido nas sociedades que aplicaram o regime existido até quase o fim do século 19. Nas escolas, o tema é abordado, mas, muitas vezes, de forma irreflexiva. Fala-se do período de forma pontual, fria e distante, sem apresentar os motivos, as opressões, as ideologias da época e o esforço predatório para dizimar as culturas indígenas e africanas.
O problema é que quando nos sensibilizamos com a história da escravidão, o discurso que segue é sobre o seu fim, como se a abolição tivesse dado o ponto final nos problemas ocorridos. Com o falso alívio, deixamos de refletir sobre os efeitos do evento, contribuindo com a negligência aos reparos sociais necessários.
A abolição foi a maquiagem da escravidão no plano do discurso, todavia, na prática, continuou o regime de opressão ao negro que, não servindo mais como objeto de trabalho, foi abandonado em meio a uma sociedade que, do ponto de vista ideológico, tirou dos africanos o bem mais precioso: o seu reconhecimento enquanto ser humano dotado de experiências e culturas – leia-se espiritualidade, sabedoria e conhecimento. Reduzidos a “coisas”, os povos africanos tiveram que reconstruir suas histórias e reerguer suas culturas com o pouco do que havia sobrado – já que a maioria das expressões africanas que não interessavam ao trabalho foram-lhes proibida.
Literalmente deixados de lado pela classe dominante da época- nas periferias e favelas, iletrados – com raras exceções – sem acesso aos estudos e, consequentemente, com poucas chances de conseguir empregos diante de uma sociedade tomada pela ideologia da superioridade e inferioridade “racial”, o Brasil produziu uma massa de pessoas carentes de tudo o que é mais básico para sobreviver com dignidade em sociedade. Portanto, é um problema esquecer que isso ocorreu há pouco tempo e, pior ainda, sustentar que os discursos contra o preconceito étnico e medidas para reduzir o problema são desnecessários ou, quando esses são vindos do grupo oprimido, dizer que são discursos de “vitimização”.
Assim, para discutirmos sobre o preconceito, cotas nas escolas e universidades, melhores oportunidades de trabalhos, criminalidade, representação do negro na mídia, etc., não temos que entender só a escravidão, mas, sobretudo, a sociedade pós-escravagista. A nossa.
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Música e sexo: um caso além do funk

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, página A2,  em 03 de maio de 2016

Muito se fala que o funk é um tipo de prática musical depravada e que, portanto, não merece o reconhecimento como expressão cultural. Também é comum ouvirmos que, apesar de sua origem estadunidense, não possui absolutamente nada relacionado à cultura de origem. E aqui já temos dois equívocos.

Primeiro que, se formos considerar a cultura em seu sentido antropológico, toda e qualquer expressão humana deve ser considerada cultural. Segundo, que a musicalidade afroestadunidense sofreu diversas transformações, em seu próprio território e em outros que importaram essa cultura.

No Brasil, a partir dos anos 90, o funk ganhou visibilidade através dos meios de comunicação, mas o recorte feito pela mídia apresentava e ainda apresenta uma música associada à criminalidade e ao sexo. Hoje, também, dá ênfase ao “Funk Ostentação”, cujo conteúdo aborda o consumo de grifes, bebidas, baladas e status bem, nada diferente do que as publicidades vivem despejando em nossa sociedade, e o “Funk Putaria”, que discorre sobre a pornografia.

Deste modo, sua história não é recente e envolve severas críticas, vindas de distintos segmentos sociais, sobretudo, quanto ao seu conteúdo inapropriado. Todavia, existem diversos tipos de funk, inclusive uma vertente pouco difundida, o “Funk Consciente”, como o de MC Garden, que, assim como o Hip Hop, procura chamar a atenção para os problemas sociais que afligem os jovens e a sociedade brasileira. A música “Isso é Brasil” ganhou notoriedade nas redes sociais durante as manifestações ocorridas em 2013. Mas, mesmo assim, não foi “apadrinhada” pela grande mídia.

É fato que a expressão musical recebeu uma configuração brasileira, mas sua origem está atrelada ao ritmo estadunidense soul, que, segundo Herschmann, trata-se da união entre os ritmos gospel e rhythm and blues, que em meados de 1960 conquistou visibilidade mundial a partir de Ray Charles e James Brown. O termo funky surgiu nesse período, decorrente de um sentimento de alegria e de “orgulho negro”, passando a significar uma vertente da música ainda capaz de produzir uma sonoridade que representasse a negritude. No Brasil, o funky se transformou em funk, um estilo musical marcado pela dança e atitudes de alguns grupos de jovens que habitam as periferias, principalmente, das metrópoles Rio de Janeiro e São Paulo.

Outra manifestação musical que em muitas letras aborda o sexo é o blues. Os bluesmen discursavam sobre relacionamentos conturbados e sexo sem pudores. E esse foi um dos motivos de também ser considerado, no início do século XX, uma música ofensiva e desprezível. Robert Johnson, em “Phonograph Blues”, cantava o sexo através do gramofone, e, em “Terraplane Blues”, relacionava o sexo a peças de automóveis. Essa visão só mudou com a internacionalização do ritmo e a sua assimilação à música de lamento, como o rock ficou para a rebeldia e o jazz para música erudita apresentada pelo cinema.

Outras vertentes musicais também abordam o sexo de forma explícita. Da música clássica a toda conotação sexual do rock and roll, do pagode ao axé, em que uma geração desceu até a “boquinha da garrafa” quando criança, da música pop ao sertanejo e esse último que o diga! O chamado sertanejo universitário discorre sobre sexo e muitas composições envolvem elementos do funk putaria.

Portanto, a combinação entre sexo e música é caso antigo. O que difere é a forma como consumimos e valorizamos as expressões musicais. Ainda olhamos para elas sem o conhecimento de seu todo, acatando tudo o que determinam os principais veículos de comunicação. Nas emissoras de rádios mais comerciais, as “top mais” de sertanejo, pagode e funk; nas demais, o bombardeio da música pop internacional. Já parou para pensar no conteúdo das músicas de Rihanna, Miley Cyrus e outros “top”?

Link para a matéria: http://www.jornalcruzeiro.com.br/materia/696358/musica-e-sexo-um-caso-alem-do-funk

Podemos amenizar a miopia sobre o mundo?

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, página A2,  em 22 de março de 2016

Thífani Postali
Paulo Celso da Silva

Por muito tempo, os principais veículos de comunicação que funcionam com programações monólogas dominaram o fluxo e o teor das informações distribuídas para a população. Grandes escândalos como a corrupção que toma conta de nosso País, as atrocidades cometidas pelas grandes corporações entre outros fatos ligados aos grupos que possuem maior prestígio social, seja financeiro ou ideológico, eram mais facilmente manipulados e distribuídos para a maior parte da população, que os recebia junto com o jornalista que, com voz firme e confiável, emitia seus votos de “boa noite”.

Deste modo, criar estereótipos, oferecer os modelos de nações, apresentar culpados ou inocentá-los, esconder escândalos, etc., era uma tarefa muito fácil antes da chegada da internet, especialmente, das redes sociais. A rede possibilita à população expandir o assunto visto em outro meio, disseminá-lo e, o mais importante, discuti-lo quando de forma construtiva. Mas, muitos veículos oriundos do século passado ainda não aprenderam a lidar com a situação e continuam a reproduzir um modelo que já não cabe a uma população com acesso mais facilitado às informações.

Como exemplo, em outubro de 2015, ocorreu o rompimento de duas barragens da mineradora Samarco, em Minas Gerais, o que causou estragos gravíssimos para além da região em que a empresa se localiza, com o derramamento de um mar de lama de aproximadamente 50 milhões de metros cúbicos. Na primeira semana, o brasileiro pode acompanhar muito pouco sobre o ocorrido. Os principais telejornais do Brasil tratavam o caso como algo pequeno e chamaram de “catástrofe ambiental”, dando ênfase à quantidade de animais mortos. Nada se falava sobre a empresa, os culpados, os motivos, a ligação com o governo entre outras coisas tão importantes para a compreensão da população. E assim seguiu por quase uma semana, quando outro evento aconteceu.

O Estado Islâmico atacou a França, assunto que tomou conta dos noticiários. Na maior emissora do Brasil, a Globo, pudemos acompanhar reportagens ao vivo, plantões, comentários em todos os programas, até mesmo nos que não têm caráter jornalístico. Mas, e a tragédia ocorrida em Minas Gerais? Essa questão foi bastante levantada nas redes sociais por pessoas que cobravam a emissora pela cobertura também desse problema. Então, a Globo resolveu mudar a sua postura e cobrir melhor o rompimento das barragens, todavia, as matérias e reportagens tão pouco falavam dos motivos reais: as negligências e de ambas as corporações. O fato é que a internet possibilita a expansão do assunto. Não termina no “boa noite”, não “dá o ponto final”. Ela possibilita a reflexão a partir de diferentes focos, de veículos e fontes diversas, dos comentários dos colegas e dos professores, especialmente. Talvez a internet seja a principal fonte de diálogo, mas, para isso, teremos que aprender a usá-la de forma responsável. As mesmas corporações que produzem as informações distorcidas também estão na rede e, junto a elas, as pessoas que só querem ver o que está na televisão e que, portanto, defendem as mesmas ideias. Não podemos esquecer que a internet produziu o analfabeto digital que, dentre as diversas dificuldades que tem em lidar com as ferramentas, acaba compartilhando notícias mentirosas ou falaciosas. Em suma, temos informações disponíveis como nunca se teve na história, mas devemos saber como selecioná-las e trabalhá-las. Só assim poderemos, quem sabe, amenizar a miopia sobre o mundo.

Thífani Postali é doutoranda em Multimeios pela Unicamp e mestra em Comunicação e Cultura pela Uniso. É professora universitária e membro do grupo de pesquisa Mídias, Cidades e Práticas Socioculturais (MidCid). Blog: www.thifanipostali.com

Paulo Celso da Silva é docente e coordenador do programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da Uniso. E-mail: paulo.silva@prof.uniso.br

Link para a matéria: http://www.jornalcruzeiro.com.br/materia/685755/podemos-amenizar-a-miopia-sobre-o-mundo

Todo cancionista é músico!

*Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, em 26/01/2016 – Caderno A2.

Em diversos estudos que compreendem a prática musical, existe a preocupação em contrastar o que se considera em termos de música erudita e popular. Para tanto, considera-se, de maneira simplificada, o erudito como gênero musical racionalizado, consciente, elaborado, concentrado quanto à técnica, conteúdo e estilo, ao passo que o popular remete ao conhecimento empírico, intuitivo, de fácil consumo, descompromissado com técnica, conteúdo e estilo. Entretanto, Luiz Tatit contesta essas definições acerca do popular. Para ele, o músico popular pode ser entendido como “cancionista”, termo que utilizou para descrever o sujeito que não sabe como e quando aprendeu a tocar, compor ou cantar, mas que não é descompromissado com a técnica. Tatit parte da ideia de que o cancionista, apesar de não dominar a teoria musical, sempre soube fazer tudo isso, já que compor significa “dar contornos físicos e sensoriais a um conteúdo psíquico e incorpóreo. Pressupõe, portanto, uma técnica de conversão de ideias e emoções em substância fônica conduzida em forma de melodia”. Para o musicólogo, o cancionista é um “malabarista” pelo fato de possuir controle de atividade que permite equilibrar a melodia no texto e o texto na melodia. Lembra, ainda, que cantar exige um permanente equilíbrio entre os elementos melódicos, linguísticos, os parâmetros musicais e a entonação coloquial.
As noções sobre música erudita e popular ajudam a compreender as questões gerais acerca do conceito de música, entretanto, o significado que acolhe os dois gêneros é aquele que entende a música como sentimento, produtora de sensações, ou, como reforça J. Jota de Moraes, a “forma de representar o mundo, de relacionar-se com ele e de concretizar novos mundos”.
Assim, a música envolve mais que uma simples oralidade somada ao ritmo; a música envolve todo um sentimento que é específico de algum indivíduo ou grupo. Segundo Moraes, “a maneira de construir música varia de comunidade para comunidade, de época para época e, às vezes, de indivíduo para indivíduo. Cada povo, cada momento da história tem o seu próprio sistema de organização musical”.
Com relação à cultura popular, Tatit ressalta que quem ouve uma canção “ouve alguém dizendo alguma coisa de uma certa forma”. Deste modo, o que caracteriza a música popular é, justamente, o fato de o receptor reconhecer na música situações cotidianas. Portanto, o discurso oral mostra-se como característica importante da música popular, diferente da música erudita, que possui uma forte tendência no sentido de converter a voz em instrumento musical, segundo o teórico. Talvez seja esse um dos principais pontos que diferenciam a música erudita da popular: a primeira não se obriga ao conteúdo discursivo ao passo que a segunda o valoriza.
A questão é que, apesar de toda a definição sobre a música, equivocadamente, procura-se decidir qual tipo de produção musical vale mais. Como apresentado, pode-se entender que, independente da técnica, música é sentimento. E isso faz com que as discussões sobre o que vem a ser a “verdadeira arte musical” sejam subjetivas, pois tanto a música erudita quanto a popular são revestidas de sentimentos e repertórios particulares de seus idealizadores. Isso sem estender a discussão sobre como o jazz, que era uma música considerada popular até o início do século passado e, portanto, desvalorizada, passou a ocupar a posição de erudita após o governo reconhecê-la como cultura estadunidense. Hoje o temos como uma música refinada, passível de muito estudo, mesmo que tenha sido originada por cancionistas. Posto assim, não cabe determinar de forma absoluta o valor sobre a arte, pelo menos a partir de uma visão antropológica. Erudito e popular podem ter a mesma importância cultural.

A onda dos youtubers e o faz de tudo pelos views

Artigo publicado no jornal Gazeta de Votorantim, de 13 a 19 de fevereiro de 2016, página 11.

             A internet trouxe mudanças significativas para a produção e distribuição de produtos culturais. Sem conter normas estabelecidas sobre o seu uso, a ferramenta possibilita aos usuários produzir e distribuir conteúdos diversos, desvinculados das grandes indústrias como gravadoras, emissoras de televisão e rádio, editoras, entre outras. Sabemos que muitas empresas foram, de alguma forma, abaladas, mas continuam bem ativas e relutando para se adequar ao novo consumidor digital, mesmo que para isso, tenham que transformar o nada em notícia.

                Pela possibilidade mencionada, surgem novos atores emergidos da internet: os youtubers. São pessoas que produzem conteúdos, em sua maioria, sobre vários assuntos que permeiam a sociedade. Geralmente, são identificados como pessoas de personalidade e que sempre têm algo interessante para apresentar. Ocorre que, nesse universo, existem youtubers comprometidos e que realmente trazem, junto aos diversos temas, assuntos tratados com uma profundidade não vista na maioria das produções midiáticas. É o caso de Jout Jout que, de forma simples e até didática, fala aos jovens sobre temas polêmicos como feminismo, preconceito, sexualidade etc. Por outro lado, existe uma leva de youtubers adolescentes que, na ânsia de conquistar a fama, acabam apresentando conteúdos vazios e, em muitos casos, duvidosos. É o caso da youtuber Viih Tube, garota de 15 anos que gravou um vídeo mostrando um caderno estampado com Romero Britto, mas o confundindo com Picasso. O vídeo foi gravado há um ano, mas ganhou novamente repercussão, tendo, no mesmo dia, mais de 2 milhões de visualizações e mais de 26 mil compartilhamentos via Facebook.

                Nesse dia, Viih Tube tornou-se o assunto mais comentado nas principais redes sociais, além de ser noticiada em grandes veículos de comunicação. Ocorre que essa “gafe” pode ser proposital. Pessoas de todo o país compartilharam o vídeo da adolescente, enquanto jornais renomados a produziram como notícia. Um assunto banal, sem importância, mas que serviu para ocupar o espaço de muitos outros assuntos pertinentes, em se tratando de jornalismo. Com relação aos compartilhamentos, servem para provar o quanto continuamos ingênuos diante das informações, o quanto preferimos nos deixar enganar em troca de um comentário engraçado ou maldoso.

                Em suma, a internet é extremamente importante, pois possibilita a produção e a distribuição de informações diversas. Todavia, pode ser utilizada também como campo de produção de conteúdos banais que colaboram para que a mídia ocupe seus espaços com a transformação de qualquer coisa em notícia, em troca também de seus “views”. O que preocupa não é a produção de besteira, principalmente, partindo de uma adolescente; preocupa a transformação do nada em espetáculo e o consumo vazio de senso crítico. Que a fama de Viih Tube sirva como um alerta.

PDF do Gazeta de Votorantim: Gazeta-de-Votorantim-155 – Youtubers

Graffiti: uma arte reconhecida ou calada pela mídia?

*Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, em 17/11/2015 – Caderno A2.

Uma das grandezas das culturas populares é que se caracterizam por discursos livres de imposições da indústria cultural, que se formou no século passado e que exige certo padrão nas produções.

De acordo com Stuart Hall, cultura popular é a cultura que nasce do povo, sendo que é nela que podemos encontrar a resistência, a luta por mudanças sociais. A palavra resistência se relaciona a conteúdos que carregam críticas, reflexões e intenções de mudança. Assim, podemos dizer que, através dessa cultura, conseguimos conhecer, identificar e ouvir as aspirações dos diferentes grupos sociais que habitam um mesmo território, a saber, as grandes cidades.

Apesar de ter proximidade com diferentes formas de inscrição em muros (pichação, pixação, grapixo), o Graffiti está ligado ao movimento Hip Hop, que, desde o seu surgimento, tem como intenção combater a criminalidade existente nos territórios pobres e periféricos das sociedades. Criado no Bronx, NY, na década de 70, por Africa Bambaataa, o Hip Hop inclui elementos culturais como Dj, Graffiti, Rap e Break, tendo como lema a frase “Paz, Amor, União e Diversão”. Portanto, seu significado está distante da maioria dos textos apresentados pela mídia, que o assimila como uma expressão relacionada à criminalidade. Isso porque jovens envolvidos com a criminalidade também começaram a produzir Hip Hop, a fim de fazer apologia aos modos de vida delinquentes. Sendo assim, Bambaataa incluiu mais um elemento que chamou de “conhecimento”, que requer que o indivíduo tenha consciência social e disposição para passar a mensagem do movimento adiante, uma filosofia que nega as drogas ilícitas e a criminalidade, principais motivos da violência existida nos bairros periféricos.

Portanto, o Graffiti, que era tratado como uma ação delinquente, passou a ser considerado expressão artística, tendo o incentivo de setores públicos e popular. Passou a ser incentivado pela mídia e a integrar as galerias de arte e eventos como a Bienal Internacional do Graffiti Fine Arte.

O valor dado ao Graffiti é extremamente importante, pois, inegavelmente, trata-se de arte. Todavia, inquieta acompanhar as matérias que abordam a manifestação cultural sem dar ênfase à sua filosofia. Muitos textos publicados nos principais veículos de comunicação do país apresentam o Graffiti como arte, mas uma arte calada, já que não difundem que muitos deles possuem crítica acerca dos problemas sociais intenção do Hip Hop.

Observação semelhante fez José Ramos Tinhorão, em 1975, no artigo “Meu Brasil Estrangeiro”, publicado na extinta revista “O Cruzeiro”. Na ocasião, o teórico discorreu sobre a banalização do Carnaval e sua desvalorização enquanto cultura popular, quando o gosto pela festa ampliou-se às outras camadas sociais e passou a incorporar elementos que o descaracterizaram. Histórias distantes da realidade das escolas de samba e as roupas criadas por estilistas renomados aproximavam os grupos mais abastados. A musicalidade passou a envolver outros enredos e nomes da música brasileira, que não os compositores de “música de carnaval”, que ali tinham a única oportunidade de se apresentar à massa e dar vez e voz à cultura de seu grupo.

Deste modo, assim como o Carnaval, o Graffiti tem preenchido espaços que até então lhe eram inacessíveis. Todavia, geralmente é apresentado a partir de uma visão que ignora o seu discurso além da arte. Quando exposto apenas sob a ótica da arte, sem uma abordagem histórico-social, deixa de envolver a filosofia do Hip Hop enquanto cultura de resistência. Se é proposital ou simples falta de informação, não sabemos. Mas uma coisa é certa: o Graffiti poderia ser apresentado de forma mais significativa, com exaltação da sua autenticidade.

Link: http://www.jornalcruzeiro.com.br/materia/655658/graffiti-uma-arte-reconhecida-ou-calada-pela-midia

A mídia que não VALE nada

*Artigo publicado no Jornal Gazeta de Votorantim, edição 145, página 09.

Em tempos de internet, aqueles mais atentos conseguem perceber o quanto os discursos entre a grande mídia e as redes sociais são, muitas vezes, divergentes. Alguns episódios nos passam despercebidos, mas aqueles que possuem maior barulho no “boca a boca digital” nos dão subsídios para descobrir uma mídia comprada, cínica e quase perdida no atual contexto comunicacional. Todavia, os grandes veículos de comunicação brasileiros, especialmente, as emissoras televisivas, muito sabem que ainda podem agendar assuntos e ditar parte das ideias de boa parte da população brasileira, a saber, aquela que não possui acesso regular às novas tecnologias da informação. Na maior delas, a Globo, não vemos sequer um “plantão” sobre o pro-blema ocorrido em Mariana – Minas Gerais, em 05/11/2015, que já é con-siderado a maior “catástrofe ambiental” do Brasil, o que eu prefiro chamar de “catástrofe cultural”, já que foi provocado, evidentemente, por mãos humanas – e das mais sujas! Aliás, quando esse é o assunto, percebemos o tom de lamentação nas reportagens e matérias, mas não o de inconformidade e comprometimento com a verdade, o que deveria ser correto. Deste modo, fica difícil para muitos “eleitores” entenderem o tamanho do problema e todas as suas dimensões. Algo semelhante ocorreu no ano de 2013, durante as chamadas jornadas de junho, onde parte da população foi às ruas protestar contra o aumento da tarifa do transporte público, o que acabou se tornando um evento nacional contra inúmeros problemas que acometem a sociedade brasileira. Enquanto, por meio das novas tecnologias, multidões organizavam e marcavam presença nos eventos postando fotos com amigos, família, etc. – apresentando um evento pacífico – a televisão, mostrava cenas de uma guerra civil, com repórteres “apavorados”, imagens de explosões, brigas, pessoas gritando, saqueando comércios, destruindo bancos entre outros atos delinquentes. É claro que tudo isso aconteceu durante as passeatas, mas foram atitudes pontuais e mínimas perto do todo. Qual foi a intenção disso? Talvez, segurar boa parte da população que, apavorada, preferiu ficar em casa? Em suma, é lamentável o esforço da grande mídia em tentar conduzir ideias em pleno século XXI, mas também é incrível acompanhar como esse modelo dominante tem perdido credibilidade, sobretudo, para aqueles que têm a oportunidade de pensar sobre vários vieses.

Link para o jornal: http://pt.scribd.com/doc/290654862/Gazeta-de-Votorantim-Edicao-145

Olhares sobre Santiago

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, em 8/12/2015, pág. 7 do Caderno de Turismo.

Míriam Cris Carlos
Thífani Postali

Chegamos a Santiago, e, de cara, fomos tomadas por um sentimento inusitado,  despertado pelo  número incontável de bandeiras do Chile, hasteadas por todos os cantos: do aeroporto ao centro. Estavam em muitos lugares, em casas simples e sofisticadas, residenciais e comerciais, como que brotadas da terra. Uma chuva de bandeiras pintando a paisagem cinzenta de azul, branco e vermelho.

Quem já foi a Santiago pode perceber que o culto à bandeira, por lá, não é nada incomum. A que tremula na praça em frente ao Palácio La Moneda, imensa e imponente, emana, além de respeito e fascinação, uma certa inquietude que faz pensar sobre a nossa relação com nossos símbolos.

 Mais tarde, procuramos um lugar para comer. Acertamos na simplicidade do bar, na sua informalidade e no sabor genuíno do ceviche chileno. Erramos feio pelo fato de termos de enfrentar uma audiência apaixonada que assistia ao jogo entre as seleções chilena e brasileira: todos no restaurante eram chilenos. Nós, a exceção. Porém, difícil seria ter entrado em outro lugar onde fosse um pouco diferente. Não havia um restaurante do entorno sem uma TV ligada no jogo. E a torcida, apaixonada, vibrava a cada lance como se ali estivesse a mais apaixonada das torcidas brasileiras. Espaçadamente, as mesas viravam uma percussão tocada fortemente pelas mãos e acompanhadas pelos brados que ecoavam: CHI CHI CHI LE LE LE.   Tudo culminou com a derrota do Brasil (2×0) em 09 de outubro, e um desalento indescritível, mesmo para aqueles que não são fãs do esporte, como é o nosso caso.

Também acompanhamos o feriado de “Aniversario del Descubrimiento de América”,  uma data que parece não ter sentido para muitos chilenos. Do taxista às intervenções urbanas, as mensagens pareciam ser contrárias ao evento. Talvez menos para a multidão de famílias que seguiu para o zoológico. Em pichações pelo centro da cidade, afirmações de que o Chile não foi descoberto, mas sim invadido; em cartazes espalhados, reflexões sobre a origem e identidade do povo chileno, pedindo o reconhecimento dos povos Mapuches e questionando: “Por que se desconocen nuestras raíces?”. Outros cartazes, no estilo lambe-lambe, pediam a união do povo para a construção de um “Novo Chile”, enquanto a questão sobre o papel cultural e social das mulheres, que envolve diretamente o conceito de feminismo, também em evidência no Brasil, marcava diversos locais. Em um deles, a frase “Mujer, no me gusta cuando callas”, que se refere à violência.

                A partir dessas manifestações, podemos perceber o quanto os chilenos levantam questões semelhantes às nossas, todavia, parece que lá o povo está melhor organizado quanto às discussões sociais no espaço público. Em se tratando das urbanas, cartazes gritam estrategicamente a cada esquina, com o uso evidente de técnicas de áreas como design e publicidade.

Quanto à culinária de Santiago, os pratos são ricos em peixes e frutos do mar, muitos dos quais completamente desconhecidos em nossos mares, graças à oferta abundante que representa ser banhado pelo Pacífico. Um bairro bastante agradável para passear e perder-se na escolha entre os bares e restaurantes é o Lastarria, onde se concentram chilenos e também turistas. Para quem gosta de apreciar vinhos, vale sentar em locais como o BocaNariz e harmonizar diferentes queijos, entre outros pratos cuidadosamente (e inusitadamente) preparados, junto a uma variedade de vinhos servidos em taças, especialmente para degustação.  Não à toa o restaurante se chama BocaNariz. Trata-se de um exercício para o paladar e o gosto, uma experiência que envolve cheirar e degustar, mas também ver. Outro restaurante que experimentamos e que, diga-se de passagem, foi o que mais nos aproximou da autêntica cozinha de Santiago, foi o Palacio Del Vino, cujo proprietário, José Luis, é um simpaticíssimo brasileiro que trabalhou como sommelier na vinícola Concha Y Toro. O restaurante fica em um casarão antigo, meticulosamente decorado com objetos os mais variados.  Segundo José Luis, o dono do imóvel escolheu a dedo quem iria ocupá-lo. O mais interessante é que você é servido pelo próprio José Luis que, junto a sua esposa, que é a chefe da cozinha, preparam um menu degustação com a harmonização de vinhos. Enquanto serve, José Luis dá uma aula sobre culinária, vinhos e a experiência com sabores. Por isso, não há cardápio. O cliente deve estar disposto a mergulhar na surpresa dos paladares. O sentimento é o de um desfile de aromas e sabores preparado com arte, com cuidado, com zelo e com alma.

Um outro lugar bastante curioso é o The Clinic. Ali funciona um jornal semelhante ao que foi o nosso antigo Pasquim, mas também um bar e restaurante, com vários ambientes cheios de manchetes do jornal, fotos, objetos estranhos pendurados nas paredes, além de quadros com um humor político, crítico e muito ácido, do qual não escapa nem a presidente Michelle Bachelet. Para cada ambiente há um tipo de música, e trata-se de um ponto de encontro de amigos, artistas e intelectuais, além de turistas curiosos. Uma frase por dia, em uma lousa, dá o tom crítico do ambiente. No dia em que lá estivemos, uma frase de Evo Morales classificava o capitalismo como um câncer a ser extirpado para não destruir a humanidade.

Em uma mesa de bar posta na calçada, em outro canto de Santiago, próximo ao Pátio Bellavista (este bem turístico, enquanto que dois quarteirões adiante já não havia turistas, mas cidadãos comuns de Santiago), enquanto tomávamos uma água e nos refrescávamos da caminhada, chamou a atenção um cortejo de carros. Parecia uma festa: buzinaço, gritaria, cartazes, faixas. Mas contraditoriamente, as pessoas pareciam tristes – os rostos contraídos; alguns chorosos. Não era uma festa. Era um enterro. Possivelmente de um jovem. E o caixão ia coberto, em carro aberto, com uma bandeira de time de futebol.

Uma situação que nos chamou bastante a atenção foi a valorização dos artistas independentes. Nas ruas e nos metrôs, músicos tocam e vendem seus Cds. Foi impressionante acompanhar o número de pessoas contribuindo com dinheiro ou compra dos Cds, fato que no Brasil parece pouco ocorrer, talvez pelo comportamento predatório da indústria da música, que ainda prevalece em nosso país.

Mas, um dos fatos que mais causam admiração é a quantidade de cachorros soltos nas movimentadas ruas do centro, nos parques e bairros de Santiago. Quase todos os cachorros são grandes em seu porte físico, alguns deles beirando à obesidade. Eles deitam nas calçadas em meio à correria do dia-a-dia e também ocupam as sombras frescas dos parques. Ocorre que esses cachorros possuem casinhas, água e alimento espalhados por todo o lado. Não conseguimos descobrir se essa é uma iniciativa de órgãos públicos ou da própria população, mas achamos bastante interessante e acolhedor. É possível observar comerciantes em geral cuidando dos animais que, dóceis, acompanham as pessoas que lhes dão atenção por um bom tempo. No bairro boêmio Bellavista, um deles nos acompanhou por três quarteirões, observando cada passo que dávamos!

É óbvio que a cidade apresenta problemas, como em qualquer grande metrópole. O Mapocho, rio que corta a cidade, ostentava garrafas, restos de comida, muita sujeira em suas margens. O trânsito no centro, nos horários de pico, é lento e caótico. O metrô em alguns horários se assemelha ao de São Paulo, com lotação total: impossível se mexer dentro do vagão. Mas sem dúvida é um lugar para perambular, principalmente a pé, durante o dia ou à noite. Há detalhes a cada esquina, contemplados sem bobeira, porque atenção é algo que qualquer grande centro exige, mas há uma sensação de segurança, guardada não apenas pelos carabineiros, a polícia chilena, mas pela sensação de que ali está um povo em paz com a vida, o trabalho e os sonhos, em uma cidade bem cuidada, ainda que o número de moradores de rua tenha aumentado significativamente em comparação a outras vezes em que a visitamos.

E o melhor, sem a névoa densa de poluição que nubla de cinza opaco o horizonte, para onde se olhava, lá estavam, salpicadas de branco, como uma paisagem de sonho ou de calendário. Olhar, olhar novamente, olhar mais uma vez e respirar fundo, como se o ar gélido pudesse refrescar, bem mais que os pulmões, o nosso coração tropical, que se derreteu no contato com tanta diferença materializada na visão das Cordilheiras.

Chile - dez 2015
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Quebrando o estereótipo do alemão

artigo publicado no caderno A2 do Jornal Cruzeiro do Sul, em 08 de setembro de 2015.

É comum ouvirmos, entre pessoas próximas, que os alemães são arrogantes por se sentirem superiores aos demais povos do mundo. Mas, por que temos essa visão sobre os alemães, muito antes de termos tomado 7 x 1 na Copa do Mundo de 2014?

Bem, isso pode ter a ver com as propagandas e ideologias disseminadas durante a Segunda Guerra Mundial. Com a chegada ao poder, no ano de 1933, Hitler nomeou Joseph Goebbels como ministro da Propaganda do Reich, tendo também a função de esclarecer a população alemã quanto aos “objetivos” do Nazismo. Através dos principais meios de comunicação da época, tais como cinema, jornal, rádio e outras formas de comunicação como arte, música, teatro e até materiais escolares, as ideias nazistas foram espalhadas por toda a Alemanha, por meio de uma estratégia tão eficaz, que até hoje é praticada por profissionais de comunicação de todo mundo, além de ser estudada por pesquisadores.

Goebbels era doutor em filologia e dizia com convicção que “uma mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade”. Um de seus primeiros passos foi queimar os livros não alemães e os considerados imorais para as doutrinas vigentes. Por outro lado, usou e abusou de cartazes, transmissões radiofônicas e, em especial, do cinema que une o áudio e o visual em uma combinação perfeita para a transmissão de mensagens.

As mensagens nazistas se baseavam em políticas que tinham como objetivo a remoção permanente dos judeus, a imposição de superioridade racial e do poder militar, além da visão de que os inimigos eram essencialmente maus. Assim, Hitler e Goebbels construíram uma imagem sobre a Alemanha que não correspondia a seu todo, mas o mundo recebia o olhar da ideologia dominante do país, construindo, também, uma visão estereotipada sobre seu povo.

Ocorre que muitos episódios são pouco discutidos no mundo. Christin Handrek conta que seus avós Heinz Walter Handrek (82 anos) e Waltraud Elfriede Dora Handrek (81 anos), ao relembrar a Guerra, afirmam que boa parte da população não sabia sobre os campos de concentração, sobretudo, o extermínio dos judeus. Essa situação é representada no filme “O menino do pijama listrado” que, apesar de ser uma ficção, mostra o uso da televisão como ferramenta para a divulgação dos campos como locais de “bom tratamento e reeducação dos judeus”. Os avós de Christin também revelam que muitas pessoas só descobriram as ações mais cruéis do nazismo após a Guerra, quando as consequências foram reveladas ao mundo.

Christin Handrek conta que a maioria dos alemães “não suportam a ideologia de Hitler”. No entanto, existem alguns grupos que a apoiam, inclusive, negando a existência do holocausto. Com relação à superioridade racial, ela conta que, talvez, só o grupo “Neo-Nazis” ainda sustenta a ideia da “raça ariana”. Cabe lembrar que esses grupos são minoria e que a maioria da população qualifica essas posições como absurdas. Christin ainda acrescenta que algumas pessoas acham que esse episódio deve ser deixado para trás e que a Alemanha deve seguir sem carregar esse peso. Todavia, ela discorda ao afirmar que o ocorrido faz parte da história da Alemanha e que deve ser lembrado, principalmente, para que as pessoas que não viveram esse período consigam comparar a Alemanha de hoje com a de Hitler. Por isso, o tema é bastante abordado nas escolas.

Os relatos da família Handrek são essenciais para que tenhamos outra ideia sobre os alemães, uma concepção mais próxima do ser e menos mediada. Como colocado, muitas pessoas, que não só brasileiras, ainda alimentam o estereótipo do povo que “se sente superior”. No entanto, essa ideia é desconstruída quando temos vontade e disposição para entendermos melhor o assunto e, também, a oportunidade de conhecer pessoas como Christin Handrek, que vem de uma família que não teve envolvimento direto com o Nazismo, portanto, que integra e representa a parte essencial do povo alemão.