A vez das patroas: um novo olhar na música sertaneja

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, em 10 de julho de 2018, página A2.

Por Thífani Postali

Há alguns anos escrevi sobre a transformação da música sertaneja em um produto esvaziado pela indústria da música, marcado pelo chamado sertanejo universitário, cujas letras carregadas de repetições como “taim taim taim” , “che, che, che”, representavam o feminino de modo estigmatizado, numa posição submissa com relação à figura masculina, situação diferente das letras que estouraram nas décadas de 1980 e 1990, que lamentavam a traição ou o abandono da mulher cruel.

 Mesmo com as letras que colocavam a mulher em uma posição de superioridade, até pouco tempo, as produções e interpretações sertanejas eram realizadas quase que totalmente por homens, sendo que as mulheres apareciam apenas na forma de representação verbal, com raras exceções de duplas e nomes como As Galvão, As Marcianas ou, até mesmo, Fafá de Belém, que teve bastante visibilidade quando gravou a canção Nuvem de Lágrimas de Chitãozinho & Xororó.

Recentemente podemos acompanhar uma leva de mulheres que não só interpretam canções, mas que também compõem oferecendo uma nova roupagem ao gênero musical. Marília Mendonça, por exemplo, tornou-se a protagonista desse novo modo de fazer sertanejo, oferecendo narrativas que não exaltam o feminino ou o masculino, mas que os coloca de modo mais equilibrado. Cabe ressaltar que as duplas femininas das décadas passadas também ofereciam canções sobre o amor, mas na maioria das vezes, assim como as masculinas, produziam conteúdos de lamúria sobre os relacionamentos.

Ainda que o tema central seja o relacionamento amoroso – dominante em quase todos os gêneros musicais, as letras de Marília Mendonça contam histórias e situações mais suaves, alcançando um público mais genérico, fato que fez com que duplas renomadas no circuito sertanejo, como Henrique e Juliano, apadrinhassem suas composições. Nas narrativas, geralmente, as situações ocorrem no presente e, mesmo que uma ou outra aborde a traição – não tão frequente como antigamente –, a voz feminina da canção assume uma posição ativa, com mensagens que valorizam a mulher ou o relacionamento equilibrado.

E mesmo que ainda seja possível encontrar algumas narrativas  que remontam à ideia do homem traído pela mulher cruel, ou outras que colocam a mulher em situação de submissão, como no sertanejo universitário, hoje o que prevalece são as letras mais equilibradas quanto às questões de gênero, criadas por um olhar feminino mais atento.

Cabe lembrar que este artigo não pretende depreciar certas produções, e sim apontar diferentes formas de conteúdo, levando em conta que os textos culturais, de alguma forma, impactam no imaginário coletivo e podem provocar reflexões ou cristalizar estigmas sociais, neste último caso, contribuindo para a naturalização de questões que devem ser repensadas. Como a discussão é a posição feminina, passamos do olhar masculino sobre a mulher cruel que trai, para a mulher fútil, que está interessada apenas nos Camaros Amarelos, bebidas e festas oferecidas pelo homem para, agora, a mulher que tem voz, que é dona de si.

Posto assim, a música, com todo o seu arsenal comunicativo, é elemento cultural que oferece potencialidades para se pensar a sociedade e serve também como artefato para refletirmos as representações e relações sociais. Portanto, deve ser problematizada à luz das ciências. Ainda há muito que refletir sobre as relações de poder presentes nas canções sertanejas desde que o tema relacionamento amoroso tornou-se central.

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Posted on 3 de Setembro de 2018, in Sem categoria, Textos em jornal and tagged , , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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