Todo cancionista é músico!

*Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, em 26/01/2016 – Caderno A2.

Em diversos estudos que compreendem a prática musical, existe a preocupação em contrastar o que se considera em termos de música erudita e popular. Para tanto, considera-se, de maneira simplificada, o erudito como gênero musical racionalizado, consciente, elaborado, concentrado quanto à técnica, conteúdo e estilo, ao passo que o popular remete ao conhecimento empírico, intuitivo, de fácil consumo, descompromissado com técnica, conteúdo e estilo. Entretanto, Luiz Tatit contesta essas definições acerca do popular. Para ele, o músico popular pode ser entendido como “cancionista”, termo que utilizou para descrever o sujeito que não sabe como e quando aprendeu a tocar, compor ou cantar, mas que não é descompromissado com a técnica. Tatit parte da ideia de que o cancionista, apesar de não dominar a teoria musical, sempre soube fazer tudo isso, já que compor significa “dar contornos físicos e sensoriais a um conteúdo psíquico e incorpóreo. Pressupõe, portanto, uma técnica de conversão de ideias e emoções em substância fônica conduzida em forma de melodia”. Para o musicólogo, o cancionista é um “malabarista” pelo fato de possuir controle de atividade que permite equilibrar a melodia no texto e o texto na melodia. Lembra, ainda, que cantar exige um permanente equilíbrio entre os elementos melódicos, linguísticos, os parâmetros musicais e a entonação coloquial.
As noções sobre música erudita e popular ajudam a compreender as questões gerais acerca do conceito de música, entretanto, o significado que acolhe os dois gêneros é aquele que entende a música como sentimento, produtora de sensações, ou, como reforça J. Jota de Moraes, a “forma de representar o mundo, de relacionar-se com ele e de concretizar novos mundos”.
Assim, a música envolve mais que uma simples oralidade somada ao ritmo; a música envolve todo um sentimento que é específico de algum indivíduo ou grupo. Segundo Moraes, “a maneira de construir música varia de comunidade para comunidade, de época para época e, às vezes, de indivíduo para indivíduo. Cada povo, cada momento da história tem o seu próprio sistema de organização musical”.
Com relação à cultura popular, Tatit ressalta que quem ouve uma canção “ouve alguém dizendo alguma coisa de uma certa forma”. Deste modo, o que caracteriza a música popular é, justamente, o fato de o receptor reconhecer na música situações cotidianas. Portanto, o discurso oral mostra-se como característica importante da música popular, diferente da música erudita, que possui uma forte tendência no sentido de converter a voz em instrumento musical, segundo o teórico. Talvez seja esse um dos principais pontos que diferenciam a música erudita da popular: a primeira não se obriga ao conteúdo discursivo ao passo que a segunda o valoriza.
A questão é que, apesar de toda a definição sobre a música, equivocadamente, procura-se decidir qual tipo de produção musical vale mais. Como apresentado, pode-se entender que, independente da técnica, música é sentimento. E isso faz com que as discussões sobre o que vem a ser a “verdadeira arte musical” sejam subjetivas, pois tanto a música erudita quanto a popular são revestidas de sentimentos e repertórios particulares de seus idealizadores. Isso sem estender a discussão sobre como o jazz, que era uma música considerada popular até o início do século passado e, portanto, desvalorizada, passou a ocupar a posição de erudita após o governo reconhecê-la como cultura estadunidense. Hoje o temos como uma música refinada, passível de muito estudo, mesmo que tenha sido originada por cancionistas. Posto assim, não cabe determinar de forma absoluta o valor sobre a arte, pelo menos a partir de uma visão antropológica. Erudito e popular podem ter a mesma importância cultural.

Posted on 23 de Fevereiro de 2016, in Sem categoria, Textos em jornal and tagged . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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