A morte para Epicuro e os túmulos virtuais

Artigo publicado na edição de 16/12/14 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 002 do caderno A.
Paulo Celso da Silva
Thífani Postali
A comunicação humana surgiu da necessidade em encontrar em outro ser, a solução para a solidão e a troca de informações. Filósofos afirmam que o objetivo da comunicação humana é nos fazer esquecer do contexto de nos encontrarmos sozinhos e “incomunicáveis”. Antigamente, os humanos presenciavam o processo de decomposição dos corpos, e o ato da morte causava terror aos presentes, provocando sentimentos dolorosos. Através dessas sensações, surgiu a necessidade de se criar códigos que explicassem esse fenômeno.
Epicuro (341 – 270 a.C.) foi um filósofo grego que, vivendo em um momento turbulento da Grécia, desenvolveu uma filosofia onde o fim último é a felicidade. Para atingir esse fim, é preciso que nos livremos dos temores que nos afligem. Assim, dizia que a ética pode nos fazer atingir a felicidade, pois se sustenta na autonomia e na serenidade. São quatro os medos que devemos evitar: o tempo, que devora os prazeres de viver; a dor, que chega a qualquer momento; o temor aos deuses e, por último, o medo da morte. Este último é o que nos interessa.
Quais seriam os motivos para ter medo da morte? Epicuro diz que pode ser pela angústia do desaparecimento do meu Eu; pode ser por medo de castigos que virão; talvez pelo desconhecido. Mas isso é uma atitude racional, pergunta mais uma vez o filósofo grego? E mais, que entendemos nós por morte? De modo simples e direto, a morte é a privação de toda sensação, afirmava. Para fazer-se entender, Epicuro usava uma máxima: “Acostume-se a pensar que a morte não é nada para nós… Na há nada de temível em viver para quem compreendeu corretamente que nada temível há em morrer” (Carta a Meneceu, 124).
Alguns poderão dizer que não é a morte em si que traz o temor, mas a expectativa de morrer, essa espera sem dia, nem hora marcada. Epicuro, sobre isso, não tem dúvidas e, na Carta a Meneceu, 125, afirma: “A morte nada mais é para nós, posto que enquanto estamos aqui, ela não está, e quando ela estiver presente, nós não estaremos mais aqui. Em nada afeta, nem aos vivos e nem aos mortos, porque para aqueles não está e estes já não são. O sábio não recusa a vida e nem teme viver, porque não se aborrece em viver, nem considera que seja algum mal o não viver”.
Epicuro conclui com isso que temer a morte é irracional e a Humanidade já despendeu energia demais com esse temor insensato e essa preocupação com algo que não experimentaremos de forma sensitiva. Ele é categórico em dizer: “A morte não existe”.
Assim aceito, vamos para a contemporaneidade, suas tecnologias e às redes sociais, que permitem que pessoas incluam em seus perfis fotos, textos, ideias, eventos que participaram ou pretendem participar, relacionamentos, locais que estudaram ou estudam, rotina, etc, que se transformaram numa das formas mais utilizadas de comunicação, principalmente pelos jovens. Mas, o que acontece quando ocorre uma ruptura da vida?
Os perfis não seguem uma regra, como podemos observar. Cada pessoa coloca aquilo que acredita ser importante para mostrar às outras pessoas, de suas fotos escolhidas a frases que acredita compor a sua essência ou filosofia de vida. Alguns fazem diários, enquanto outros apenas recortam suas preferências. Mas a ideia aqui é discutir como essas redes sociais mediadas eletronicamente via computador, celular ou outro equipamento têm, a cada dia mais, servido como locais para manter memória, manifestar saudade e carinho. Em toda história vemos exemplos de como os homens buscam maneiras de eternizar seus mortos, seja em grandes pirâmides, esculturas, fotografias, contando a história de sua vida através da oralidade ou de livros, etc. Mas, diferente de uma foto, uma frase na lápide, uma imagem escolhida pela família, é possível, nas postagens que ela deixou nas redes sociais, reviver o que aquela pessoa escolheu para mostrar sobre si, uma infinidade de informações que talvez a pessoa não levasse ou quisesse em seu túmulo.
Amigos e familiares utilizam as postagens para escreverem frases religiosas, recados diversos ou contar histórias que viveram juntos. Ali, é possível relembrar momentos por meio de posts, fotos, vídeos e preferências do falecido. Em dias como aniversário, que é lembrado pelas próprias redes, e Finados, homenageia-se através dos perfis virtuais, ação cada vez mais frequente.
Independente dos sentimentos que esses espaços intangíveis causam às pessoas – que acreditamos serem, na sua maioria, ainda dolorosos, as redes sociais cumprem também esse papel de memória. Parodiando Epicuro, poderíamos dizer que “frente à morte, todos nós habitamos uma cidade sem muralhas” (Fragmento 339, Usener, Epicurea, 1887)
. Link: http://www.cruzeirodosul.inf.br/materia/585704/a-morte-para-epicuro-e-os-tumulos-virtuais..

Notícia publicada na edição de 16/12/14 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 002 do caderno A – o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.
Anúncios

Posted on 16 de Dezembro de 2014, in Textos em jornal. Bookmark the permalink. 2 comentários.

  1. Pois é “quais seriam os motivos para ter medo da morte” visto que fomos criados em uma sociedade onde a grande maioria cresceu na cultura cristã? Algo como “relaxa, é a porta de entrada do paraíso.” já deveria bastar.

    Mas na verdade, não somos como Teresa D’ ávila e não morremos por não morrer. Em certos momentos chegamos até a compartilhar do pensamento de Epicuro e acreditamos que ela não existe, ao menos para nós. Mas a dor pela morte do outro parece ser o verdadeiro temor pois, quando ela ocorre ainda estamos aqui.

    Abraço Thifani e Paulo, parabéns pelo artigo.

    • Que legal o seu comentário Tiago! É bem isso, temos medo da morte, penso que mais pela morte dos que amamos. Mas o medo da nossa, talvez seja de como iremos partir! Obrigada pela visita! Beijos!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: