Orlando: a cidade shopping

Os shopping centers têm seus projetos focados não somente numa boa estrutura arquitetônica ou nos detalhes de seu interior. Junto a essas preocupações, que são essenciais, possuem uma certa receita para induzir os indivíduos ao consumo.

As cores, principalmente as internas, são bem semelhantes: “tons pastéis”, ou seja, cores cruas – claras, neutras -, que têm o objetivo de não desviarem a atenção dos clientes das lojas e restaurantes. Os corredores largos e altos causam a impressão de vazio no visitante desavisado, que logo procura algo para preencher essa sensação inexplicável.

O mal-estar, causado pelo vazio, leva o indivíduo a consumir, mesmo que a intenção do passeio seja “apenas uma voltinha”. Aqueles que possuem melhores condições financeiras ou disposição à compra logo correm para as lojas prediletas em busca de alguma novidade; aqueles cuja situação não permite a busca pela novidade, procuram o que comprar, nem que seja um cafezinho ou um sorvete. Portanto, quem resolver passear em algum shopping bem planejado, fatalmente consumirá sem perceber que o motivo trata-se do seu cérebro tentando cobrir alguma necessidade, causada pela comunicação do ambiente, pois, junto ao prazer do passeio, terá a sensação de vazio e uma infinidade de estratégias de marketing que aguçam desejos.

O mesmo ocorre com a cidade de Orlando, localizada na Flórida – Estados Unidos. A “Disney”, como é popularmente conhecida, funciona como um shopping center. Aliás, talvez possamos arriscar a considerá-la um mega shopping, pois a cada piscar de olhos, nos deparamos com restaurantes e lojas nos convidando para as “Sale” ou “Off”.

Orlando também é composta por ruas largas e a arquitetura não contém muitos detalhes. Como lembra Paulo Celso da Silva, doutor em geografia humana, “é padronizada por lei, incluindo as cores das casas” que, assim como nos shoppings, são neutras. Alguns estabelecimentos capricham no tamanho, incluindo a altura, o que causa a sensação de vazio somada à ideia de estar numa “terra de gigantes”. Os cuidados são excessivos, nada de marcas nas paredes, lixo nos locais públicos ou buracos nas vias. Tudo parece estar impecável, assim como devem ser os estabelecimentos de maior referência.

Uma voltinha no mega shopping ao ar livre e pronto! A paisagem neutra deve ser rapidamente substituída pelo interior de algum estabelecimento comercial. Então, inicia-se a busca dentro de nossas necessidades básicas, algo que possamos eliminar naquele momento. Pode ser a fome (mesmo que não estejamos), que é a necessidade mais rápida de sanar, pode ser o prazer de comprar roupas para nos sentirmos diferentes, especiais, ou até um eletrônico para nos propiciar a impressão de modernos. Consumo efetivado, desejo suprido e pronto! Agora, vamos à diversão.

Diferente do ambiente urbano de Orlando, os parques de diversão aparecem para preencher todo o vazio causado. Uma explosão de cores vivas, diferentes arquiteturas e movimentos despertam a atenção a todo o momento. O mundo da fantasia faz com que o turista sinta, a cada passo, curiosidade ou nostalgia por viver parte de algo que viu na televisão. Como os estudos sobre o comportamento do consumidor sugerem, trata-se do “horizonte da transcendência”, em que o indivíduo “sonha acordado”, superando o seu cotidiano. Alguns gastos extras com pelúcias, camisetas ou outros presentes, a fim de materializar, congelar aquele momento, e a saída do parque para a cidade trazem à tona todas aquelas comunicações que nos fazem, inconscientemente, sentir o vazio inexplicável.

Ocorre que a cidade estadunidense, em sua totalidade, não é só como se apresenta na região turística. Orlando, como qualquer outra, possui os problemas comuns de um ambiente urbano. Fora do contexto planejado, as ruas são estreitas, mal cuidadas. Os lixos e matos tomam conta de espaços abandonados, enquanto pedintes, com seus carrinhos de supermercado, imploram por esmolas nos sinaleiros. Cabe salientar que esses ambientes raramente serão explorados por turistas, pois o GPS sempre os levará aos destinos por meio das grandes avenidas e estradas planejadas.

Deste modo, quando analisamos a Orlando para turistas, podemos perceber um universo projetado para o “horizonte da transcendência” em conjunto com as estratégias de marketing bem empregadas. Dos ambientes externos às táticas de promoção, o indivíduo acabará consumindo o máximo possível, ora pelo vazio inconsciente – como apresentado -, ora pelas instigantes ofertas que o fazem levar inúmeros produtos iguais. Talvez, esse seja um dos principais motivos de Orlando atrair tantos brasileiros vislumbrados não só por viverem alguns dias da “vida americana” – apresentada pelos produtos midiáticos – mas, principalmente, pela possibilidade de consumo.

Artigo publicado no Jornal Cruzeiro do Sul, em 01/07/2014, caderno A2.

Link: http://www.cruzeirodosul.inf.br/materia/555963/orlando-a-cidade-shopping

Posted on 1 de Julho de 2014, in Textos em jornal and tagged , , , . Bookmark the permalink. Deixe um comentário.

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