As telenovelas e a promoção do turismo

Artigo publicado na edição de 08/10/13 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 002 do caderno A

Poemas, teatros, textos literários, músicas entre outras produções sempre apresentaram suas histórias descrevendo locais, muitas vezes detalhando cenários de cidades e regiões. É incontestável a força que uma boa descrição tem em despertar o interesse do público para conhecer os espaços tratados nas produções, conferindo o que o autor detalhou.

Após a literatura, o rádio surgiu no século XX possibilitando o interesse de um maior número de pessoas a respeito das localidades narradas. O meio de comunicação que não exigia a decodificação de letras – bastava ouvir e entender a língua – apresentava histórias que aconteciam em diversos lugares, aguçando a imaginação de ainda mais pessoas. No Brasil, podemos citar a música como exemplo de atração de turistas de inúmeras partes do mundo para a cidade do Rio de Janeiro, que foi poetizada por compositores como Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Gilberto Gil, entre outros nomes que fizeram história na música popular brasileira.

Ainda no século XX, quando surgiram o cinema e a televisão, as cidades e demais espaços geográficos passaram a ser apresentados a partir de produções pré-estabelecidas onde se mostra apenas aquilo que convém. Não que antes fosse diferente, mas agora as produções ganham forma e visual, relaxando o imaginário das pessoas, já que antes dessa tecnologia cabia ao público imaginar o personagem alto, magro, bem vestido no café de Paris; agora, identifica-se sem esforço o personagem, suas expressões, bem como os detalhes do café. Todas as pessoas que têm acesso ao cinema e a televisão recebem a mesma informação, independente da leitura que fazem, diferente de antes, quando cada qual imaginava o personagem e o espaço de acordo com o seu repertório cultural.

Por outro lado, a comunicação midiática audiovisual contribui de forma crucial para apresentar diversas cidades, mesmo que recriando-as. Como lembra a autora Célia Castro, da Universidade de Barcelona, “o cinema e a televisão impulsionaram a formação de um imaginário coletivo durante o século XX e agora no XXI; a televisão incide, com sua poderosa cotidianidade, no desenvolvimento de uma memória coletiva, apresentando realidades, mas também forjando estereótipos”. É a partir dessas considerações que refletiremos sobre as produções audiovisuais brasileiras, em especial, sobre as telenovelas da Rede Globo, a partir do século XXI.

Há algum tempo, diversas telenovelas globais são gravadas com cenas em diferentes países, inclusive naqueles que possuem modos de vida – culturas – estranhos aos olhos e padrões dos brasileiros. Pensemos as produções a partir do ano 2000. O Clone, 2001, de Glória Perez, passou grande parte de sua história em Marrocos; Caminho das Índias, 2009, da mesma autora passou em Rajastão – Índia; Passione, 2010, de Silvio Abreu, na Ítália; Salve Jorge, 2013, de Glória Perez, na Turquia, entre outras veiculadas na primeira década do século XXI.

Algumas novelas aparentemente pretendem apresentar a identidade cultural de um determinado povo, visto que o Brasil é um país caracterizado pela diversidade cultural, em especial, italianos, espanhóis, africanos, japoneses etc. A questão é que, de um tempo para cá, as tomadas das imagens passaram a focar outros fatores que não só os culturais. Muitas cenas parecem mais propagandas que histórias de telenovelas. Em Salve Jorge, como exemplo, a personagem para em uma barraca na Turquia mostrando as “lindas pulseiras legítimas” em seus braços. Se recortássemos essa cena, inserindo um texto publicitário, obviamente perceberíamos o teor mercadológico da produção.

A promoção de produtos nas telenovelas nunca foi segredo. Das propagandas de carros escancaradas a um pingente de pombinha ou pulseiras indianas, essas produções sempre tiveram o poder de promover o consumo e ditar moda, mesmo que de forma não programada. Ocorre que, atualmente, parece estar havendo a promoção do turismo, não apenas internacional, como colocado anteriormente, mas nacional, como a novela Flor do Caribe que se passa no Rio Grande do Norte. Só para constar, essa novela apresenta imagens aéreas que mostram as principais praias da região.

Os resultados dessas produções gritam quando surgem conteúdos relacionados nos principais meios de comunicação do país. As folhas de Turismo dos jornais abordam as “maravilhas” das regiões enquanto, ao lado da matéria, as empresas de turismo apresentam os valores para a viagem. Assim, hoje parece estar ocorrendo mais que o desejo natural de conhecer algo por se identificar com uma boa história num determinado lugar. Dá para se perceber a indução para o desejo turístico, a promoção de locais como produtos – maior especialidade dos profissionais de marketing.

página: http://www.cruzeirodosul.inf.br/materia/507210/as-telenovelas-e-a-promocao-do-turismo

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Posted on 11 de Outubro de 2013, in Textos em jornal. Bookmark the permalink. 2 comentários.

  1. Artigo gostoso de ler , totalmente intendível e atual. Além de uma boa pitada de como o meio de comunicação influencia na decisão do ser humano.

    Fantástico !!!

  2. Obrigada Marcos, que bom que gostou! Abraços!

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